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Os seminaristas Champagnat e Vianney

 


Maurício José de Brito - 2012


A história perdida e reencontrada
Um domingo de sol, um calor absurdo e fui passear na praia. Dirigindo o carro pela orla da praia em São Luís do Maranhão, vi uma faixa anunciando uma atividade do Colégio Marista no local.  No ano de 2011 eu trabalhava três semanas em São Luís (norte do Brasil) e uma semana em casa, no Rio de Janeiro (sudeste do Brasil). Então estacionei o carro e fui ver os jovens praticarem esportes na praia.  Alguma coisa me atraiu, não sei bem o que foi.  Sentei e vi os adolescentes jogando e rindo.  Rapidamente me lembrei de meus anos no Colégio Marista no Rio de Janeiro.
Perguntei a um professor se ali tinha algum Irmão, então fui apresentado ao Irmão Kerginaldo e rapidamente começamos a conversar sobre o Pe. Champagnat.  Em determinado momento, o afável Irmão diz que o Pe. Champagnat, já no tempo dele, “combatia o bullying”.  Então, fiquei espantado, e ele me contou uma história interessante sobre chacotas que os seminaristas faziam com João Maria Vianney e que, um dia, o jovem Marcelino interveio de uma maneira mais áspera para defender o colega Vianney.  Curioso, perguntei ao Irmão Kerginaldo onde ele tinha lido esta história e ele respondeu sorrindo: “Ninguém sabe de onde veio isto, mas há muitos anos esta história é passada oralmente entre os Irmãos.”
Então sorri e disse ao Irmão que ele estava conversando com a pessoa que tinha “descoberto” tal história (pelo menos no Brasil1) e ele passou a escutar o que eu falava muito atentamente:
“Irmão, o senhor está me fazendo voltar 30 anos no tempo, e estou muito surpreso!...  Em dezembro de 1981 ingressei no Noviciado Marista, em Belo Horizonte, Minas Gerais.  Em uma de minhas saídas do Noviciado para ir à Casa Provincial, passei em um sebo de livros e procurei a vida de um santo especificamente: João Maria Vianney, Cura D’Ars2.  Desde meus tempos de aluno Marista sempre me interessei em saber prováveis conexões entre Champagnat e Vianney. Comecei a ler a história e, de repente, deparei com o relato a que o senhor se refere. Li o livro em 2 dias.  Após 2 dias, fui ao meu Mestre de Noviços, o Irmão Zeferino Falqueto, e mostrei a ele, que sugeriu-me escrever um artigo para o “Boletim Informativo da Província do Rio”, um boletim que circulava entre os Irmãos da Província, com notícias, reflexões e estudos e, naquela época, o Boletim eram algumas folhas A4, dobradas ao meio e grampeadas.  Lembro-me bem, Irmão Kerginaldo, que tínhamos um Irmão, o bom Irmão Gobriano Maria, que era nosso especialista de Champagnat na Província, que emitiu uma resposta ao artigo questionando datas e a veracidade dos fatos relatados ali.”
Irmão Kerginaldo perguntou: “E você tem uma cópia deste material?” Respondi que não tinha, mas que ia ver se encontrava tal material para lhe remeter.
Com a ajuda do Sr. Gabriel Borges, arquivista da Casa Provincial em Brasília, e da Sra. Heloisa Sousa, Diretora do Museu Marista em Belo Horizonte, consegui localizar o artigo que produzi e a resposta do Irmão Gobriano Maria,datados de dezembro/1981 e março/1982, quase 31 anos depois da publicação original.

O santo da minha infância
Estudei minha vida toda em Colégios Maristas, foram três colégios em três cidades diferentes: Rio de Janeiro, Santos (São Paulo) e Colatina (Espírito Santo).  Aprendi, desde pequeno que Champagnat mesmo não sendo Santo, já era Santo por desejo de seus biógrafos, admiradores, seguidores e alunos.  Mas o Champagnat que conheci quando pequeno, era mais que Santo: ele era perfeito, praticamente sem desvios, sem pecados, um Santo daqueles que só existem no Céu.
Já adolescente, não me lembro bem o ano, alguma coisa entre 1978 e 1980, conheci um Irmão que me deu uma outra ótica do meu Santo, transformou o meu Santo em um homem e que por ser homem em sua plenitude, por saber vencer seus próprios medos e desafios, se tornou um modelo de ser humano, um Santo no sentido mais transcendental da palavra.  Este Irmão que me trouxe esta nova visão foi o Irmão Balko.  Ele esteve no Brasil para um ciclo de palestras, li um de seus livros e assisti algumas palestras com tradução simultânea.  Recentemente li um artigo nos Cadernos Maristas sobre o Irmão Balko e pude me emocionar novamente, lembrando aquele Champagnat que vislumbrei a partir daquele momento, um Marcelino Champagnat acessível, humano e santo.
Irmão Balko trouxe uma ótica diferente do Marcelino Champagnat que conhecíamos, e isto incomodou alguns Irmãos.  Para mim, jovem de uns 17 anos, trouxe alguém real, palpável, um homem vitorioso que teve que lidar com limitações das mais variadas.  Alguém que se tornou realmente um modelo para mim, a partir daquele momento: se Marcelino venceu todas aquelas dificuldades, porque eu não conseguiria?
Marcelino Champagnat teve limitações, ele as superou e mostrou a qualquer ser humano que podemos ser qualquer coisa porque as limitações espirituais, ao contrário das físicas ou mentais, não existem.  Qualquer um pode alcançar a santidade seja culto, analfabeto, sem pernas, com limitações de aprendizagem, ou surdo, por exemplo. Seja padre, freira, irmão, papa ou uma simples dona de casa.
As superações de Marcelino Champagnat não foram imediatas, no momento em que entrou pela porta do Seminário, como num passe de mágica.  Foram superações dolorosas, vivenciadas, e que ficam claras em suas resoluções de seminário.  Anos e anos.  Aliás, seminários e casas de formação de Irmãos são uma escola de aprendizagem, de superações.  Entramos ali para aprender.
No início do século XIX com certeza, os seminários eram mais rígidos do que os do tempos atuais, e recebiam meninos, pré-adolescentes, quando hoje se recebem jovens quase adultos.  Quando se juntam meninos no seminário, com toda a rigidez educacional da época (que aliás, veio Champagnat revolucionar esta rigidez imbuído pelo conceito empírico de aprender emocionalmente, ou seja, que é muito melhor aprender pelo prazer do que pela dor), o que podemos esperar dos momentos íntimos destas crianças-seminaristas, sem tutores presentes?  Claro, brincadeiras, alegria e algumas traquinagens!...
Como não sou especialista na história de Champagnat, venho convidá-los a conhecer e refletir sobre o texto encontrado, venho convidá-los não tão somente a discutir a veracidade histórica de tais fatos, mas muito mais importante, na minha opinião de leigo, é perceber se o texto mostra um aspecto da personalidade de Champagnat, que aprendi com o Irmão Balko: um homem enérgico, decidido, e que não concorda com injustiças, combatendo-as.  Mais do que esclarecer a verdade de datas e nomes, é importante tentar entender se este é o Marcelino que estamos descobrindo nas últimas décadas.
E enfim, se podemos concordar com o caro Irmão Kerginaldo, de que o Pe. Champagnat foi um precursor do combate ao bullying, assunto hoje importante em nossa sociedade.   Se o Instituto  Marista considerar esta história como uma possibilidade, eis que surge um novo enfoque MARISTA para ajudar a discutir o bullying nas Escolas Maristas ao redor do mundo.

Informações técnicas
Quando encontrei este texto, em 1981, não existia ainda a internet, não sabíamos de onde tinha vindo aquele autor, sequer sabíamos que o autor era um padre porque o livro não dava esta referência.  Então trago uma ficha resumida do autor e do livro, por informações coletadas nos dias de hoje na internet.

O autor
Padre Wilhelm Hunermann - 28/07/1900 – 28/11/1975
Nascido na cidade de Kempen, Alemanha, escritor conhecido por suas biografias dos Santos da Igreja Católica Apóstolica Romana escritas como novelas.  Em 1923 foi ordenado Sacerdote e começou servindo em Essen na Diocese de Aachen. Seu primeiro livro foi publicado em 1931, “A Cruzada das Crianças” (em alemão: “Der Kinderkreuzzug”).
Hunnerman escreveu nada menos do que 64 livros ao longo de sua vida, sendo que vários de seus livros tiveram mais do que 10 edições.  Alguns dos livros foram editados por diferentes editoras ao longo dos anos e, inclusive, alguns livros tiveram seu título alterado em novas edições. A maioria de seus livros são biografias de Santos.

O livro : "O santo e o seu demônio"
Título original em alemão:  “Der Heilige und sein Dämon: Das Leben des armen Pfarrers von Ars”
Primeira Edição em alemão: 1952, Heidelberg: Kerle
Última Edição em alemão, sob o título “Der Pfarrer von Ars: Johannes Vianney”: 1993, Innsbruck, Wien
Edição encontrada em português (Brasil): 1962, Editora Lar Católico, tradução do Pe. José Maria, SVD.

A passagem do livro
A história em questão, segundo o autor, se passa em 1812, no Seminário Menor de Verrières.
“O rapaz de 26 anos (Vianney) esforçava-se, em meio à multidão de colegas mais jovens, com tremendo empenho para acompanhar as aulas do professor Chazelle, que lhes explicava, em latim, as regras da lógica e do conhecimento.  Apesar de todo o esforço, não pescou patavina.
Cheio de admiração via seus colegas responderem, em latim fluente, às perguntas que o mestre, mais moço do que ele, lhes propunha.  Ali estava Ferdinand Donnet, rapazinho muito prendado, ali estavam os dois amigos Desclas e João Duplay, cujos dedos subiam, mal o professor terminava uma pergunta.  Quando o professor Chazelle o chamou, João mastigou uma mixórdia de coisas, pois nem sequer havia pegado o sentido da pergunta.  A classe inteira explodiu numa estrondosa gargalhada e João sentou-se, aniquilado sob o olhar compassivo do mestre.
Eram sem piedade os jovens seminaristas, cujos rostos sorridentes contrastavam com as negras batinas.  Que é que sabia o bando buliçoso sobre o esforço desesperado do colega mais velho?  Estavam na idade em que aos jovens lhes falta qualquer espécie de compreensão ou pena dos outros.
Certo dia o pequeno Duplay, como quem desejava ajudar, passou ao estudante pesadão um bilhetinho: “Escrevi aí uma citação da Bíblia.  Procure-a, ela lhe dará consolo.” João pegou o papelzinho sem notar como quase a classe inteira vinha gozando a cena, não desconfiou que se pudesse trata de alguma pequena diabolice dos colegas.
- Muito obrigado, Duplay! – disse Vianney – Vou procurar o trecho. A Sagrada Escritura tem consolo e auxílio para tudo.
- É mesmo! – gritou o jovem filósofo, correndo porque só a custo podia conter o riso.
Silêncio absoluto na sala, enquanto João buscava o volume da Bíblia na estante, à procura do texto indicado.  Mas ficou vermelho como um camarão ao deparar-se com os versos do primeiro livro de Moisés: “Isaacar é um asno forte, que está deitado dentro de suas estacadas.  Viu que o repouso era bom e que a terra era ótima.  E curvou os seus ombros para levar pesos e sujeitou-se aos tribunos”3.
- Que é que você tem? – perguntou Marcelino Champagnat, um bom rapaz do campo, quatro anos mais moço que João, ao vê-lo empalidecer de repente, afastando com as mãos trêmulas a Bíblia. A resposta do pobrezinho desapareceu sob a retumbante gargalhada da turma em peso.
- Que tal, agradou-lhe o trecho de Issacar? – berrou Duplay, dobrando-se de tanto rir.
João nem pensava em responder, mas Marcelino que, afinal, descobrira de que se tratava, pulou nervoso, pegou o livro e gritou para o pequeno zombador:
- Duplay, você devia ter vergonha de uma coisa dessas.  E vocês todos também.
- Deixa-os, Marcelino.  Ele tem razão – gemeu João.
- Qual razão, nem meia razão! – gritou o outro agarrando o criminoso pelo braço e sacudindo-lhe a cabelereira negra por cima do livro sagrado.
- Aí, leia adiante, Duplay. Leia o verso 17. Serve direitinho para você – argumentou Champagnat.
Surpreso leu o rapaz o trecho que o dedo ameaçador de Marcelino lhe apontava: “Torne-se Dan uma serpente no caminho, uma víbora no atalho, que morde as unhas do cavalo para que o cavaleiro caia para trás.”4
- Este verso combina muito bem com um certo Duplay, não é?
De repente acabaram as risadas. Duplay, vendo a perturbação do ofendido, gaguejou encabulado:
- Mas eu apenas queria brincar...
- Foi um jogo sujo! – respondeu Champagnat – Você devia pagar pelo que fez.
- Deixe-o em paz – tentou intervir João.
Marcelino largou o réu que voltou ao seu lugar, arrependido.  Dias a fio Duplay rondou a Vianney como um cão batido.  Afinal tomou coragem e disse-lhe:
- João, perdoe-me a falta de educação.  Eu é que banquei o burro!  Faça-me o favor de me dar um bofetão!
- Já lhe perdoei! – retrucou-lhe João – Além do mais, você tem razão.  Sou burro demais para estudar.
- Você me perdoa?
- Naturalmente!
- Muito agradecido. Mas eu preferia ainda que você me quebrasse a cara.
- Parece que se fica excomungado batendo-se em quem usa tonsura - disse João sorrindo.
- Então, estou muito bem excomungado! – riu Duplay – Já nos batemos muitas vezes, o Chico Declas e eu.
- Ele não é seu melhor amigo?
- Justamente é por isso que brigamos! – respondeu o jovem admirado.
- Ora, se é por amizade, a excomunhão não vale! – riu Vianney.
Duplay, feliz por ter resolvido o caso, correu, mas voltou a meio caminho, dizendo:
- Ainda uma coisa: se você não entender alguma explicação do professor, estou pronto a ajudá-lo.  É difícil no começo. Depois torna-se mais fácil.
- É o que também espero - suspirou João.
De agora em diante, Marcelino Champagnat tornou-se bom amigo de João.  Os dois eram quase da mesma idade.  Além disso, também Marcelino encontrava dificuldades no latim.  Havia mais uns outros para quem o latim era uma dureza.  Assim, o professor Chazelle resolveu dar aulas especiais em francês aos dois amigos e a mais cinco companheiros.”

Datas conflitantes?
O “Boletim Informativo da Província do Rio” onde foi publicado o texto acima foi a edição de Dezembro/1981.  Em março/1982 saiu uma nova edição com um artigo do Irmão Gobriano Maria, em resposta ao meu, com o título de “Retificação”.  Eu acabava de ter me retirado do Noviciado Marista.  Irmão Gobriano tornou-se um biográfo de Champagnat, e foi no livro dele que aprendi a conhecer e amar o Pe. Champagnat.  Lembro-me deste livro sobre Champagnat já em 1974.  Acho que sua primeira edição foi desta época.
A principal argumentação do Irmão Gobriano Maria para considerar o texto uma farsa, foi a data que o Padre Wilhelm Hunermann diz ter acontecido o fato relatado: 1812.  Segundo Irmão Gobriano Maria, Vianney entrou no Seminário Menor de Verrières no segundo semestre de 1812, enquanto Duplay saiu de lá em 1809 para estudar Filosofia no Seminário Menor de l’Argretière, o que impossibilita um provável encontro entre Duplay e Vianney na mesma sala de aula.
Bem, como disse anteriormente, não sou um estudioso Marista e muito menos da vida de Marcelino Champagnat, mas acho que esta incongruência de datas deve ser melhor pesquisada.  De fato, todos sabemos que os nomes dos envolvidos são reais, que Pe. Champagnat e Pe. Vianney estiveram juntos no seminário, que mantiveram uma relação de amizade e que Pe. Champagnat tinha uma admiração acentuada por Pe. Vianney.  E também sabemos que realmente o seminarista Vianney era motivo de brincadeiras e chacotas, por sua dificuldade nos estudos.  Isto são fatos conhecidos por todos.

Conclusão
A história sobre Marcelino Champagnat apresentada pelo Padre Wilhelm Hunermann em seu livro “O Santo e o Seu Demônio” é uma história crível? Aonde o Padre Hunermann teria encontrado tal história? Em alguma biografia de algum dos envolvidos?  Ou foi uma história absolutamente criada de sua cabeça?
Hoje, com o conhecimento mais aprofundado sobre nosso Fundador, com os estudos que revelam a verdadeira face de São Marcelino, sua personalidade e seu caráter, podemos enxergar no Marcelino Champagnat de Hunermann aquele quem acreditamos que era realmente o seminarista Champagnat. Em que pese contradições de datas (e pode existir até troca de personagens), a história parece ser possível e não entra em nenhum momento em conflito com a personalidade forte de Champagnat.   Pelo contrário, reafirma o caráter deste bom homem.
Como leigo Marista, minha opinião pessoal é que vejo neste texto o Marcelino Champagnat da minha infância, o Santo, porque é o homem que não cede à injustiça, que é reto, justo, e em nada desmerece a imagem de São Marcelino, pelo contrário, o engradece, a este que sempre pensou no Instituto Marista como um local que pessoas mais simples teriam seu espaço.  Este conceito do Instituto, vê-se claramente que não surgiu do nada, que foi fruto de sua experiência pessoal, do homem do campo com dificuldades de aprendizagem, e de ver outros com as mesmas dificuldades ou mais, como no caso do Vianney.
E se esta história tem fundamentos, caro Irmão Kerginaldo, sim o senhor tem a razão: nosso Marcelino Champagnat já combatia o bullying em 1812!



1 Nunca soube se a história em questão já foi lida e discutida pelo Instituto Marista.  Pelo menos no Brasil, até aquela data, era uma história absolutamente desconhecida.

2 Em meu texto original de 1981 escrevi  que o Irmão Mestre do Noviciado, Irmão Zeferino Falqueto,  deu-me o livro para leitura.  O Irmão-Mestre tomou uma atitude de proteção, com seu pupilo: sabendo que o texto poderia criar polêmicas, modificou meu texto para proteger-me, e de certa forma, não permitir que a “descoberta” fosse desqualificada por encontrar o livro em um sebo.

3 Gênesis 49, 14-15

4 Gênesis 49, 17

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