16 de setembro de 2015 SíRIA

Banalização do horror

Se nós não escrevemos mais frequentemente nossas cartas de Alepo, e portanto vós, nossos  amigos, não cesseis de as pedir, é porque nós pensamos que a repetição da denúncia dos  crimes cometidos e dos sofrimentos suportados pelos sírios, arrisca banalizá-los. Nós cremos que, por força de ler as atrocidades que são cometidas na Síria, vós não perdeis vossa faculdade de indignação, que vós vos resigneis a aceitar o inaceitável, e é por este motivo, que nós participamos todos à banalização do horror. E, portanto, nós não podemos não contar e partilhar convosco os sofrimentos de nosso povo.

Alepo tem falta de água e os Alepinos tiveram muita sede e muito calor este verão. Não foi por causa de uma seca ou da baixa do nível da água no Eufrates. A estação de bombas de recalque existe ainda, ela não foi destruída. Os reservatórios e as represas estão cheias. A água que se encontra é, todos os dias, dispersa na natureza em vez de ser bombeada para os dutos de água da cidade. Nós somos desta forma deixados à mercê dos bandos armados que decidiram de nos deixar sem água (com 40 graus à sombra) durantes numerosas semanas. As filas de espera são muito longas diante das torneiras alimentadas pelos poços que existem nos jardins públicos, as igrejas e as mesquitas, para poder encher baldes, garrafas e baldes. Para organizar este problema, as autoridades não encontraram outra solução que de organizar um programa de perfuração de 80 poços, que, com os poços existentes, pudessem satisfazer com um mínimo vital de água uma população de 2 milhões de habitantes. Alepo tornou-se um queijo onde se perfuram poços e os Alepinos começam a esquecer de que seja água corrente porque necessitam ir procurar água dos poços. Faz um ano, por este mesmo crime, vós fostes numerosos a protestar e vossos meios de comunicação também. Hoje, com a repetição do crime, ele tornou-se banal e ninguém fala mais dele.

Alepo tem falta de eletricidade, «eles» não a fornecem mais; E, ocasionalmente uma hora por dia. Faz dois anos, quando nós a tínhamos durante 4 horas por dia, vós haveis protestado  contra estes grupos armados aliados de vosso governo que cortada intencionalmente o fornecimento de eletricidade. Depois, as coisas pioraram, mas a gente não fala mais nisto, tornou-se totalmente banal e ordinário.

 

Faz um ano,  quando as barbáries começaram a destruir os sítios arqueológicos no Iraque e na   Síria, patrimônio da humanidade e memória de nossa história, alguns protestaram. Depois, «eles» continuam a destruir os tesouros da Síria; os dois principais templos de Palmira, joia do deserto sírio foram os últimos a ser destruídos. «Eles» querem arrasar tudo que lembra a história multimilionária do país. «Eles» querem que a história comece com eles e ninguém diz nada; Isto se tornou banal.

Eles degolam seres humanos. Vós haveis protestado faz um ano quando eles degolaram  alguns ocidentais. Portanto eles não foram os primeiros! Centenas de círios já tinham sido vítimas desta barbárie. Muitos outros os seguiram; o último que consta na lista foi o diretor das antiguidades de Palmyra, que tinha 82 anos, mas ninguém mais protestou. Banalização! Bof, degola-se um ser humano como se degola um carneiro e daí !!!

«Eles» raptaram centenas de cristãos e de Yezidis no Iraque. Isto foi faz quase um ano. Vós vos haveis indignado e vossos dirigentes protestaram fazendo declarações estrondosas que fizeram pschitt como um petardo molhado. Depois, «eles» sequestraram centenas de cristãos assírios em Hassake, outros em Quariatayn, no centro da Síria. E ninguém protestou. Isto se tornou banal, isto não choca mais; e, pois, dizei-o vós, se a gente se deve indignar também porque eles vendem as mulheres como escravas, a gente não acabará de se lamentar; por si pode…

A Síria esvazia-se de seu povo, sobretudo de seus cristãos. Eles tornaram-se os «refugiados» que vos incomodam tanto. É preciso escutá-los, contar seus sofrimentos e os perigos que enfrentam para passar clandestinamente à Europa. Ah, eles não deviam permanecer lá onde estão, dizeis vós? Mas lá onde vivem, é o inferno, é o caos, é a morte. Estes não são migrantes como vos apraz chamá-los para apaziguar vossa consciência, estes são refugiados; e mais ainda, se os refugiados vos incomodam tanto, pensai duas vezes na próxima vez antes de desencadear a guerra em seus países. Neste tempo, parai estes que vós haveis desencadeado  na Síria e vereis  a multidão de refugiados que vos incomodam  se exaurir, as pessoas preferem de longe permanecer onde estão e assegurar sua dignidade. É preciso não esquecer os milhares de refugiados que são mortos por afogamento ou asfixia. Vós não vos haveis indignado quando a mídia vos mostrou a imagem dilacerada e mediatizada do pequeno Aylan sobre uma praia turca. Era preciso fazê-lo antes e também agora, após este drama. Mas, morrer no mar, tornou-se totalmente banal!

Diante de tanta miséria, de sofrimento, de mortes, de destruições e de dramas, nós, os Maristas Azuis não podemos permanecer de braços cruzados. Nós denunciamos, nós chamamos a atenção, nós recusamos o inaceitável, nós protestamos, nós informamos e nós agimos.

Algumas das famílias desalojadas que nós ajudamos e as famílias de alguns de nossos voluntários fugiram da Síria para a Europa enfrentando vias ilegais de passagens clandestinas das fronteiras e a navegação no mediterrâneo. Nós não temos nenhuma solução a lhes oferecer quando eles vêm pedir conselho nem repreensões a lhes fazer. Isto é sem dúvida uma façanha aguentar durante quatro anos e meio. Acima de tudo, nós rezamos para que eles cheguem salvos e sem muito sofrimento.

Face à crise d’água, nós lançamos, faz 6 semanas, um grito de socorro. Três associações amigas ocidentais responderam generosamente ao nosso apelo. Nós pudemos compra 3 camionetes que equipamos de reservatórios de 1000 a 2000 litros d’água, uma bomba e um  pequeno gerador. Nós compramos também reservatórios de 250 litros que instalamos junto às famílias desalojadas. Nós também iniciamos um novo programa «Tenho Sede”. Enchemos diversas vezes por dia os tanques d’água das camionetes a partir dos poços artesianos de uma igreja e abastecemos os reservatórios das famílias desalojadas ou dos voluntários.

Nosso projeto «gota de leite» que consiste em distribuir a todas as crianças de menos de 10 anos leite em pó ou  leite para bebês que atingiram o quinto mês com o reconhecimento dos pais que veem seus filhos crescer normalmente apesar da guerra.

Nós continuamos a ajudar as famílias desalojadas ou deficientes a sobreviver graças às cestas básicas mensais que nós lhes distribuímos e roupas para se vestir. Nós ajudamos centenas de famílias desalojadas a se alojar. Nós participamos nas despesas cirúrgicas ou a encontrar um leito no hospital para os que não têm meios para consegui-lo. Continuamos a distribuir refeições quentes ao meio-dia.

Nosso programa «Civis feridos de Guerra» continua para salvar da morte os feridos gravemente atingidos pelos obuses e por balas.

O fim do ano escolar não determinou a paralização de nossas atividades pedagógicas. Neste verão, como os demais, organizamos diversas «colônias de férias» para as crianças de nossos diferentes projetos, em particular estes do «Aprender a Crescer» e do «Eu quero aprender».

«Magic Bus 1», «Magic Bus 2», «Eu amo o Verão » fizeram a alegria das crianças que passaram semanas de felicidade e de alegria esquecendo a guerra e as privações.

Skill School continuou suas atividades com os adolescentes que aproveitaram as férias escolares para viver belos projetos.
Nosso «M.I.T.» vai bem e apesar da guerra e sobretudo o calor tórrido deste verão, as sessões continuaram com proveito apesar das demandas de participação.

Numa tarde, um jornalista canadense pediu-me no decorrer de uma entrevista radiofônica via telefone o que eu gostaria de dizer a um cidadão europeu ou americano. Eu gostaria de partilhar com vós a resposta que eu dei: «Antes de tudo, não perdeis vossa faculdade de indignação diante do drama sírio e os sofrimentos dos sírios, denunciai os atos bárbaros, não  vos habitueis ao horror, evitai que  a repetição das denúncias banalizem os atos denunciados. Declarai vossa solidariedade com as pessoas que tem fome, que tem sede, que estão doentes ou feridas, desalojadas ou refugiadas, pelas estradas ou no mar. Considerai os refugiadas como seres humanos fugindo da guerra e da morte e não de migrantes que vem procurar um melhor condição de vida entre vós. Sejais generosos de coração e hospitaleiros. E ainda, informai, lutai contra a desinformação praticai por diversas mídias, fazei pressão sobre vossos governantes e vossos responsáveis para que mudem sua política a fim de alcançar uma solução política do drama sírio e salvar esta que pode ser a Síria e o seu tecido social. “Depois e somente depois, dai generosamente para ajudar e socorrer».

Aqui de cima eu vos deixo transmitindo-vos as saudações e os agradecimentos de toda a nossa equipe.

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Alepo, 8 de setembro de 2015
Nabil Antaki, pelos Maristas Azuis

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