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O DNA catequético do Instituto Marista

 

Um novo começo na missão marista
José Sotero dos Santos Neto, fms - 01/12/2016


Para Marcelino Champagnat, o núcleo da Missão é “fazer Jesus Cristo conhecido e amado” 1. Ele considerava a educação como um meio para levar as crianças e os jovens à experiência de fé pessoal e de fazê-los “bons cristãos e virtuosos cidadãos” 2.

O Instituto Marista fundado pelo Pe. Marcelino Champagnat nasceu com a missão de evangelizar pela educação. A intuição do fundador brotou da necessidade de apóstolos junto às infâncias, adolescências e juventudes, evangelizando “bem como através do ensino: nem só catequistas, tampouco apenas professores das diversas disciplinas escolares” 3, visando oferecer uma educação integral, elaborada a partir de uma visão cristã da pessoa humana e do seu desenvolvimento4. Portanto, os Maristas de Champagnat – Irmãos, Leigos, Leigas e tantos outros apaixonados pela beleza do carisma Marista, devemos reconhecer no amor dedicado pelo Pe.Champagnat às crianças, adolescentes e jovens, especialmente pelos pobres, a característica essencial de nossa Missão Marista 5.

A função de catequista sendo para o Irmão a finalidade do seu Instituto e o fim da sua vocação de educador, deve ser o objetivo de todo seu estudo, trabalho e ensino. (...). Para assegurar o bom êxito, para ele nada será difícil, e se dedicará por inteiro a esta tarefa sublime, que o associa à missão do nosso divino Salvador em prol da salvação das almas 6.

É interessante percebermos a “linha de costura” que perpassa a dinâmica da educação e formação cristã e apostólica de Marcelino Champagnat: um processo de iniciação cristã que inicia na família e na paróquia, segue na resposta ao apelo de Deus com a formação sacerdotal nos Seminários de Verrières e Santo Irineu de Lião, e desemboca nas primícias do apostolado, quando durante as férias do Seminário, anunciava às crianças e adultos da região o amor de Deus e as verdades da religião. De igual maneira, vale ressaltar que ainda durante o Seminário, “formou-se entre os seminaristas um grupo, que aspirava fundar uma sociedade religiosa, colocada sob a proteção de Maria e que se dedicaria à obra de salvação das almas7”. Marcelino que também participava do grupo, insistia na criação de um ramo de Irmãos, voltado para o ensino da catequese às crianças, adolescentes e jovens.

De igual maneira, Marcelino Champagnat já ordenado padre e designado como coadjutor de uma Paróquia em La Valla, ao se defrontar com a realidade desafiadora do seu campo de apostolado, uma certeza foi-se solidificando cada vez mais no seu interior ao constatar a completa ignorância educacional e religiosa das crianças. A necessidade de Educadores Religiosos se fazia imperiosa e urgente.

Desse modo, fica claro que a composição da proposta catequética dinamizada pelo Pe. Champagnat e deixada por ele como herança evangelizadora ao Instituto Marista, possui raízes no grave momento educacional da França vivenciado no período em questão: a Igreja com o intuito de recristianizar a sociedade e combater a indiferença religiosa francesa, tomou para si o direito de organizar escolas para os seus membros, com isso ela manteve a escola confessional. E o movimento catequético do século XIX, se apoiou precisamente no ensino escolar.

Para permanecer fiel ao objetivo que se propusera ao fundar a Congregação, isto é, dar instrução religiosa às crianças do povo, em determinados dias, como já fizera antes de confiar-lhes a escola de La Valla, ele os enviava pelas aldeias da paróquia, não com a tarefa de ensinar as disciplinas escolares, mas para dar catecismo. Quando chegavam à aldeia que lhes fora assinalada, os Irmãos reuniam em local conveniente todas as pessoas que podiam comparecer: homens, mulheres, jovens e crianças. Iniciavam a aula com um canto; depois faziam perguntas aos jovens sobre assuntos de catequese e procuravam explicar da melhor forma possível os temas. Finalizavam a sessão sugerindo conclusões práticas e narrando-lhes alguma historia edificante. Visto que a catequese era bem preparada e que os catequistas procuravam ser autênticos na vivência do que ensinavam, tais sessões produziam muito fruto. Com o tempo, nas aldeias onde atuavam, quase todos os habitantes compareciam 8.

A prática evangelizadora do Pe.Champagnat e dos seus primeiros discípulos revela a abrangência do projeto comum da educação cristã, com a aprendizagem de conhecimentos científicos (a instrução primária) e a instrução religiosa (o catecismo, as orações e a formação à piedade e à virtude). Os dois âmbitos do projeto ao conservar a dinâmica e as características próprias, devem interagir e colaborarem mutuamente na construção da pessoa humana de maneira integral, segundo Jesus Cristo. Por sua vez, as disciplinas além de servirem como “marketing” para atrair as famílias e as crianças, deveriam oferecer “terminais” de ligação para o aspecto religioso, com oportunidades na transmissão da mensagem religiosa. Atualmente denominamos essa dica pedagógica do Pe.Champagnat por interdisciplinaridade.

O catecismo, segundo Pe.Champagnat, não deveria ser um simples processo de ensino-aprendizagem, mas abranger toda a vida da pessoa, uma obra sublime e incomensurável, principalmente quando se tinha a consciência de realizar a mesma tarefa de Jesus Cristo, dando continuidade a sua missão salvífica. Os Maristas de Champagnat devem ter como “missão repartir o ‘Pão Espiritual’ às crianças, adolescentes e jovens, formá-los à piedade e gravar profundamente em seus corações os sentimentos religiosos, de tal maneira que jamais extingam “9. Além disso, é preciso ser consciente da grandeza da vocação de catequista, estimá-la de todo coração e ser capaz do exercício da renúncia para realizar a missão de catequizar com êxito. Por fim, o catequista precisa nutrir “um profundo amor a Deus, acompanhado do desejo de fazê-lo conhecido e amado, pois se o amamos de verdade, desejaremos que outros o conheçam e o sirvam”10.

Champagnat procurava, em seus catecismos e em suas relações pessoais ser simples e a altura das pessoas com quem estava; ele compreendeu que somente na medida em que tornasse o catecismo acessível, somente nesta medida, seus simples paroquianos tirariam algum proveito. Também a consciência e a aceitação de suas capacidades, de suas limitações, o faziam evitar rodeios indo direto aos problemas e enfrentando as situações de modo prático.11

Outro fato interessante na prática catequética do Pe.Champagnat era a participação dos adultos juntamente com as crianças. Mesmo com a obrigação do conhecimento da fé exigida a todos, não existia o catecismo organizado para os adultos e nem havia sido descoberta a necessidade da separação entre os interlocutores: crianças, adolescentes, jovens e adultos, por isso a explicação do catequista deveria ser dirigida a todos que estivessem reunidos. Portanto, a solução encontrada era a explicação, aplicando comparações familiares e reflexões simples, com historietas, a fim de ser compreendido pelo maior número possível.

Em vista do êxito no trabalho catequético, o Pe. Champagnat orientava que um catecismo bem dado deve ser bem preparado pelo estudo, sustentado e confirmado pela oração, adaptado aos interlocutores por método adequado e zelo criativo: criatividade, concisão e clareza.
Seria verdadeiro escândalo se fosse menos competente para dar o catecismo do que ensinar outras ciências.(...). Por que seria que tantas instruções e tantos esforços tiveram tão pouco resultado? É que os corações dos mestres não estão sensibilizados, não buscam na oração os sentimentos que impressionam os alunos, e o Espírito Santo não vivifica as palavras que saem de sua boca12.

O amor à catequese é tão explícito no Pe.Champagnat, que logo nas origens do Instituto, contagiava os seus primeiros discípulos. Dentre os vários apaixonados pela missão de catequizar, citamos o Ir.Lourenço, terceiro Irmão do Instituto. “O bom Irmão Lourenço pediu durante muito tempo poder ir dar catecismo no Bessat”, escreveu o Irmão João Batista (Vida, p.82).

Nas biografias de alguns Irmãos (1868), o mesmo Irmão João Batista escreve: “O atrativo do Irmão Lourenço era o zelo pela instrução e a santificação das almas das crianças. Este espírito de zelo era nele uma verdadeira paixão ou, antes, uma nobre virtude que não lhe permitia um momento de descanso. Dar o catecismo, ensinar as orações às crianças, foi a ocupação de toda a sua vida. A quinta-feira para ele se transformava em dia de penitência porque não podia dar o catecismo. Confessava que, para ele, este era o mais longo da semana. Pouco antes de morrer, embora acabrunhado pela doença, ainda pediu para ir pelos campos e mesmo poder ir para as missões estrangeiras, para instruir os ignorantes e ensinar, segundo sua expressão, a tantas pobres crianças, a conhecer, amar, servir Jesus que morreu para as salvar” (BQF, p.24)13.
A populosa aldeia do Bessat, situada a duas horas de La Valla, onde a neve é abundante no inverno, foi palco do zelo apostólico do Irmão Lourenço. Naquela época, Le Bessat não tinha padre e seus habitantes viviam em grande ignorância religiosa. O Irmão Lourenço solicitou autorização para dar catequese naquela Capela. Depois de muita insistência, como recompensa, logrou a permissão do padre Champagnat. Desde La Valla, todas as semanas, subia para aquela aldeia, carregando provisões para os dias que passaria fora. Em um saco, levava um grande pão, batatas e queijo. Alojava-se em alguma casa de família, onde preparava sua refeição pessoalmente; comida simples, igual à dos aldeões, talvez até mais frugal. Eis o que me relatou, certo dia, radiante de alegria:”NoBessat, de manhã e de tarde eu percorria o povoado, tocando um sininho para reunir as crianças. Quando estavam junto a mim, ensinava-lhes as orações, o catecismo e a leitura, porque não havia escola no povoado. Aos domingos, todos os moradores reuniam-se na Capela. Lá, eu os fazia entoar um canto, rezar o terço e a oração vespertina. Depois, da melhor maneira possível, dava-lhes uma lição de catequese. Oh! Como eu era feliz! Não me importava com a fadiga, com o mau tempo, nem com a camada de neve de vários pés de espessura. Foram os mais belos dias de minha vida!”14

Segundo o Guia das Escolas,15 “a educação é o conjunto dos esforços metódicos, mediante os quais se orienta o desenvolvimento de todas as faculdades das crianças, dando a elas o meio de atingir o seu fim natural, neste mundo, e o fim sobrenatural, isto é, a salvação de sua alma”.

Dessa forma a boa educação deve adaptar-se à natureza da criança e envolver completa e harmoniosa todas as faculdades humanas. Sendo desta maneira a distinção entre a educação física, intelectual, moral, religiosa e social.

O ensino da religião e a prática da vida cristã constituem a finalidade primordial que o Pai Fundador se propôs, quando fundou a Congregação. Os Irmãos não podem esquecer que é o seu dever sagrado dar-lhes tal formação, sem negligenciar, evidentemente, as demais partes do ensino. Eles se aplicarão a educar os alunos com muito cuidado e zelo, porque os pais que dão preferência à sua escola, em vista da educação cristã, esperam não sacrificar as vantagens que poderiam encontrar alhures para a instrução dos seus filhos, algo que constitui obrigação nossa assegurar16.

O Guia das Escolas apresenta ainda a educação cristã como um assunto de grande importância para os Irmãos e com dupla finalidade: instruir sobre as verdades da religião por meio das lições do catecismo, isto é, a instrução cristã, e na iniciação à vida cristã como discípulo/a de Jesus Cristo, ou seja, é a formação cristã – do espírito, da consciência e do coração, dos hábitos, da vontade e à piedade.
Por conseguinte, percebe-se que o sonho educativo-evangelizador do Pe.Champagnat teve um forte compromisso como resposta aos apelos históricos da época, como também possui elementos geradores que fazem da proposta do Fundador um projeto audacioso e agregador em vista da construção de uma sociedade fraterna, consciente e igualitária.

A prática catequética do Pe.Champagnat e dos seus primeiros discípulos desperta luzes e possibilidades para a nossa ação evangelizadora hoje, tais como: a flexibilidade quanto ao lugar catequético – escola, paróquia, centro comunitário, ao ar livre; relação da reflexão catequética a outras temáticas do universo escolar e da sociedade; metodologia criativa que atinja diversos interlocutores – crianças, adolescentes, jovens e adultos; uma catequese que priorize outras dimensões: litúrgica, bíblica, social, artes e ecológica; necessidade de conhecer a realidade e usá-la a favor do processo catequético. Além disso, a importância e valorização da pessoa do catequista: formação pessoal e específica em vista do apostolado, consciência de sua missão, zelo e criatividade na atuação; integralidade da ação catequética para que envolva toda a vida do catequizando.

É perceptível a compreensão da importância da catequese e do seu lugar estratégico na dinâmica educacional, especificamente na missão Marista. A iniciativa do Pe.Champagnat nos instiga sobre como atualizar a proposta na atualidade, a fim de efetivar  uma educação evangelizadora com características fortemente catequéticas. Portanto, que sejamos ainda mais inspirados pelas palavras de Marcelino Champagnat: “Não posso ver uma criança sem sentir vontade de lhe ensinar o catecismo, de fazê-la compreender o quanto Jesus Cristo a ama17, em vista de apresentarmos Jesus às crianças, adolescentes e jovens como uma pessoa real que eles podem conhecer, amar e seguir18.

REFERÊNCIAS

CARVALHO, José Airton de. A catequese em Marcelino Champagnat. Província Marista do Brasil Norte. Recife-PE, 1998.
COMISSÃO Internacional de Educação Marista – Instituto dos Irmãos Maristas das Escolas. Missão Educativa Marista:Um projeto para o nosso tempo. Roma, janeiro de 1998.
DELORME, Alain. Nossos primeiros Irmãos:companheiros maravilhosos de Marcelino. Brasília: UMBRASIL, 2010.
FURET, Jean Baptiste. Ensinamentos do Bem-aventurado Champagnat:(Excertos de “Avis, Leçons, SentencesetInstructions”). Curitiba-PR: EDUCA, 1987.
Idem. Guia das Escolas para uso nas casas dos Pequenos Irmãos de Maria:Documento do 2º Capítulo Geral do Instituto dos Irmãos Maristas, em 1853. Brasília: UMBRASIL, 2009.
Idem. Vida de São Marcelino José Bento Champagnat. São Paulo: Loyola – SIMAR, 1999.
SYLVESTRE, Irmão. Relatos sobre Marcelino Champagnat. Brasília-DF: UMBRASIL, 2014.

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1MISSÃO EDUCATIVA MARISTA, 1998, p.45: C.2; Vida, VI, 312; XX, 458-460

2MISSÃO EDUCATIVA MARISTA, 1998, p.45: Cf. Guia das Escolas, 1853, 240; Vida, XXIII, 488

3 MISSÃO EDUCATIVA MARISTA, 1998, p.46:Vida, XXIII, 498, 507; ALS, XLI, 420-421

4 MISSÃO EDUCATIVA MARISTA, 1998, p.47:Vida, XXIII, 498. Cf. Guia das Escolas, 1853, 216

5 MISSÃO EDUCATIVA MARISTA, 1998, p.39:Vida, VII, 69.

6 GUIA DAS ESCOLAS, 2009, p. 60.

7 CARVALHO, 1988, p.55-56.

8 IRMÃO SYLVESTRE, 2014, p. 135

9 CARVALHO, 1988, p.142: cf.AVIT, Abrégé, 178

10 Idem. P.145

11 CARVALHO, 1988, p.90

12 ENSINAMENTOS DO BEM-AVENTURADO CHAMPAGNAT, 1987, p. 244.246

13 NOSSOS PRIMEIROS IRMÃOS, 2010, p. 31

14 IRMÃO SYLVESTRE, 2014, p. 135-136

15 Documento do 2º Capítulo Geral do Instituto dos irmãos Maristas, em 1853. Para uso nas casas dos Pequenos Irmãos de Maria

16 GUIA DAS ESCOLAS, 2009, p.27

17 MISSÃO EDUCATIVA MARISTA, 1998, p.45:Vida, XX, 459-460

18MISSÃO EDUCATIVA MARISTA, 1998, p.45: EvangeliiNuntiandi, 27; C.86


O Ir. José Sotero é juniorista da Provóincia Brasil Centro-Norte e estudante de Teologia no Instituto Santo Tomás de Aquino em Belo Horizonte, MG.

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