28 de agosto de 2013 SíRIA

Carta de Alepo Nº13 (26 de agosto de 2013)

Para os que vivem na Síria e para todos os que seguem de perto as notícias, todos sabem muito bem que da Síria hoje só chegam notícias de morte: de crianças, de adultos, de jovens, de mulheres, de homens… Todo mundo é ameaçado, atacado, emboscado, assassinado, sequestrado, morto, massacrado…

Nada, nenhuma boa notícia, nenhuma notícia que traga uma luzinha de esperança, nem uma palavra… nada, a não ser a sombra da morte que ronda e ceifa corpos e almas…

Nossas cerimônias sociais são enterros…

Nossos lugares de encontro são as igrejas ou as mesquitas…

Nossas orações são pelos defuntos…

Nossas saudações: “Allah yrhamna” “Que Deus tenha piedade de nós”…

É preciso pintar um quadro tão sinistro, quadro de medo e de vergonha para que os outros tenham piedade de nós?

Até quando poderíamos resistir? Por que continuar no país? Que nos espera amanhã? Qual será nosso destino? E onde será nosso próximo destino? Como proteger nossas crianças? Aonde ir com nossas pessoas idosas ou enfermas? Aqueles que fugiram do inferno, estarão mais felizes que nós? Quem permitiu que sofrêssemos esse horror? Quem será o mandatário? Por que nós? Por que toda essa obstinação em transformar o homem e a mulher que somos em objeto de matança?

Onde buscar uma palavra de esperança? Palavras de consolação?

Que vestimenta escolher, senão a do luto?

Que lágrimas derramar, senão as do Adeus?

Adeus meu país, Adeus meu querido, Adeus meu amor, Adeus meu filho, Adeus minha filha, Adeus papai, Adeus mamãe…

Transformamo-nos numa palavra de Adeus?

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Sábado 10 de agosto, o ódio e a violência atingiram em cheio os Maristas Azuis, arrancando a vida do Dr. Amine, um Marista, dos verdadeiros, comprometido, homem de serviço e de bondade. Dr. Amine voltava a Alepo, depois de uma breve visita aos seus filhos. Regressava por seus doentes, por aqueles que tinham necessidade dele. Por ele e por tantos outros, mortos cegamente e gratuitamente, nosso coração de Maristas sangra…

Cada vez mais, o povo inocente e empobrecido paga muito caro o preço de um bloqueio internacional e local. A cidade de Alepo continua a ser dividida… A única perspectiva dos habitantes é de saber se podem hoje abastecer-se de pão, de água, de gêneros perecíveis, de leite para as crianças… Devemos dizer que o amanhã não existe mais no nosso imaginário… Unicamente o hoje. Amanhã é algo tão longínquo e talvez tão diferente que já não existirá mais para muitos dentre nós.

class=imgshadowSomos confrontados a outras grandes questões: o inverno e o reinício do ano escolar. Já estão bem próximos… Os que estão alojados nas escolas públicas serão obrigados a evacuar esses lugares? De mudar-se mais uma vez, partir?…

Os pais têm medo de enviar seus filhos ao colégio… Que segurança lhes será garantida? Se um morteiro vier a cair sobre uma das escolas… Se as ruas forem bloqueadas…

Diante desse quadro sombrio, os Maristas Azuis lutam para continuar, na medida do possível, como um oásis…

As pessoas vêm até nós para partilhar suas preocupações, pedir conselho, acalmar o corpo e o espírito, saber que ainda é possível contar com alguém… Alguns levam mais de duas horas para chegar.

As 40 crianças do projeto “Aprender a crescer” acabam de passar 3 semanas de férias. Isso permitiu às educadoras de respirar, de formar-se e de colocar-se em dia para enfrentar um novo ano escolar… No intuito de ajudar aos pais a organizar esse tempo de férias, fizemos a proposta de dois dias de formação.

Os jovens do projeto “Skill’s School” continuam… eles preparam uma festa para celebrar com seus pais o final das atividades de verão.

Para que o horizonte não seja completamente fechado e para que mantenham a confiança em dias melhores, lançamos um novo projeto…

Foi assim que começou “learn English”. Envolve a dezena de jovens adolescentes que estão alojados com os maristas…

class=imgshadowDomingo passado, os Maristas Azuis participaram da alegria da celebração da primeira comunhão de doze crianças deslocadas do bairro de “Djabal el Saydeh”.

Apesar de que os gêneros alimentícios vão ficando cada vez mais raros (óleo, queijo, leite são quase inexistentes e se os encontramos são a preços exorbitantes), batalhamos para continuar garantindo as cestas alimentares semanais ou mensais para “Sallet el Djabal”, “Ouvido de Dieu” e aos refugiados.

Acrescentamos às cestas alimentares pão, que só é acessível às famílias após longa espera, às vezes durante um dia inteiro diante de uma padaria, em filas intermináveis, com o risco de ser feridos por tiros ou obuses.

O projeto “Feridos de guerra” continua a salvar vidas inocentes que sofrem as consequências dessa loucura.

Queremos terminar com o desejo que o Papa Francisco expressou durante o ângelus do domingo 25 de agosto de 2013: 

“Que cesse o ruído das armas na Síria!”

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Ir. Georges Sabe – Pelos Maristas Azuis

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