27 de março de 2014 SíRIA

Caminhar para a Páscoa

O tempo está bonito hoje de manhã em Alep. Levantei-me cedo. Preciso verificar os reservatórios de água da comunidade. Os problemas de água e energia melhoraram visivelmente nesses últimos dias. A questão é que as duas se encontram racionadas: a água nos chega a cada dois dias e a energia por períodos de duas ou quatro horas. Não temos de que nos queixar… Há tanta miséria em nossa volta que o racionamento de água e de energia não representa mais um grande problema. Os habitantes de Alep já suportaram tanta coisa que cada vez que um serviço público melhora, mesmo que somente um pouco, eles se alegram. Se lhes perguntarem como vão? A primeira resposta é “NECHKOR ALLAH” Graças a Deus!

De onde vem toda essa força de resistência dos habitantes da cidade? De uma Fé ancorada na vida cotidiana, de um espírito de solidariedade e de ajuda mútua, ou de uma grandeza de espírito que lhes faz ver a miséria dos outros e por isso dizer que “vai tudo bem…”.

A cidade continua a ser dividida, separada e fechada. É uma separação completa entre as duas partes. Para passar de um lado para o outro, gastam-se algumas vezes entre 10 a 16 horas, um trajeto que em dias normais, seria feito em quinze minutos.

E no interior da parte onde residimos, há muitas barreiras policiais, controles que algumas vezes se deslocar de carro exige uma paciência infinita… É normal! É preciso controlar para evitar carros suspeitos, para impedir infiltrações, para… para… Nós nos habituamos com a guerra. Ela se tornou parte integrante de nossa vida, de nosso cotidiano… Podemos nos habituar com as barreiras… com os tiros, com os bombardeios… com os clarões dos obus … com os morteiros, com as cenas de destruição e de morte? Podemos aceitar que nosso patrimônio seja destruído?

A libertação das freiras de Massloula foi por um instante, um sinal de esperança… O diálogo é possível, as negociações poderiam ter acontecido… Mas a que preço e quem poderia ajudar a restabelecer a paz quando predominam a recusa do outro e sua exclusão?

A questão da emigração continua sendo a primeira pergunta que fazem muitos jovens e os pais…O que devemos responder? Quem ousa aconselhar? Quem possui dados suficientes para decidir? Ninguém, ninguém… Ficar quando se tem medo, quando se está desempregado, quando se perd um parente, quando o horizonte parece obscuro e, sobretudo, quando pesa nos corações uma ameaça… ou então, Partir, para onde, como, por que? Partir para viver no estrangeiro, partir deixando para trás a terra, a cultura, as raízes…

Milhões de pessoas deixaram o país… Fala-se do maior desastre humanitário do planeta… Tudo isso traz consequências para todos, sobretudo para as crianças:

No seu relatório sobre a situação das crianças na Síria, intitulado “Em estado de sítio – Três anos de um conflito devastador para as crianças da Síria”, a UNICEF denuncia os enormes danos causados aos 5,5 milhões de crianças hoje atingidas pelo conflito e pede uma parada imediata das violências e uma ajuda maior para essas crianças sinistradas.

A UNICEF estima em 2 milhões o número de crianças que necessitam de ajuda ou de um tratamento psicológico.

“Para as crianças da Síria, os três últimos anos foram os mais longos de suas vidas. Elas devem viver um outro ano de sofrimento? Pergunta o diretor geral da UNICEF, Anthony Lake.

O relatório adverte que o futuro de 5,5 milhões de crianças que se encontram na Síria ou vivem como refugiados em países vizinhos está em jogo, enquanto que a violência, o esfacelamento dos sistemas de saúde e de educação, uma angústia intensa e o impacto da degradação da economia sobre as famílias se combinam para devastar toda uma geração.

Se esse quadro é obscuro, é porque ele esquece que há pontos luminosos… 

Os Maristas continuam a acreditar, para e contra tudo, que a educação é o instrumento principal para construir o homem e fazer dele um ator de paz… Nosso fundador Marcelino Champagnat dizia: “Educar as crianças para que se tornem cidadãos virtuosos e bons cristãos” Adaptando isso a nossa situação, eu poderia dizer “para se fazer cidadãos virtuosos e bons crentes” Com essa inspiração, continuamos com muita coragem e fé, a oferecer diferentes programas educativos às crianças, aos adolescentes e aos adultos sem nenhuma distinção.

Os jovens do Projeto “Skill School” comemoraram a festa das mães, festa celebrada no oriente no dia 21 de março, tendo por tema: “Estenda-me tua mão…” Uma mão terna, acolhedora, uma mão que ama e perdoa, que encoraja e indica o caminho…

As crianças do Projeto “I learn” comemoraram essa festa com suas mães. Elas manifestaram seu amor ao ente mais querido.

No mundo árabe, a festa das mães coincide com o início da primavera. Uma palavra que perdeu suas cores e sua esperança e que ressoa no coração de milhões de pessoas: guerra, desemprego, destruição, morte, sangue, desestabilização. 

Escolhemos aproveitar o início da primavera para fixar nossa escolha de paz e respeito mútuo entre as diferentes culturas. É um valor essencial. O Irmão Turú, Superior Geral, me pediu para partilhar com vocês essa experiência…

Abrir as portas, ir ao encontro do outro, convidá-lo à casa, se colocar com ele em volta da mesma mesa, escutá-lo, falar-lhe, partilhar juntos valores comuns, aceitar que nossa fé em Deus é um caminho que nos une e não que nos separa, partilhar o mesmo compromisso de construir um mundo mais justo, estabelecer as bases de uma paz que não exclui o outro, criar redes de artesãos da paz… Partilhar com eles nosso carisma como caminho para uma humanidade sem fronteiras.

As várias sessões de formação do projeto “M.I.T.” vão na mesma linha: 3 sessões de formação em torno dos seguintes temas: “A educação, tesouro da humanidade”, “Como resolver os problemas e tomar decisões”, “Kaizen ou a melhoria continua”.

Três conferências apresentaram “A manipulação positiva” e “O amor em 3 dimensões”.

As 30 senhoras do projeto “TAWASOL” preparam para a Páscoa uma exposição de seus trabalhos com diversos temas artísticos e manuais.

Os jovens escoteiros puderam aproveitar alguns dias de férias para preparar seus acampamentos de inverno, nos locais. Os acampamentos terminam com um dia de partilha com seus pais…

Dado o aumento da distribuição das cestas alimentares (cada vez mais somos solicitados pelas famílias para vir ajudá-las, arranjamos um lugar para servir de depósito suplementar que vem se juntar aos vários locais onde depositamos gêneros alimentícios, roupas, material de higiene, colchões e cobertores, enfim, tudo o que pode servir para as famílias deslocadas. Uma boa equipe está a serviço delas.

Marchando para a Páscoa, esperamos que o caminho da cruz que estamos vivendo, termine com décima quinta estação: A ressurreição. 

A todos vocês, amigos e benfeitores, a todos os maristas, desejamos um bom caminhar para a Páscoa…

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Alep, 22 de março de 2014
Para os maristas azuis, Irmão Georges Sabe

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