9 de abril de 2013 SíRIA

Carta de 24 de março (Carta n. 9 ? extratos)

Resignação e lassitude resumem bastante bem o estado de espírito atual dos habitantes de Alepo. Com efeito os alepinos estão resignados :

* A ter uma cidade cortada em duas partes  com o afluxo de centenas de milhares de refugiados  que invadiram as zonas « seguras », sem se lamentar.

* A ouvir o ruído ensurdecedor das rajadas de metralhadoras e de tiros de canhões sem murmurar, e de aviões sem levantar a cabeça.

* A viver constantemente sob a ameaça de obuses de canhão que caem em qualquer lugar , de tiros de  snipers que matam não importa a quem, e de carros-bomba que explodem a qualquer momento, sem ter medo.

* A ficar em casa a partir do pôr do sol (18h agora) e só sair de manhã, transformando Alepo em cidade-fantasma, sem poder se divertir.

* A cruzar, todos os dias e cada vez mais, por mendigos nas ruas, sem se revoltar.

* A constatar que a economia está completamente arruinada, as fábricas desmanteladas e roubadas e as lojas queimadas, sem desesperar.  (…)

E, ademais, estão cansados :

* Cansados de não perceber uma solução de acontecimentos que duram dois anos na Síria (15 de março de 2011) e em Alepo 8 meses (23 de julho de 2012).

* Cansados de ver a Síria, chamada "berço da civilização" pela comunidade internacional, e Alepo, a mais antiga cidade sempre habitada do mundo, destruídas, seus tesouros arqueológicos roubados, seu tecido social desfiado, a segurança, que aí reinou e que outros invejavam, desaparecida, e a convivência entre as diferentes comunidades do país e a tolerância substituídas por um fanatismo religioso importado. (…)

Apesar desse contexto bastante sombrio, nós, «os Maristas Azuis», continuamos com determinação nossa ação em favor dos refugiados que se alojam em três escolas de Cheikh Maksoud. Nós vamos lá diariamente passar o dia com eles para acompanhar as mães, divertir e educar as crianças, distribuir os alimentos para o café da manhã e o jantar, levar cada dia um almoço quente, cuidar dos doentes, cuidar da higiene e da saúde … Roupas e sapatos  são dados na ocasião. Há 2 semanas, o almoço que distribuímos diariamente aos refugiados de que somos encarregados nos é fornecido gratuitamente pela Associação Beneficente Muçulmana "Al Ihssan" que prepara em suas instalações dezenas de milhares de refeições diárias para os refugiados das escolas. (…)

Continuamos sempre nosso projeto «A cesta Montanha» que consiste em fornecer uma cesta mensal de alimentos aos cristãos do bairro de Cheikh Maksoud, sem recursos, devido aos acontecimentos. São 300 famílias. Quarta-feira, 27, haverá a distribuição da oitava cesta mensal, e cada família receberá também um quilo de carne para que a Páscoa seja também uma festa. 

Também não esquecemos as famílias necessitadas que moram fora do bairro de Cheikh Maksoud e que sustentamos há 25 anos no quadro de nossa associação «Ouvido de Deus»

Recentemente, nós, Maristas, tomamos a iniciativa de propor uma reunião com todas as associações caritativas que socorrem os cristãos necessitados de Alepo. Os responsáveis das 13 associações se reuniram duas vezes para se conhecer e coordenar sua ação, recuperar suas listas e harmonizar os recursos.

Em nosso dia a dia, cada vez mais difícil, somos consolados por vários sinais de expectativa e de Esperança:

– Nossos voluntários continuam seu compromisso conosco, apesar de ser sempre mais perigoso ir a Sheikh Maksoud, devido aos acessos bloqueados,  bombas e tiros de snipers que,  às vezes, causam vítimas.

– A maioria dos Sírios recusa a violência e aspira ao fim das hostilidades e à recuperação do clima de fraternidade de outrora.

– Estamos maravilhados pela rede de solidariedade que se formou ao nosso redor, tanto em nível local e nacional como internacional. Não podemos agradecer bastante  a todos quantos, por pensamentos, mensagens ou donativos, nos manifestaram amizade,  solidariedade e amor.

Para concluir, e por ocasião da eleição do Papa Francisco, queremos partilhar com vocês esta oração de São Francisco de Assis :

Senhor, fazei de mim um instrumento de vossa Paz!
Onde houver ódio, que eu leve o amor.
nde houver ofensa, que eu leve o perdão.
Onde houver discórdia, que eu leve a união.
Onde houver dúvidas, que eu leve a fé.
Onde houver erro, que eu leve a verdade.
Onde houver desespero, que eu leve a esperança.
Onde houver trevas, que eu leve a luz.
Onde houver tristeza, que eu leve a alegria.
O Mestre, fazei que eu procure mais
consolar que ser consolado;
compreender, que ser compreendido;
amar, que ser amado.
Pois é dando que se recebe,
é perdoando que se é perdoado,
e é morrendo que se vive para a vida eterna.

Por ocasião da Páscoa, queremos dizer-lhes que acreditamos na Esperança cristã, sem a qual, a fé é somente palavras, e a caridade apenas esmola. Acreditamos que a luz brotará das trevas e que, depois da morte, haverá ressurreição e vida.

Boa Páscoa! Christos Anesti !

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Nabil Antaki, pelos “Maristas Azuis”

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Domingo, 31 de março.

A meus amigos do mundo, a meus Irmãos e amigos Maristas:

Tenho certeza de que pensaram em nós na sua oração de sexta-feira santa.

Sei que vocês se inquietam por nós. Sei que nos desejam uma ressurreição, um fim da guerra, um vislumbre de esperança !

Infelizmente, anuncio-lhes tristes notícias. Desde a madrugada, o distrito de Jabal el Saydeh, onde estamos realizando nossa missão há mais de 27 anos, e onde estávamos a serviço de 300 famílias cristãs e 3 escolas, congratulando-se com o movimento, pois bem, este distrito foi palco de intensos combates.

As pessoas estão aterrorizadas, presas em suas casas, prisioneiras da loucura dos tiroteios, de snipers, de bombas… Não podem absolutamente deixar sua casa, têm medo. Não podemos absolutamente ir a casa delas. Quando possível lhes telefonamos. Assim, que calvário! Que cruz! Que desespero!

Não lhes escrevo isto para que tenham piedade de nosso povo… Escrevo-lhes porque estou triste, completamente triste, de uma tristeza que apaga o pouco de esperança que resta !

Escrevo-lhes para lançar um grito em voz alta: isso é o suficiente! Já, em outras ocasiões, manifestei minha  rejeição pela guerra. Todas as perguntas sobem a mim, em nome de todas essas pessoas, em nome de suas crianças, jovens, adultos: Por quê? Por quê? E em nome de quê? Quem é o senhor da guerra, que decidiu matar-nos, exterminar-nos, acabar com a gente? Quem decidiu que tantos sofrimentos sejam nosso pão de cada dia durante meses e meses? Quem é aquele que nos convida à mesa da crucificação? Tenho vergonha de dizer que homens desta terra decidem a morte!

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Irmão Georges Sabe.

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