12 de agosto de 2022 SíRIA

Carta de Aleppo 44: Tanto por nada!

Síria, 10 de agosto de 2022

O mundo nunca viu um derramamento de solidariedade tão grande como o mostrado em relação ao povo ucraniano. Estados, especialmente no Ocidente, associações internacionais, agências da ONU, ONGs e indivíduos agiram com rapidez e extrema generosidade para aliviar o sofrimento dos refugiados, dos deslocados e dos feridos. Eles foram encorajados pelos correspondentes da mídia no local que, desde os primeiros dias do conflito, relataram que estavam encontrando “pessoas como nós, que se vestem como nós, que vivem em cidades que se parecem com as nossas…”. Como se o alívio do sofrimento dependesse de tais critérios. Sem entrar em polêmica política, podemos dizer que esta guerra poderia ter sido evitada.

Poderia também ter sido evitada a guerra no Afeganistão, que terminou com deplorável retirada das tropas americanas após causar centenas de milhares de mortos e custar milhares de bilhões de dólares. “Tanto por nada”, disse um colunista!

Igualmente poderia ter sido evitada o desastre que começou na Síria há mais de 11 anos e ainda não terminou. A guerra e as sanções arruinaram o país e empobreceram a população. Este foi, sem dúvida, o verdadeiro objetivo da guerra aqui. Ela causou a morte de 500.000 pessoas e o sofrimento de centenas de milhares de feridos e amputados. Isso fez com que 5 milhões de pessoas fugissem para os países vizinhos, 1 milhão migrassem para o Ocidente e 8 milhões deixassem suas casas.

Três guerras que poderiam e deveriam ter sido evitadas.

Por trás dos falsos álibis e dos pretextos falaciosos para o lançamento dessas guerras, existem razões geopolíticas não declaradas e inaceitáveis, um maquiavélico condenável e um cinismo vergonhoso.

Nem guerra e nem paz

Há vários anos quase não há combate na Síria, mas este estado de “nem guerra, nem paz” é insustentável. A guerra destruiu, mas a ausência de paz impede a reconstrução e a reconciliação; e como alguém disse: “os conflitos congelados, que muitas vezes são conflitos insolúveis, acabam inexoravelmente retornando”.

A situação econômica na Síria é catastrófica: 82% da população vive abaixo da linha de pobreza, 60% não tem garantias de alimentação, a taxa de desemprego é impressionante, a inflação é galopante, a maioria das famílias não consegue pagar as contas, a moeda nacional perdeu 90% de seu valor e os preços aumentam diariamente. A escassez agrava a pobreza graças ao racionamento de pão, gasolina, eletricidade e muitas necessidades básicas.

Papel indispensável dos Maristas Azuis

Diante deste agravamento do sofrimento de nossos concidadãos, a missão dos Maristas Azuis é ainda mais indispensável. Somos apoiados por muitas associações internacionais e por muitos amigos. Somos gratos a eles. Graças ao seu apoio moral e financeiro, somos capazes de manter todos os nossos projetos de ajuda e assistência e todos os nossos programas educacionais e de desenvolvimento.

Ainda há muitas famílias deslocadas dentro da cidade de Alepo. Continuamos a distribuir 832 cestas básicas mensais para as famílias mais vulneráveis e a pagar o aluguel para 200 famílias que ainda não puderam voltar para suas casas.

Cento e cinquenta pessoas são beneficiadas, a cada mês, com o nosso programa médico para pagar cirurgias, receitas para doenças crônicas ou exames muito caros.

Nosso projeto “Gota de Leite” continua a fornecer a 3.000 crianças e bebês, todo mês, o leite que eles precisam para crescer. Nosso projeto “Pão Compartilhado” fornece uma refeição quente diária para 230 idosos com mais de 80 anos que vivem sozinhos e não têm ninguém para apoiá-los.

Combate à migração

Queremos que os jovens permaneçam na Síria e não migrem. O país e a sociedade precisam deles. Entristece-nos saber que milhares de médicos sírios migraram para a Alemanha e a França. Ontem, recebi uma mensagem de um amigo e colega, um gastroenterologista e endoscopista, que me informou que havia emigrado para a França há alguns meses. Isso mesmo ele tendo uma boa reputação, muito competente, com trabalho garantido. Sendo questionando por mim, ele respondeu que havia pensado sobre o futuro de seus filhos. E sim, por causa da guerra, a Síria perdeu sua elite, todos aqueles acadêmicos, engenheiros, cientistas da computação e médicos, que estudaram e foram treinados gratuitamente nas universidades sírias, que poderiam ter participado na reconstrução do país, mas que agora estão instalados nos países do Golfo ou na Europa; estes países que se beneficiam gratuitamente desta mão-de-obra qualificada treinada aqui, mas que hipocritamente reclamam desta imigração, mesmo que seja essencial para sua economia ou seu bem-estar.

Neste verão, muitos sírios que haviam deixado o país para se estabelecer em outro lugar retornaram à Síria para passar suas “férias”. Eles vieram para inspecionar suas casas que haviam deixado com pressa, para colocar seus assuntos em ordem e para completar as formalidades administrativas. Infelizmente, eles partirão novamente e poucos retornam definitivamente.

Para que nossos jovens fiquem, eles precisam ter um emprego. É por isso que três de nossos programas são projetados para atingir este objetivo. Nosso Centro Marista de Treinamento (MIT) treina adultos e os capacita a adquirir habilidades em diferentes áreas.

O programa Microprojetos financia pequenos projetos, desde que sejam viáveis e sustentáveis. Em 6 anos, financiamos mais de 200 iniciativas. Infelizmente, apesar do treinamento oferecido aos candidatos e do acompanhamento dado pelos mentores maristas azuis, o sucesso desses microprojetos não é evidente. A crise econômica, a inflação e o alto custo dos aluguéis e produtos fazem com que algumas iniciativas que pareciam poder ter sucesso fracassem. Por outro lado, houve muitas boas realizações e sucessos; estou pensando em T.J., que abriu uma oficina para mecânicos de automóveis, em A.B., que fabrica escadas pequenas e escadotes, em S.A. e A.C., que agora têm uma barbearia. O Papa Francisco, em sua intenção de oração de agosto, enquanto elogiava a coragem, criatividade e esforços dos pequenos empresários, pediu para rezar por eles para que “possam encontrar os meios para continuar sua atividade, a serviço das comunidades onde vivem”.

Quanto ao programa de Formação Profissional, ele permite que nossos jovens trabalhem como aprendizes com profissionais para aprender uma profissão. Vinte já completaram seu treinamento e outros 20 estão em processo de aprendizagem. O jovem R.E. aprendeu, em 1 ano (quando sua aprendizagem deveria durar 18 meses), como reparar e manter telefones celulares; seu chefe nos disse que não tinha mais nada a ensinar e que agora ele pode ser patrão de si mesmo e voar com suas próprias asas.

Outros projetos dos Maristas Azuis

O projeto Feito com o Coração continua e expande seus negócios e multiplica seus produtos para se autofinanciar. Dezesseis mulheres encontraram emprego criando roupas femininas a partir de restos de tecidos.

Desde o início de nossa missão, criamos um projeto quando sentimos que há uma necessidade; e fechamos projetos quando sua razão de ser não existe mais. É por isso que concluímos o projeto “Aprendendo a Crescer”. Por outro lado, o “Quero Aprender” continua sua missão de educação e instrução de 120 crianças de 3 a 6 anos de idade. No final do ano letivo, os acampamentos de verão tomaram conta das atividades de entretenimento para levar alguma alegria ao coração das crianças de famílias deslocadas. Nosso programa de apoio psico-social “Sementes” continua a dar apoio às 450 crianças que estão sob seus cuidados. Quanto aos projetos “Desenvolvimento da Mulher”, “Corte e Costura” e “Esperança”, eles estão realizando sessões de 3 meses, um após o outro, para atender a todas as necessidades e pedidos.

Esperança pela paz

Após 11 anos de sofrimento, drama, migração e privação, temos dificuldade de viver e difundir nosso lema marista: “Semeando Esperança”. No entanto, nós precisamos tanto; as pessoas ao nosso redor precisam disso. Ainda não vemos o fim do túnel. As grandes potências têm outras coisas com que se preocupar e a questão síria não é mais uma prioridade para elas. A Síria se tornou “um país esquecido”. Quanto às potências regionais, elas utilizam o conflito sírio para fortalecer seus interesses na região. Felizmente, alguns países árabes e outros países foram além do raciocínio maniqueísta de que há bons de um lado e maus do outro, e restabeleceram suas relações com a Síria. Esperemos que os países ocidentais façam o mesmo e que um diálogo comece como um prelúdio para a resolução do conflito e para a paz.


Síria, 10 de agosto de 2022

Dr. Nabil Antaki, em nome dos Maristas Azuis

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