9 de abril de 2022 SíRIA

Carta de Aleppo nº 43: Caminhar juntos

O Santo Padre nos convida a viver um tempo de sinodalidade em nível de Igreja universal. Este termo significa “caminhar juntos”. Na sequência deste convite, os representantes da Igreja Católica da Síria (três Patriarcas, 17 Bispos, representantes de todas as congregações religiosas e todas as associações caritativas da Síria) encontraram-se no desejo de viver uma dimensão particular deste caminho sob o tema “A Igreja, casa da Caridade, Sinodalidade e Coordenação”.

Esta Conferência foi realizada em Damasco, de 15 a 17 de março de 2022, reunindo mais de 200 participantes sírios de todas as regiões do país e representantes da Cúria Romana e ROACO (as várias organizações católicas internacionais para a ajuda das Igrejas Orientais). Participaram quatro Maristas Azuis.

Em seu discurso de abertura, o Cardeal Sandri, Prefeito do Dicastério das Igrejas Orientais, definiu os objetivos: Pensar, refletir, compartilhar e coordenar, “para assumir também os fardos uns dos outros”. Ele nos transmitiu uma mensagem do Papa Francisco na qual o Santo Padre nos convida a ser, “por nossas iniciativas, um sinal tangível da caridade da Igreja, nutrida pelo Evangelho…”

Neste momento de grave crise econômica na Síria, era importante nos encontrar, compartilhar, coordenar nossas atividades presentes e, acima de tudo, tentar vislumbrar o futuro.

A guerra entre a Rússia e a Ucrânia agrava a crise

Como se o rescaldo da guerra e as sanções econômicas ocidentais não fossem suficientes para reduzir à miséria e à precariedade a população síria, a guerra entre a Rússia e a Ucrânia veio agravar a escassez e a crise econômica, e multiplicar nossos infortúnios e nossas preocupações cotidianas.

De um dia para o outro, os preços sobem vertiginosamente. Vou dar alguns exemplos: Como a eletricidade ainda é racionada (temos eletricidade para 2 horas por dia), a assinatura semanal de 1 amp de um gerador privado para acender 2 lâmpadas e um minifrigorífico passou, em 15 dias, de 12.000 libras sírias para 18.000 LS. Fazendo as contas, são 72.000 LS por mês, ou seja, mais de três quartos de um salário médio mensal.

Resignadas e sem meios, muitas famílias são obrigadas a permanecer no escuro após o pôr do sol.

Os preços dos alimentos estão subindo. O preço do litro de óleo vegetal subiu em uma semana de 13.000 para 17.000 libras sírias.

Vivemos tempos difíceis. A luz não aponta no horizonte.

Os Maristas Azuis

Como Maristas Azuis, traduzimos em nossas atividades cotidianas a mensagem que o Santo Padre dirigiu aos participantes da Conferência de Damasco, ao recordar a imagem usada por São Paulo, em sua carta aos Coríntios, dos membros da Igreja formando um só corpo: “Entre os membros deste corpo há os da escuta, da partilha de amor, do apoio recíproco e, sobretudo, uma consciência do papel que cada um é chamado a desempenhar”.

Continuamos nosso programa de distribuição de cesta básica alimentar mensal para mais de 850 das famílias mais pobres. Não podemos nos dar a permissão de pará-lo, dada a extrema pobreza que encontramos todos os dias.                                        

O projeto “Pão partilhado” continua a oferecer diariamente uma refeição quente a 210 pessoas com mais de 80 anos que vivem sozinhas. São pessoas que muitas vezes vivem em grande solidão e pobreza extrema. Vemos o quanto essas pessoas precisam de uma presença terna e afetuosa; quanto elas precisam conversar e contar algo para os outros… Para isso, e como parte da formação de todos os nossos voluntários maristas e por ocasião da Quaresma, oferecemos a eles a oportunidade de conhecer esses idosos. Dois a dois, eles os visitavam para vivenciar um momento de escuta e partilha. Muitos pedem para eles voltarem….

Para além da refeição quente diária, optamos por pagar 1 ampere para todos aqueles que estão sem eletricidade.

As crianças dos projetos educativos “Quero aprender” e “Aprender a crescer” puderam comemorar o Dia das Mães no dia 21 de março. Elas não faziam isso há 2 anos por causa da pandemia da Covid-19.

Os projetos “desenvolvimento da mulher” e “corte e costura” concluíram sua formação. Mais de 60 mulheres fizeram os cursos. Outras mulheres se beneficiarão das próximas sessões que começarão nestes dias.

O projeto médico continua a trazer alívio a muitos pacientes. Esse é um dos projetos pensados ​​que devemos continuar, dado o custo exorbitante dos tratamentos e dos medicamentos atualmente na Síria.

Estamos descobrindo cada vez mais violência em nossas crianças e adolescentes. O projeto de apoio psicológico “Seeds” dá uma resposta educativa a esta explosão de violência (verbal e gestual), com apoio muitas vezes personalizado.

Acreditamos profundamente que a melhor maneira de ajudar os nossos concidadãos e os nossos correligionários a sobreviver e a olhar para o futuro com um pouco de serenidade é permitir-lhes ter um emprego e um meio de subsistência para serem independentes da ajuda de assistência prestada por ONGs. É por isso que continuamos nosso programa MIT (formar adultos em várias habilidades e ensinando-os a gerenciar seus projetos). Nosso programa de microprojetos financia seus projetos e os acompanha por três anos. E nosso programa de formação profissional permite que outros adultos aprendam um ofício em 2 anos, sendo aprendizes de um profissional.

Caminhar juntos

Em nossos diversos projetos, nós, Maristas Azuis, não damos esmolas nem fazemos caridade. “Caminhar juntos” em um processo de solidariedade foi nosso carisma desde o início.

Caminhar junto também significa viver com outras pessoas que não compartilham minhas crenças religiosas ou culturais. É procurar resolver nossas diferenças por meios pacíficos.

Caminhar juntos é uma escolha de vida. E como diz a canção de Jean Claude Giannada:

“Basta uma lágrima para o mundo chorar, uma única música para fazê-lo dançar, uma mão na minha mão para começar a roda e, se somos dois, por que não milhares?
Venha, abra sua porta, saia do fundo de você, venha, o que você carrega pode dar alegria… Venha, continue a história do livro do Amor. Venha, esta noite escura pode se tornar dia!”

Desejo-lhe uma feliz e santa Páscoa.

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Ir. Georges Sabé – Pelos Maristas Azuis
4 de abril de 2022

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