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Por uma ciranda “adolescêntrica”: no ritmo da beleza, do encontro e protagonismo

 

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07/05/2018: Brasil

 

Ir. José Sotero dos Santos Neto [1]

1. PARA INÍCIO DE CONVERSA

A adolescência é uma etapa que anuncia transformações e rupturas em todas as dimensões. Período de mudanças que vão desde o corpo, perpassam relações interpessoais, sexualidade, força, emoções, desejos, sentimentos, afetando também a capacidade de compreender e explicar o mundo e as coisas.

Diante do exposto, como acompanhamos nossos adolescentes no processo de maturidade, autonomia, escolhas e construção do projeto de vida? Ficamos extasiados perante a beleza deles? Quais são os valores que permeiam nossa relação com os adolescentes?

Nesse sentido, a beleza desperta o amor e nos faz ver no outro um próximo a amar. Ela tem como proposta a gratuidade, exige tempo, contemplação, admiração... Sinaliza ao Transcendente, conduz ao mistério. O divino sacramentaliza o corpo do adolescente como instrumento revelador da beleza trinitária.

 Portanto, a percepção do divino encarnado no corpo do adolescente, adquire cidadania a partir da nossa abertura a esta novidade e aos desdobramentos diversos que ela provoca.

 

2. PAPO CABEÇA: “Fala, sério!”

A adolescência mesmo ao ser considerada a fase crucial do desenvolvimento humano, também é a garantia do futuro da sociedade, em particular da Igreja. É o período que marca a definição da imagem corporal e a percepção de mundo na interiorização de valores que deixarão reflexos na estrutura da personalidade.

A sociedade atual tem feito um caminho perigoso em vista da agenda neoliberal do mundo presente, uma autêntica ameaça ao futuro da humanidade. Na verdade, a pessoa humana está sendo tratada como mercadoria descartável pelo sistema financeiro vigente. Assim, é preciso criar consciência e atitudes de que outro mundo é possível, como por exemplo, através da reflexão madura com desdobramentos práticos na vida dos adolescentes, para que seja dado verdadeiro sentido à vida e às diversas relações sob a ótica da fé na conquista de valores e vínculos geradores de dignidade, respeito, protagonismo juvenil e fraternidade.

Ademais, numa sociedade que investe todas as forças na visão deturpada de beleza ao privilegiar a aparência estética em detrimento da harmonia interior, permite que os adolescentes no ápice das mutações físicas do corpo sejam “bombardeados” por uma filosofia utilitarista e mercadológica. Portanto, é urgente que o fenômeno da adolescência seja vislumbrado de acordo com o conjunto de suas características, não somente físicas em seu corpo, mas mudanças profundas e amplas num processo transformador e limiar entre a adolescência e a idade adulta.

Neste sentido, a construção de uma sociedade balizada por valores éticos promotores da justiça e dignidade humana, perpassa e atinge no âmago da população juvenil, em específico no universo dos adolescentes. Dessa forma se faz necessário interiorizar a seguinte profecia - refletir sobre adolescência é vincular-se a um projeto de humanidade, de concepção de ser humano e sociedade.

 

3. ADOLESCENTES: intensos, profundos e excitantes...

Em vista da pesquisa para produção do TCC em Teologia, pelo Instituto Santo Tomás de Aquino – ISTA, em Belo Horizonte/MG, cujo tema é: A beleza do sagrado como interface evangelizadora no universo teen[2]; me senti instigado na percepção crítica a vislumbrar a realidade evangelizadora destinada aos adolescentes pelo Brasil Marista, especificamente na Província Marista Brasil Centro-Norte.

Na verdade, a reflexão elaborada a partir do universo das adolescências deseja ser um contributo na efetivação, com provocações pontuais, do carisma marista junto a esses interlocutores, cuja faixa etária é maioria em nossas unidades educacionais. Portanto, acredito que precisamos avançar, de maneira criativa, numa proposta integral de evangelização com uma pedagogia própria para o público teen.

Seguindo a motivação do nosso ex-Superior geral – Emili Túru, em sua carta[3] “A dança da missão”, nos apropriamos da ciranda, para congregar a todos de forma contagiante a darmos as mãos aos nossos adolescentes, num ritmo que pulse beleza, encontro e protagonismo. Assim, estaremos atentos no caminho do seguimento ao Mestre de Nazaré, a fim de que nossa presença seja geradora de vida e sonhos para realização do Reino de Deus aqui e agora, no contexto e na realidade onde estão os adolescentes, fazendo-os levantar das diversas situações de morte e trazendo-os para o meio da comunidade.

 

4. INSPIRAÇÃO MARISTA: histórias em família

Com o intuito de exemplificar que desde as origens do Instituto Marista os adolescentes são os nossos principais interlocutores, apresento dois fatos históricos que marcam o início do peregrinar missionário do nosso Fundador – São Marcelino Champagnat.

 

Visita ao adolescente Montagne[4]

Chamado a confessar um jovem doente[5] num povoado, pôs-se imediatamente a caminho, conforme seu costume. Antes de ouvi-lo em confissão, fez-lhe uma série de perguntas para saber se tinha as disposições necessárias para receber os sacramentos; estremeceu ao verificar que ele ignorava os principais mistérios, não sabendo nem mesmo se Deus existia. Aflito por encontrar um rapaz de doze[6] anos mergulhado em tão profunda ignorância, e temendo vê-lo morrer nessa situação, sentou-se ao lado do doente e começou a ensinar-lhe os principais mistérios e as verdades essenciais da salvação.

 

O menino Jean-Baptiste Berne[7]

Mais ou menos na mesma época chamaram-no à cabeceira de uma senhora doente para confessá-la. Encontrou-a na maior penúria, sem ter sequer lenha para se aquecer. Confessou-a, consolou-a, exortando-a a confiar em Deus e a oferecer-lhe seus sofrimentos e suas privações. Entretanto, compreendendo que em tais situações não bastava palavras de conforto, mandou trazer-lhe todo necessário para comida, roupa e lenha. Arranjou-lhe uma assistente para o dia e a noite e contratou um médico para examiná-la e tratá-la gratuitamente. Quando a mulher faleceu, assumiu o cuidado de um filho que ela deixara, devido à prolongada doença da mãe e de sua extrema indigência, o garoto não recebera nenhum princípio religioso e já havia contraído mais hábitos que, corrompendo-lhe o caráter e o coração, tornaram inúteis, por muito tempo, os cuidados que tiveram com ele.

Os Irmãos, a quem o Padre o confiou, não lhe deixaram faltar nada, quanto o roupa e comida. Foi matriculado na escola. Procuraram incutir-lhe princípios religiosos, corrigir-lhe os defeitos e os maus hábitos. Ele, porém, em vez de aproveitar das atenções que lhe prodigalizavam e mostrar-se agradecido, não correspondia à bondade senão malcriações, ingratidão e rebeldia. Acostumado a viver na vadiagem e a seguir sem freio as más inclinações, não agüentou enquadrar-se em regulamentos de escola, não aceitava as advertências nem os conselhos paternais dos Irmãos. Fugiu várias vezes, preferindo mendigar comida e viver vida de rua, a submeter-se à disciplina escolar. Cada vez os Irmãos iam buscá-lo de volta e usavam de todos os meios sugeridos pelo zelo para trazê-lo a melhores sentimentos, corrigi-lo e conquistar-lhe a amizade. Desanimados porém, com o pouco resultado de seus esforços, acabaram pedindo ao Pe. Champagnat que o abandonasse à própria sorte, “pois, disseram-lhe, estamos perdendo tempo com esse rapaz. Mais cedo ou mais tarde, seremos obrigados a mandá-lo embora”.

O piedoso Fundador, de zelo mais perseverante e indulgente, convidou-os, num primeiro momento, a ter mais paciência e rezar pelo malandrinho. Diante da insistência dos Irmãos em exigir a expulsão, ponderou-lhes: “Meus amigos, se o problema é simplesmente ver-se livre do pobre órfão, nada mais fácil. Mas que mérito haveria um jogá-lo na rua? Se o abandonarem, será que Deus não vai pedir-lhes conta de sua alma? Além disso, não lhes pesa na consciência desperdiçar a ocasião de exercitar a caridade e o zelo e, conseqüentemente, perder o mérito de reconduzir esse menino ao caminho da virtude? Se vocês o mandarem embora, Deus dará a outros o cuidado e a graça de educá-lo. E vocês vão lamentar terem perdido, por impaciência, esta glória missão, e será tarde demais. Adotamos este garoto. Não podemos mais abandoná-lo. Temos que guardá-lo conosco, embora nos incomode e não corresponda às nossas atenções. Devemos trabalhar sem desanimar, para que ele mude. Tenham coragem. Deus não vai permitir que tantos sacrifícios por amor desse órfão, tantos atos de caridade praticados para com ele, fiquem sem resultado. Rezem por esse menino e, tenho plena certeza, em breve lhes dará tanta consolação, quanto desgosto lhes tem causado”. Dito e feito. Pouco tempo depois, aquele menino impossível que, por anos a fio causava tanto desgosto aos Irmãos, mudou completamente: tornou-se calmo, dócil, ajuizado, parecia um anjo. Após a Primeira Comunhão, feita nas mais edificantes disposições, solicitou admissão ao noviciado. Foi atendido. Cheio de estima por sua vocação, veio a ser um Irmão  piedoso, regular e obediente. Faleceu como um santo na idade de vinte e um anos, nos braços do Pe. Champagnat, cheios de gratidão pelo grande bem que lhe fizera.

 

5. INQUIETAÇÕES JUVENIS

“na ausência de uma proposta evangelizadora que corresponda às necessidades dos adolescentes, estes acabam se inserindo nos grupos destinados aos jovens”(CALANDRO; LEDO. p.114: Estudos da CNBB, 85, Evangelização da juventude, n.45)

Diante das realidades “adolescêntricas”, sugiro algumas iniciativas:

* Assumir o universo das adolescências como parte do processo global de evangelização, de maneira a delinear um projeto de trabalho sistematizado.

* * Valorizar e atender o processo de formação integral dos adolescentes, levando-se em conta duas etapas de desenvolvimento: a etapa que vai dos 11 aos 14 anos, estendendo-se dos 15 aos 18 anos.

* Despertar uma valorização social para esta etapa da vida. Cuidado com a manipulação indiscriminada das idades: elevam-se ou diminuem-se, de acordo com os interesses em questão. Prevalece uma adaptação do projeto das crianças e dos jovens.

* Conscientizar para uma mudança de mentalidade a respeito dos adolescentes. É um período que supera a delimitação do conceito de etapa de transição, possui especificidades, riqueza e potencial únicos.

* Conhecer os adolescentes e seu contexto para descobrir os valores e potencialidades que precisam ser acompanhadas e impulsionadas;

* Identificar o momento vital pelo qual os adolescentes estão passando;

* Inculturar a proposta da pedagogia pastoral para uma evangelização encarnada no mundo dos adolescentes;

* Empoderar, enquanto Maristas, as adolescências como interlocutores da nossa missão.

* Criar espaços formativo-experienciais sobre o universo dos adolescentes: afetividade, sexualidade, corporeidade, amizade, política, meios de comunicação social, relação com as autoridades (pais, escola...), drogas/álcool/prostituição, cidadania e engajamento social, projeto de vida...

* Aquecer o sentido de grupo por meio da promoção de vínculos: oportunidades de convivência e partilha de vida e sonhos...

* Trabalhar valores, apresentar o Mistério como um valor;

 

CONCLUSÃO

A história marista, com forte aceno para as origens, enriquece e sinaliza para o protagonismo e predileção dos adolescentes entre nós, Maristas de Champagnat.

De igual maneira, diante da realidade evangelizadora do carisma marista... Quais são os apelos e interpelações atuais que esses interlocutores permanecem a nos fazer?!Quais opções pastorais precisam ser efetivadas para que a festa, enquanto celebração pela vivacidade e inteireza dos adolescentes seja realizada?!

Percebe-se que na vivência do protagonismo juvenil está uma Teologia da saída de um mundo de dependência e consumismo para um mundo de liberdade. Como também a saída de um mundo em que se recebe cuidados mil como criança e adolescente, para um mundo que requisita cuidados para consigo mesmo, com os outros e com a natureza. É a gradativa abertura do horizonte da vida que se processa, levando a pessoa a crescer na perspectiva da transcendência.

Por fim, éum convite para abrir-se às relações, sem perder a identidade. É permitir que o outro entre na sua vida como um igual, para que juntos façam o percurso da busca e conquista. A ciranda adolescêntrica já foi iniciada e está girando no ritmo da civilização do amor, “entre na roda com a gente”...

 

BIBLIOGRAFIA

* BÍBLIA Sagrada. Disponível em: http://www.bibliacatolica.com.br/biblia-            ave-maria/sao-lucas/2/. Acesso em 11 de dezembro de 2015.

* BOFF, Leonardo. “A beleza salvará o mundo”. Disponível em: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/530983-a-beleza-salvara-o-mundo-dostoiewski-nos-ensina-como-artigo-de-leonardo-boff. Acesso em 11 de dezembro de 2015.

* BROSHUIS, Inês. A beleza que seduz. Disponível em: http://www.catequistasemformacao.com/2014/08/artigos-o-belo-ludico-e-mistico-na.html. Acesso em 11 de dezembro de 2015.

* CARVALHO, Alysson; SALLES, Fátima; GUIMARÃES, Marília (orgs.). Adolescência. Belo Horizonte: UFMG; Proex - UGMG, 2002. 122p.

* CALANDRO, Eduardo; LEDO, Jordélio Siles. Psicopedagogia Catequética: Reflexões e vivências para a catequese conforme as idades, vol. 2 – Adolescentes e jovens. São Paulo: Paulus, 2010. (Coleção: Catequese conforme as idades).

* CELAM – SEÇÃO JUVENTUDE. Para uma Pastoral de Adolescentes. São Paulo: CCJ – Centro de Capacitação da Juventude, 1998. 40p.

* CONFERÊNCIA Nacional dos Bispos do Brasil. Diretório Nacional de Catequese. Brasília: Edições CNBB, 2006. 219p.

* CRESTANI, Alfredo. Adolescência: tentando compreender o que é difícil entender. Porto Alegre/RS: EDIPUCRS, 2016. 199p.

* DICK, Hilário. O divino no jovem: Elementos teologais para a evangelização da cultura juvenil. São Paulo: CCJ – Centro de Capacitação da Juventude, 2009. 96p.

* EXORTAÇÃO Apostólica do Sumo Pontífice Francisco. Evangelii Gaudium: sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual. São Paulo: Paulus e Loyola, 2013.

* FURET, Jean-Baptiste. Vida de São Marcelino Champagnat. São Paulo: Loyola; SIMAR, 1999.

* OLIVEIRA, Vilson Dias de. Catequese com adolescentes. São Paulo: Paulinas, 2011. (Coleção Pedagogia da fé).

* PALAORO, Adroaldo. Trindade e mundo, diferenças que se amam. Disponível em: http://www.catequesehoje.org.br/index.php/raizes/espiritualidade/724-trindade-e-mundo-diferencas-que-se-amam. Acesso em 11 de dezembro de 2015.

* PONTÍFICIAS Obras Missionárias – POM. Adolescentes sem fronteiras: Roteiros para encontros de grupos. Brasília: POM, 2015. 176p.

* PROVÍNCIA Marista Brasil Centro-Norte. Marco Referencial da Pastoral Juvenil Marista – PJM. Brasília: UBEE/UNBEC, 2008. 110p.



[1]Texto produzido pelo Ir. José Sotero dos Santos Neto, graduado em Teologia pelo Instituto Santo Tomás de Aquino – ISTA, em Belo Horizonte/MG e coordenador de Pastoral no Colégio Marista Patos de Minas, em Minas Gerais.

[2]Para aprofundamento sobre o universo das adolescências: http://periodicos.pucminas.br/index.php/percursoacademico/article/view/14621

 

[3]http://www.champagnat.org/e_maristas/emili_turu/LetterEmili2015_pt.pdf

[4]FURET, Jean-Baptiste. Vida de São Marcelino Champagnat. São Paulo: Loyola; SIMAR, 1999. p. 56

[5]Jean-Batiste Montagne, residente no lugarejo de Palais, além de Bessat.

[6]O Ir.Francisco, numa conferência faz alusão ao jovem moribundo, cuja morte vai estimular o zelo do Pe.Champagnat; mas lhe atribuía idade de 17 anos. Este adolescente, Jean-Baptiste Montagne, nasceu no dia 20 de floreal do ano 8 (= 10 de maio de 1800) e morreu em  28 de outubro de 1816. Tinha, pois, 16 anos e meio (cf. Registre de catholicité de La Valla)

[7]Outro relato de adolescente na vida do Pe.Champagnat: FURET, Jean-Baptiste. Vida de São Marcelino Champagnat. São Paulo: Loyola; SIMAR, 1999. p. 477-479

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