Inicio > Mundo marista > Brasil: Champagnat, mestre de obras

Sínodo sobre los jóvenes

 


 



 


Conectarse

Hermanos maristas

RSS YouTube FaceBook Twitter

 

Foto de hoy

Filipinas: Retiro de hermanos en Lake Sebu, South Cotabato

Hermanos maristas - Archivo de fotos

Archivo de fotos

 

Últimas novedades

 


Llamadas del XXII Capítulo General



FMSI


Archivo de novedades

 

Calendario marista

23 octubre

Santos:Juan de Capistrano, Servando

Calendario marista - octubre

Champagnat, mestre de obras

 

Archivo: 2018 | 2017 | 2016 | 2015 | 2014 | 2013 | 2012 | 2011 | 2010 | 2009 | 2008 | 2007 | 2006 | 2005 | 2004

30/05/2018: Brasil

 

Jean Marcos Gregol Gwiazdecki, leigo marista do Brasil, condivide com o mundo marista um pequeno esboço sobre sentimentos da sua relação afetiva com Marcelino.

______________

INTRODUÇÃO

Toda noite, com pouca luminosidade, sento-me na frente do computador e, entre muitas coisas, prendo-me a escrever, ou melhor, me sinto livre para escrever. As inspirações vêm principalmente nos momentos de chuva, o espírito fica mais leve e a mente “dança” como numa suave valsa. Embora chova pouco por aqui de onde escrevo, e embora eu seja um péssimo dançador de valsa comparado à minha mente, senti-me inspirado a escrever sobre algo que sempre amei, ou sobre alguém que amo desde que conheci. A ideia não veio de uma caminhada na praia, nem de uma aventura nas matas e florestas, enriquecidas com cachoeiras e belas paisagens. O presente escrito surgiu quando me deparei com andaimes alçados em uma reforma de um grande prédio. Aqueles senhores lá no alto me fizeram lembrar duas pessoas, a primeira é seu João Artêmio Gwiazdecki, meu pai, pedreiro, grande construtor e que não é muito fã de altura, embora se arrisque nela para trabalhar. O segundo é de São Marcelino Champagnat, que também é um pai – em Jesus e em Maria – que também foi pedreiro, menos experiente é verdade, mas um grande construtor. Seu João além de muros construiu uma família, Champagnat da mesma maneira, uma nova e diferente família. Com Marcelino, apesar de ser formada por homens, essa “família” é comandada por uma Mulher, Maria. Na família do seu João, embora sejam três homens – tem meu irmão Paulo Cesar -, quem dá o tempero final é uma mulher, dona Teresinha. São muitas as comparações a serem feitas e, as que fiz, foram para dar um primeiro sentido de porque tenho me apaixonado tanto por essa história marista, porque de uma maneira ou de outra ela adentrou na minha vida e eu me senti em casa, porque na verdade, ela também é minha casa.

Mas, para deixar entendido, não vou contar a história de minha família biológica, nem mesmo contar a história do Instituto Marista, mas falar da vida de seu fundador, São Marcelino Champagnat. Não me prenderei a uma narrativa cronológica, nem muito histórica, porque já somos ricos dessas obras no nosso Instituto. O que pretendo, a partir dos meus sentimentos e da minha relação com Champagnat, é expor um pouco do que penso a seu respeito, sem ignorar por sua vez, a história factual de Marcelino, mas sem preocupações maiores com datas e números. Aos que começaram a conhecer Champagnat, convido-os a se aprofundarem e a conhecerem mais. Devido ao amor ao nosso fundador, os maristas muito escreveram sobre seu santo pai, sobre sua vida e a de tantos outros irmãos, frutos da mesma árvore, tijolos do mesmo edifício.

 

CHAMADO A SER!

No silêncio, em meio à barulhenta Revolução Francesa, ecoa o choro de um menino, o pequeno Marcelino, filho da família Champagnat. As lágrimas do início contemplam o milagre da vida, as lágrimas do fim as dificuldades que nela se encontraram. O futuro homem de vigor e coragem começa no choro inocente e na lágrima de um menino vulnerável e dependente. As primeiras fraquezas, tanto as de criança quanto as de homem, fizeram dele um ser humano forte. Neste ano de 1789 iniciaram-se duas revoluções, uma propriamente dita, a Revolução Francesa, e outra de modo metafórico, marcada pelo nascimento de um homem que também revolucionou – nos pequenos vilarejos franceses por meio da fé e da educação. Não revolucionou porque era um revolucionário, pois nunca quis sê-lo, revolucionou por um caminho não tomado por todos, que normalmente buscam a revolução para obter aquilo que desejam: o bem, a democracia, a ordem, o poder e tantas outras coisas. Marcelino, no entanto, fez um caminho contrário, primeiro quis o amor, a educação e a vontade de Deus e isso é que resultou em algo revolucionário.

Ele era, e é para nós, seus filhos em Jesus e Maria, um homem de fibra e de vigor, tal como foi São José, mas com uma sensibilidade e sutileza como tinha a Virgem Maria. Características que certamente herdou de seus pais e de sua tia Luiza. Eles não eram a Sagrada Família, mas sem dúvidas, foram uma família sagrada.

A família, no desejo cristão, é a expressão profunda do amor, ou de amores. E só pode ser ele, o amor, seu verdadeiro motivador. Quando o homem e a mulher se casam, não juntam apenas as escovas, mas senão o coração, o espírito, a carne... Em suma, tornam-se apenas um. A família do campo é sempre uma família rica, mesmo que seja pobre. O cuidado com a terra, com os animais, com sua propriedade, o trabalho de todos os dias e o fim da tarde em torno da mesa para rezar e se alimentar é o que a enriquecem. A família de Champagnat era camponesa e ele também era. Cuidava das ovelhas como um bom pastor. E é nesse ambiente que recebe sua primeira educação.

Ressalto a família não porque ela seja a melhor das vocações, mas porque ela é mãe de todas as outras. A partir dela as outras vocações existem. Na vida de Champagnat perpassarão fortemente os chamados que Deus faz à Igreja e ao seu povo, o primeiro que é o matrimônio em seu ambiente familiar; o segundo que é a sua, a vocação sacerdotal; a vocação religiosa consagrada em terceiro lugar com os irmãos e, por fim, a presença dos leigos não consagrados, benfeitores do nosso Instituto e que mais tarde se tornarão efetivamente corresponsáveis por essa missão. E essa é uma importante lembrança: os leigos não substituem os irmãos, e não são merecedores de fazer parte dessa família porque está diminuindo o número de irmãos. Os leigos têm o seu espaço de direito, porque são parte comum da família marista. São membros de fato, são leigos, e isso, por si só, salvaguarda o seu lugar.

Tudo isso é chamado de Deus. A vocação é a oportunidade de servir de um modo específico, e carrega em si todas as belezas que contemplam o serviço, porque é, ou deveria ser, antes de tudo, o desejo de amar sem medida. Afinal, o amor é a beleza que vem de onde nasceu toda Beleza.

Fundamentalmente, a primeira vocação é o chamado à vida. Repetimos isso com frequência, mas é algo que por vezes passa despercebido, pois se a primeira vocação é a vida, essa deve ser nossa primeira preocupação. Não podemos esquecer-nos de cuidar dela. Como também cuidar e zelar pela vida de tantas outras pessoas, sobretudo daquelas que mais precisam. Porque a esperança não pode morrer antes de nenhum ser humano. O ser humano – todo ser humano – é criatura sagrada, porque é filho do Sagrado Criador.

E a maneira que Deus nos chama é variada, Ele pode nos pegar até pelos pés, como dizem alguns que adentraram à vida marista por meio do futebol. Na vida de Marcelino foi mais ou menos assim. Não podemos dizer nós, ao certo, o momento que sentimos esse chamado à vocação. Mas existem momentos da vida que vão se somando e mais tarde tornam o chamado de modo efetivo. Champagnat teve experiências assim também. No seu primeiro dia de aula, por exemplo, se deparou com um professor impaciente e violento, que deu uma bofetada no rosto de um colega de sala, que quis ajudar o jovem Marcelino na leitura. Nesse fato que desagradou Champagnat e que o marcará para o resto da vida, pode-se tirar um novo apelo de Deus. Deus não fica fazendo apelos o tempo todo. Nem nós escutamos sua voz em alto e bom som. Mas não quer dizer que Ele não os faça durante a nossa história.

 

AMOR, UM ANTÍDOTO

 Quando Deus criou o mundo, o fez com um desejo de que todos os que aqui vivessem, se encontrassem em harmonia e se sujeitassem a viver como irmãos e irmãs, compartilhando a terra que é nossa irmã comum, mais velha e filha do mesmo Pai. Mas então o mundo caminhou para lados equivocados, cometeu erros, escravizou o povo, e os grandes começaram a dominar e a explorar, até que o Grande criador se tornou menino, e nasceu num vilarejo para se mostrar ao mundo. Deus já era conhecido pela humanidade, mas como alguém distante onipotente, grandioso, inefável. Mas ao se encarnar, ao se tornar carne, ele assumiu todas as nossas dores, assumiu na carne a humanidade. E mais do que apresentar o verdadeiro Deus, ele quis dizer que somos filhos do Deus Pai, e como filhos, nossa relação com ele muda. Jesus, o filho de Deus nos deu muitas coisas, entre elas a certeza de que temos um pai em comum, Jesus nos fez filhos de Deus, porque primeiramente se fez nosso irmão. Agora nos vemos como amados, por um Deus que é pai, que é amor, que é misericórdia. Quando veio, mostrou o caminho, a verdade e a vida, porque Ele próprio o era. E, por amor, doou-se sem medidas. O seu amor tinha braços abertos, mesmo que o fossem numa cruz. Mas, ainda assim, o ser humano tomou rumos que desviam do amor, e nesses desvios diários é que encontramos o apelo de Deus. O apelo é eterno: vivam no amor! E toda vez e em todo lugar onde esse amor não se concretiza, há ali o apelo de Deus.

Champagnat soube ouvir. O fato ocorrido na escola toca o coração de Marcelino. Mas essa marca negativa o fez tomar uma iniciativa positiva. Essa é uma das maiores virtudes em Champagnat e em muitos outros santos, que recebem o veneno e ao invés de jogá-lo fora, o transformam em antídoto. Esse antídoto servirá para salvar muitas crianças e jovens do veneno que é a má educação ou a ausência dela. Apaixonar-se por aquilo que lhe fez bem é natural, apaixonar-se por algo que não foi bom é paradoxal. A má educação recebida não fez Champagnat negá-la, mas fez amá-la e por isso a quis transformar. Ele não quis rejeitar a educação, mas quis educá-la. E isso faz dele alguém especial.

Sem dúvida Marcelino se inspirou na sensibilidade de Maria, a mãe de Jesus e nossa Boa Mãe. E essa sensibilidade mariana de Marcelino o fez caminhar. Ser sensível não é só reparar que há algo de errado, a isso damos o nome de percepção. A sensibilidade vai além, ela percebe, mas também quer transformar. E assim o fez. Ele é solícito não apenas com uma pessoa, mas com a sua sociedade. No entanto, ele não opta por amar essa sociedade, mas amar a cada um e cada uma que dela faz parte. Não é amar o todo, mas amar cada pedaço que complementa o todo.

E quando ordenado padre, na casa do jovem Montagne, uma nova e derradeira missão. Tudo já estava na sua cabeça, mas o fato como tal o fez tomar uma iniciativa que não teve mais fim. A fundação da congregação marista. Nessa visita Marcelino fez algo parecido com o caminho de Emaús, reconheceu o Cristo, não na partilha do pão, mas na falta dele. O pão dos homens, e o Pão da Vida, desconhecido por aquele jovem. E ali Marcelino viu o grande apelo de Deus. Essa é uma história que me toca profundamente. É claro que alguns levantarão questionamentos sobre sua veracidade, com motivos talvez bons que eu ainda não encontrei. Pessoas que o entendem como se fosse um conto fabuloso, como são os contos de fadas, por exemplo. O que, nesse caso, é até um bom sinal, se assim o entenderem. Suponhamos que, de fato, o fato não seja fato. Que não tenha acontecido a tal história e que seja entendida como um conto de fadas. Ora, eu fico então com a percepção do escritor inglês G.K Chesterton: “Contos de fada não dizem às crianças que dragões existem. Crianças já sabem que dragões existem. Contos de fada dizem às crianças que dragões podem ser derrotados”. Ou seja, a história, tendo acontecido ou não, não deixa de ser verdadeira. Porque ela não nos mostra apenas que existiam crianças que nunca ouviram falar de Deus, isso sabemos todos, mas nos diz que crianças podem conhece-lo e fazer a experiência de Deus. A história não só nos diz que a educação era deficitária, como também era a evangelização, mas nos diz também que podemos educar e evangelizar com qualidade, como uma coisa só. E se podemos, nós devemos.

 

A PEQUENEZ DE UM HOMEM GRANDIOSO

Mas nada é por acaso. A bíblia também está cheia desses relatos que, não necessariamente, são históricos ou crônicas, mas que não deixam de ser verdadeiros. Se a história está ali, registrada como impulso para começar a missão, é porque quer mostrar que a nossa missão tem tudo a ver com o fato Montagne, temos que levar a Boa Nova de Jesus Cristo a todas as crianças e jovens.

A nossa ação evangelizadora e educativa bebem da mesma fonte e fazem parte da mesma missão que é nossa de maneira integral. Quando educamos, educamos segundo o que cremos. Nossa maneira de educar também é um ato de profissão de fé. Quando ensinamos sobre a esperança, ou sobre o amor, por exemplo, ensinamos segundo o que aprendemos dos evangelhos e da vida de Jesus Cristo. A esperança que faz ver vida onde parece não mais existir, enxergar possibilidades onde muitos enxergam o fim. Acreditar na ressurreição diária e no ciclo de nossa existência, que tende a também cair, mas encontra motivos para se levantar. Porque nosso Senhor nos ensinou a sair do túmulo e deixa-lo vazio.

Nossa educação também acredita que o amor é a grande solução para a humanidade, e fazemos coro com aqueles que dizem que “basta” amar. Mas sempre nos perguntamos de que amor estamos falando. O amor que ensinamos, que acreditamos e que, aos poucos, também tentamos viver, é o amor segundo Jesus. Seu mandamento não foi “gostai-vos uns dos outros”, mas sim, amai-vos. É diferente. Gostar é consequência de uma relação de troca, é resultado não esperado, é motivado por uma coisa ou por outra, é não poder escolher se gosta ou não, porque é consequência. Mas o amor em que acreditamos não é bem assim, não é só consequência de uma soma de sentimentos, mas é opção. É amar até mesmo aqueles que parecem não “merecer” ser amados. É amar até aqueles que não gostamos, é amar os que gostamos, é amar até os desconhecidos, simplesmente porque estão diante de nós. E assim é nossa educação, baseada na nossa crença, baseada nos ensinamentos de Cristo, porque assim quis Marcelino Champagnat.

Tudo isso para dizer que Champagnat não descobriu o mal e tentou curá-lo, mas descobriu o mal e tentou preveni-lo. Não queria que os irmãos corressem aos doentes para que morressem sabendo quem é Deus, mas que apresentassem Deus a todos que começaram a viver. O jeito marista de ser tem usa origem em algo vivido e encarnado, e isso faz dele algo muito afetivo, e por isso efetivo. E nesse início da congregação recebemos o nome de Maria. Nós não somos champistas, somos maristas. E foi Marcelino quem quis assim, que seguíssemos a Jesus do jeito de Maria e não do jeito dele. Não se sentia um modelo, embora o fosse.

Grande o suficiente para ser pequeno, Marcelino abdicou de tudo para fazer a vontade de Deus. Despojou-se de seus bens materiais (que não eram muitos), de sua família, de sua cidade e de todas as suas vontades pessoais, que talvez seja o mais difícil dos despojamentos. Mas a vontade de fundar uma congregação de irmãos não era só dele, senão de Deus e, de uma maneira ou de outra, Maria entrou como garantia de que tudo iria dar certo, inclusive de que fosse feita a vontade de Deus.

Pode parecer pretencioso dizer que a Congregação Marista tenha nascido da vontade de Deus, mas com certeza é muito menos pretencioso do que dizer que Ele não a queria. A prova disso é que a cumulou de bênçãos. Deus a quis, Champagnat acreditou nisso, mas como se sentia pequeno demais, a colocou sob a proteção da Boa Mãe Maria, e esse foi um dos seus grandes acertos.

Algumas pessoas buscam fazer um progresso na humanidade fazendo um progresso em si mesmo. Geralmente a vontade da própria pessoa é fazer a sua exata vontade, e quando ela não é correspondida por ela mesma existe a frustação. Muitas são assim. Marcelino, no entanto, é um homem que fez mudança parcial e depois mais ampla na sua sociedade fazendo a vontade de Deus e não a dele, buscando certo progresso, mas não o dele. O que nos orgulha nele é que não era orgulhoso, o que fez dele um homem grande é que ele sempre quis ser pequeno. A sensata pequenez em Champagnat era uma das mais grandiosas de suas virtudes. Escolheu para os seus irmãos o nome de “pequenos irmãos de Maria” não por acaso. No primeiro momento é Maria que se fez pequena, se pôs como serva/escrava de Deus. Foi ela quem Marcelino escolheu para ser exemplo para os seus religiosos e modelo de vida. Sendo assim, Irmãos de Maria já bastaria. Mas ele quis mais, mais de ser menos, e por isso deu-lhes o nome de pequenos, de irmãozinhos.  Champagnat tinha como virtude a humildade e era humilde demais para reconhecê-lo.

Tudo isso nos chega ao ouvido como paradoxos. A bíblia inteira é assim, e destaco nisso os Evangelhos: “os últimos serão os primeiros”, “é dando que se recebe”, “quem perder a vida vai ganha-la”, e por aí vai. E como acredito em tudo isso? Há os que dizem sentir um vazio pela falta de escritos ou livros deixados por Champagnat, espero que estes não sintam o mesmo vazio por Jesus, pois Ele também não os deixou. Quando quiserem procurar os grandes ensinamentos deixados por Champagnat, encontrá-los-ão na face de cada um dos primeiros irmãos, não escritos, mas talhados, como numa rocha. A riqueza do carisma marista nasce com Champagnat, mas se desenvolve com os primeiros irmãos. Nosso carisma tem um toque, mesmo que suave, de irmãos como Furet, Francisco, Luís Maria, Silvestre... Hoje, a continuidade e enriquecimento do carisma dependem de todos nós, maristas. Somos chamados a dar continuidade à missão marista, atualizando a forma como a fazemos.

É importante dizer que não é necessário atualizar a história, mas apenas o que fazemos com ela. Vemos muitas vezes uma atualização da história marista, o que é desonesto e injusto. Não precisamos dizer, por exemplo, que na história com o jovem Montagne, o que chamou a atenção de Marcelino foi a pobreza material daquela família, porque não foi. No entanto, é claro que Champagnat sentia compaixão por essa realidade, e via nela a necessidade de ser tocada. Hoje sabemos que Deus espera de nós, que é a evangelização, sobretudo com os mais pobres. Atualizamos isso diariamente, sem modificar a história que nos fez chegar até aqui.  

 

A ARTE DE CONSTRUIR, RECONSTRUIR E INSTRUIR

Por todos esses motivos ditos anteriormente, eu considero o jeito de Marcelino metaforicamente artístico. Foi como um diretor de uma peça de teatro, que ao mesmo tempo é ator, no entanto se coloca como coadjuvante embora seja o protagonista. Ele começou do zero, não fazendo uma nova peça de teatro, mas construindo um novo teatro, quando sonhou com a peça não começou pegando figurinos, começou construindo a base do palco e buscando elenco.  E o fez muito bem. E embora já tenha nos deixado, deixou também seu exemplo, e a partir dele continuamos a peça, porque as cortinas continuam sempre abertas. E temos que continuar. A história tem Jesus como fonte de toda a espiritualidade, ele é água viva, e nós somos o caminho por onde essa água deve passar. Que por meio de nós, muitos possam saciar a sua sede.

E para isso não nos falta inspiração. Uma das grandes virtudes de Marcelino é sua radicalidade de vida. O seu grande milagre foi viver por amor, e isso não é ordinário, como deveria, mas extraordinário nas realidades que conhecemos. Marcelino dormia pouco, se entregava a trabalhar exaustivamente, percorria grandes trajetos e enfrentava tempestades de neve, tudo isso por amor à sua missão, que abraçou com todas as suas forças. Entre idas e vindas em busca da aprovação do Instituto, e os diversos “nãos” e “engavetamentos” dos seus pedidos, sua saúde foi se debilitando, seja por excesso de esforço físico ou por estresse pelas tratativas mal sucedidas de aprovação. Mas é importante ressaltar que quando Champagnat fazia isso não era por desprezo pelo próprio corpo, mas amor por quem o deu. Porque a radicalidade está na audácia e no fazer a vontade de Deus. Hoje isso causa até desconforto, pois muitos criticam Marcelino por pensar pouco em si mesmo, mas esquecem de dizer que era porque pensava muito nos outros. E de fato, foi uma entrega total à missão. Consumiu seu corpo, consumiu suas forças, mas o resultado está onde estamos.

Quando a gente se percebe bastante à frente na missão, não pode esquecer-se das escadas, pontes, alicerces e estradas que nos fizeram chegar até aqui. Gratidão deve ser um valor constante na vida marista. Incompreensível para alguns, Marcelino se mostrou comum ao que se espera de um cristão. Costumamos dizer que ele estava à frente do seu tempo, ou até mesmo a frente do nosso. Embora, às vezes me passa pela cabeça a ideia de que os homens e mulheres que encontram respostas para os apelos contemporâneos da sua época, na verdade não estão à frente do seu tempo, mas são os únicos que estão ligados de fato com o momento atual em que vivem. E Marcelino estava ligado ao seu povo, à sua história, à sua realidade, às necessidades de sua época. Ele estava com os pés firmes, pisando a terra do seu tempo, com o coração no seu tempo, tentando transformá-lo naquele momento, para aí sim, termos um futuro melhor, para um tempo melhor.

Esse amor cotidiano de Marcelino fez sua Instituição chegar em muitos lugares do mundo. Inclusive em Roma. Em sua canonização, em 18 de abril de 1999, na Praça São Pedro no Vaticano, como que numa proposital ornamentação dos ambientes, a Basílica de São Pedro se encontrava em reforma. Seus andaimes erguidos para edificar ainda mais a sua estrutura, fizeram todo sentido para os devotos do então Beato Marcelino Champagnat, e ainda mais para sua canonização. Esse homem, um mestre de obras, edificou diversas obras, físicas e espirituais, enquanto esteve por este chão. Hoje, de lá, da eternidade, olha insistentemente por cada um de nós. “Marcelino Champagnat", agora é da Igreja. "São Marcelino Champagnat". Como silencia o nosso coração essa pequena frase, ao mesmo tempo que o faz pulsar compulsivamente. "São", que alegria! As palavras do Papa João Paulo II ecoaram por todo aquele canteiro de obras, transformado momentaneamente num jardim, naquele gélido domingo do Senhor, dia que a Igreja meditava Emaús. Os caminheiros e discípulos de Jesus que o reconheceram na partilha do pão, agora reconheciam a obra de Deus na vida de um homem simples e humilde, do interior da França, que com audácia quis chegar a todas as dioceses do mundo. A cada dia faz mais sentido esses andaimes e o canteiro de obras. As mãos​ sujas​ do cimento ou do giz são muito mais significativas e importantes do que as mãos limpas que estão acomodadas em nossos bolsos. Mãos à obra! Porque Deus nos quer!              

Quando Champagnat nos deixou, deixou-nos seu exemplo e também sua vida, inclusive nas suas palavras. O testamento espiritual de Marcelino toca profundamente qualquer um que seja apaixonado por essa instituição, que sente na pele o que é fazer parte dela. O relato de sua morte, como o relato e a construção do seu testamento são forças que nos inspiram a querer se dedicar a tudo isso. E ele mesmo nos garante que por mais difícil que seja, a Graça suaviza tudo, que Jesus Cristo e Maria nos ajudarão. E, para nos dar mais forças ainda, no fim da sua vida Champagnat abençoa aqueles que fizeram, fazem e farão parte do Instituto. Fomos abençoados por Marcelino bem antes de existirmos, fomos abençoados como maristas que ainda viriam a compor essa família. Champagnat nos abençoou individual e pessoalmente.

Seus ensinamentos sempre foram assertivos, e não diferente foi no seu testamento. Muito se diz que Champagnat era um homem à frente do seu tempo. Mas se há um paradoxo nisso é que se ele estava à frente do seu tempo, o estava com os olhos voltados para muito tempo antes do seu tempo. Na despedida emocionante suas palavras para o futuro são aquelas do passado; seu exemplo de comunidade para o futuro era das comunidades do passado; arquitetou o futuro do Instituto com a engenharia do passado. Para Champagnat o futuro estava no passado, no cerne das primeiras comunidades cristãs que o Novo Testamento nos apresenta. O centro do seu testamento espiritual é o Testamento de Jesus Cristo, que consiste numa máxima que deve ser eternamente tentada: amai-vos uns aos outros!

765 visitas