17 de março de 2011 CASA GERAL

A Mãe do Senhor

O Documento do XXI Capítulo geral caracteriza-se por uma presença muita densa da Mãe do Senhor. Encontramos Maria quase em todas as páginas. Ela esteve tão próxima, que os Capitulares se viram como mergulhados num sonho, revivendo a experiência dos discípulos de Emaús: “Todos sentíamos o coração a arder!” (Doc. do Cap., p. 24). Esses corações ardentes sentiam nascer em si energias para um novo estilo de missão, mais generoso, mais entusiasta e, ao mesmo tempo, o desejo de pertencer totalmente ao Senhor. O sonho dos capitulares traduzia-se no apelo fundamental: “Com Maria, ide depressa para uma nova terra!” Sonho cheio de energia, puro dom do mesmo Espírito que descera sobre Maria.

Assim orientava-se o Instituto e os Irmãos: tornar-se novos, jovens, generosos para partir com Maria para uma nova terra: um novo modo de ser pessoas de Deus, um novo modo de testemunhar o Senhor e de ser disponíveis para novas missões.

A palavra do Superior geral, o Ir. Emili Turú, apresentando o Documento do XXI Capítulo geral, convidava Irmãos e Leigos maristas a não interromper o diálogo, com o término do Capítulo… Ao contrário, todos nós deveríamos “sentir-nos interpelados a prosseguir no caminho da escuta e do diálogo, aprofundando o apelo do Senhor para o Instituto marista, hoje” (Doc XXI Cap., p. 5). Essas linhas manifestam o desafio de continuar dialogando.

No entanto, surgia entrementes um novo centro de atenção, indicado por nosso Superior geral: “Evidenciar o rosto marial da Igreja e nós, ‘Pequenos Irmãos de Maria’, encarnar esse rosto de modo que, na Igreja, se manifeste claramente.” O Irmão Emili recordava a imagem da qual João XXIII se havia servido para descrever a Igreja: “Uma fonte em praça pública”, local para matar a sede de verdade e de comunhão, “imagem que bem exprime o rosto marial da Igreja”.

Ainda que a expressão « rosto marial da Igreja » não compareça no Documento do XXI Capítulo geral (e que a própria Igreja esteja pouco presente), essa realidade aflora frequentemente, porque se conjuga com o apelo fundamental: “Com Maria, ide depressa para uma nova terra!” Assim, na pág. 20, quando se trata de reconhecer a vocação do “leigo marista”, é dito que formamos “juntos uma Igreja profética e marial”. A página 15 já nos convidara a algo mais profundo: “Enquanto irmãos e irmãs, tornar presente esse amor e esse rosto materno de Deus.” Em Maria, manifesta-se o amor mesmo de Deus, um amor maternal mais forte do que o amor das mães: “Pode a mulher esquecer seu filho, pode ela esquecer-se de manifestar sua ternura ao fruto de sua carne? Mesmo se ela fosse capaz disso, eu não te esquecerei jamais!” Esse rosto de Deus se nos manifesta no olhar das crianças, em seu sorriso e em suas lágrimas: “Em seus rostos descobrimos o rosto de Deus” (p. 22).

Outras passagens do Documento (p. 19) convidam-nos a ser sinais: “Irmãos entre irmãos, chamados a ser sinais do Reino… Apaixonados por sermos sinais do amor de Deus… e chegar a ser memória evangélica para o mundo”. A oração que os Capitulares dirigem à Virgem Maria afirma que nossa família internacional “quer ser sinal de comunhão na Igreja e no mundo” (p. 29). O Irmão que caminha com Maria terá um coração missionário e será “testemunha de uma experiência de fé encarnada e alegre…”. Eis me, Irmão ou leigo marista, interpelado para ser sinal do Reino, sinal do amor de Deus, sinal de comunhão, memória evangélica do mundo, testemunha de uma experiência de fé encarnada e feliz. Os Capitulares nos relembram nossa vocação, difícil, mas exaltante. Para termos êxito, é preciso colocar-nos na escola de Maria de modo que nossa ação apostólica seja participação “em sua maternidade espiritual” (C 84).

O rosto marial é o rosto de Maria que se projeta sobre o rosto da Igreja; mas este é constituído pelo grande mosaico dos nossos rostos. A Igreja ainda tem um rosto sem nós?

Entretanto, o rosto de Maria não é uma realidade primeira; em si, ela é o reflexo do amor de Deus. Maria é a morada do amor de Deus, nela vive o amor da Trindade. Assim, falar de Maria, em linguagem mais exata, é dizer Deus, fonte de todo amor, fonte de toda riqueza espiritual do rosto de Maria e do rosto da Igreja. O começo não está nem em Maria nem na Igreja, mas em Deus e no Filho “nascido da mulher”. Tudo quanto podemos dizer positivamente do “rosto marial” da Igreja deve ser visto como reflexo do rosto de Deus.

Igualmente dizer Maria é dizer “mulher, amor, esposa, mãe, vida, educadora, responsável, discípula, companheira, irmã, leiga, fiel, capacidade de comunhão e de sofrimento”. A Igreja mesma é tudo isso, porque Maria é Igreja e espelho da Igreja. E quando somos chamados a fazer reviver em nós o rosto marial da Igreja, deveria aparecer em nossos rostos, em nossas atitudes, a riqueza desses traços de Maria e da Igreja.

Retenhamos alguns aspectos desse rosto marial da Igreja, de extraordinária riqueza humana.

 

1-Maria e a Igreja como « mulher »

Consideremo-la no sentido mais teológico e mais nobre. A mulher é aquela que foi criada secundariamente, porque ela vem totalmente do Filho, este existente desde toda eternidade, e também porque Maria e a Igreja recebem do Senhor a plenitude de seu ser, de sua graça, sua capacidade de amar e de santificar. Como Eva foi formada a partir de Adão, assim Maria e a Igreja, de Jesus. Sem o Senhor elas não são nada; com o Senhor, são tudo.

Mulherainda por sua natureza profunda de ser “uma auxiliar que corresponda” ao homem e a Cristo, e ambos podem dizer: “Esta, sim, é osso de meus ossos e carne de minha carne…!” (Gn 2, 23).

Mulher, presente nos momentos decisivos da aventura humana:

1-      Na aurora dos tempos: « Porei inimizade entre ti e a mulher, entre tua descendência e a descendência dela…” (Gn 3, 15).

2-      Na plenitude dos tempos: “Quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido da mulher!” (Gal 4, 4).

3-      Na Hora do Filho: « Mulher, eis aí o teu filho! » (Jo 19, 26).

4-      No fim dos tempos: « a mulher vestida de sol » (Ap 12, 1).

Esse primeiro traço do rosto marial da Igreja reflete-se em nós, quando aceitamos de estar em segundo lugar, conscientes de que tudo nos vem de Cristo, que não somos fidedignos a não ser por sua presença, quando os outros veem em nós o Filho, o Senhor. Maria e a Igreja deixam que o Senhor plenifique suas existências; elas propõem ou manifestam o Senhor, o Senhor que está nelas. O primeiro traço do rosto marial da Igreja é aquele que a mostra a serviço do Senhor. Mas é um serviço reciprocamente apaixonante: o Cristo ama a Igreja e a Igreja ama o seu Senhor!

 

2-O amor

Outro traço do rosto de Maria e da Igreja é o amor. A exclamação feliz de Adão, quando Deus lhe apresenta a mulher: “Desta vez, eis o osso de meus ossos e a carne de minha carne…! (Gn 2, 23), é considerado o primeiro grito do amor humano. É um sentimento de alegria, de reconhecimento da igualdade do outro, de sua grandeza, e a consciência de uma plenitude. Afirmar a plenitude pela mulher é reconhecer o vazio do homem sem ela. Mas essa exclamação é apenas de Adão ou também é a de Cristo?

Seria exagerado aplicar isso a Cristo? Em sua realidade humana, certamente não. O que seria Jesus sem Maria e sem a Igreja? Mas é uma suposição gratuita, porque Deus suscita constantemente o amor entre Jesus, Maria e a Igreja; o Espírito age sempre para ser aquele que infunde o amor nos corações. Maria e a Igreja nunca recusam seu serviço ao Senhor.

Se em nosso semblante os outros lêem ou enxergam a Igreja, eles aí descobrirão o rosto marial se em nós brilharem o amor, o bem-querer, a bondade, a simpatia… Se Deus nos vê pelos olhos dos outros, estes também deveriam ver que Ele os enxerga por nossos olhos; que Ele os aquece por nossas palavras; que nossas mãos são suas mãos quando acariciam; que Ele os abraça com nossos braços; que ele alcança seus passos quando os nossos vencem estrada com nossos irmãos e irmãs.

 

3-A maternidade

Em Maria e na Igreja, a maternidade constitui a característica do rosto mais celebrada. Maria se impõe, sobretudo, como a Mãe de Jesus, realidade extraordinária entre Deus e uma criatura; realidade que amamos ainda mais, porque Maria é também nossa mãe. Se os teólogos – em sua fé elaborada – afirmam que Maria é antes discípula, a fé do povo ou das pessoas simples, consideram-na Mãe de Jesus e é o que também faz a liturgia da Igreja, nas diversas festas mariais, e especialmente no Natal: a festa do coração. A Igreja também é mãe e vive essa realidade nos sacramentos, como também quando acompanha seus filhos: em sua capacidade de formar, de informar, de esclarecer, de sustentar, de encorajar, de perdoar e de fazer prosseguir.

Quando dizemos ‘mãe’, o eco diz ‘vida’; quando dizemos ‘mãe’, o eco diz ‘filho’. São binômios que caminham juntos. Quando dizemos ‘irmão’, o eco deveria dizer ‘filhos’; quando dizemos ‘irmão’, o eco deveria dizer ‘vida’. Na maternidade reaparece o amor pelo filho que se expressa de mil modos, mas, ao mesmo tempo, o sentido de responsabilidade, de educação, como uma distância do coração para que o filho cresça em todas as dimensões e desenvolva sua personalidade única. O filho não deve ser uma cópia fiel da mãe, nem de seu educador. A mãe e o educador ajudam-no a encontrar espaços de liberdade e a desenvolver sua própria personalidade.

Nós, Maristas, como educadores, estamos bem conscientes desses dois componentes da maternidade: o amor e a responsabilidade. “Para bem educar um menino é preciso, antes de tudo, amá-lo.” As crianças e os jovens que nos procuram devem experimentar toda a simpatia que lhes temos. Ao mesmo tempo, devem dar-se conta que o educador os impulsiona a favor da própria personalidade e há, pois, exigências, recusas, quando há desinteresse por seu próprio valor. Entre o educador e o educando há proximidade e distância, exemplo e proibição de tornar-se cópia fiel. O educador deve conhecer as riquezas presentes em quem é educando, e proporcionar as condições para que a criança e o jovem cresçam em direção de sua personalidade adulta. Maria sabe que não deve fazer de Jesus uma cópia sua, mas que Ele é irrepetível. Por isso, em Caná, é como se Maria o obrigasse a tornar-se pessoa conhecida, como ela; a mãe perde-o como Filho e outros ganham-no como Messias. Depois de Caná, Maria segue Jesus; torna-se silenciosa para que o Verbo fale, faça sinais, atraia a atenção e caminhe para o Calvário.

Nós também poderemos mostrar aos jovens o rosto marial da Igreja, se eles descobrirem em nós uma grande capacidade de dar a vida, de dá-la por eles com generosidade e delicadeza maternal. Ao mesmo tempo, devem poder constatar que lhes abrimos espaços de liberdade, para que eles se tornem, na medida do possível, os melhores adultos. Portanto, amor paciente e inventivo, mas também responsabilidade, distância, diferença, proibição de o educando se tornar uma cópia fiel, o que seria uma verdadeira alienação.

 

4-A capacidade de sofrer

O velho Simeão, voltando-se para Maria, a mãe, anuncia que uma “espada” vai atravessar-lhe a alma e toda sua vida. Para uma mãe isso é um sinal de que a vida do filho está ameaçada. Maria vai dar-se conta muito cedo e logo, igualmente, vai encontrar-se ao pé do Calvário; depois ela viverá, na jovem Igreja, o sofrimento de ver seu Filho “vindo para os seus, mas estes não o receberem” (Jo 1, 11). Da Igreja também se exige uma grande capacidade de sofrer. Sofrer pelo amado é ainda amar, é amar com um amor mais puro.

De nós Maristas, leigos e Irmãos, requer-se essa capacidade de sofrer, sem a qual o amor risca de ser apenas sentimento. Observar o rosto de alguém na provação é descobrir seu valor profundo, a riqueza de uma humanidade superior. João Batista Bellini pintou uma ‘pietà’ com uma intensidade humana surpreendente: Cristo morto deixa pender sua cabeça para o lado direito, e sua mãe, que o ampara, aproxima sua boca daquela de seu Filho, muito aberta, como para dar um beijo na morte; ao mesmo tempo a mãe pega a mão do Filho – mão transpassada na mão da mãe – mão levantada à altura do coração do Filho, para mostrar donde brota a salvação, onde nasce o amor… Quando o Filho morre, a mãe se aproxima ainda mais, faz-se um com o Filho. Grande lição de humanidade para todos, especialmente para aqueles que, como nós, se consideram educadores.

 

5-A Leiga

Maria é uma mulher, uma leiga, mãe de Jesus, visto como sumo sacerdote pela carta aos Hebreus; e ela é também mãe de todos os sacerdotes de todos os tempos. Essa visão de Maria como simples leiga confere muita honra ao povo de Deus. Na Igreja, a gente se torna grande pelo serviço e não pelos títulos; e, no entanto, quantas vezes a sensibilidade aos títulos humilha o povo de Deus! A maior, entre todos os santos, é uma mulher, uma leiga.

A Igreja também vive essa situação estranha; em sua grande maioria ela é constituída de leigos e é nas famílias que germinam as vocações. Maria está do lado da maioria, do lado dos pequenos da Igreja. Esse povo de Deus vive na Igreja uma maternidade muitas vezes esquecida: em seu seio nascem os cristãos e germinam todas as vocações dos discípulos do Senhor; aqueles que vão para a vida consagrada, aqueles que são ordenados no sacerdócio, e a multidão imensa dos leigos. Maternidade de Maria e maternidade do povo de Deus.

Talvez isso nos convide, a nós Irmãos e leigos maristas, a ficar próximos das pessoas, a dirigir-nos a elas na simplicidade das relações espontâneas, a não ostentar sobre o peito as medalhas universitárias ou espirituais, a ser pessoas entre outras, com as portas abertas, freqüentando as praças e as encruzilhadas onde as pessoas se encontram. E ainda, isso combinaria tão bem com a virtude da simplicidade que dizemos nossa.

Em nosso rosto, os jovens e as pessoas podem contemplar o rosto marial da Igreja se ali encontrarem as mais belas qualidades da alma feminina, as mil nuances e delicadezas do amor, a maternidade totalmente voltada para a vida, para a criança; o amor temperado pelo sentido da responsabilidade, a arte difícil de educar, a consciência da liberdade e da unicidade da criança. Rosto marial da Igreja em que o sofrimento e a fidelidade burilam a nobreza da alma. Tudo revestido de simplicidade: Maria é uma leiga, ela sabe manter-se entre o povo. Uma Igreja simples convém ao povo de Deus. Muitos amam o papa Bento XVI porque é claro em seu pensamento e simples em seu modo de ser.

“Uma fonte na praça” é um lugar onde se mata a sede de verdade e de comunhão. O Ir. Emili gosta dessa “imagem que exprime bem o rosto marial da Igreja”. Irmãos e Leigos maristas, somos convidados a ser “fontes na praça”. Assim, sem dúvida, encarnaríamos melhor “o rosto marial da Igreja”.

Ir. Givanni Bigotto

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