21 de fevereiro de 2021 CASA GERAL

Quaresma: como Marcelino, sejamos talentosos nas relações humanas

Ir. Ben Consigli

Ao começarmos esta Quaresma, quero compartilhar com vocês algumas ideias do livro do Padre Ronald Rolheiser, Fogo Sagrado: Uma Visão para uma Maturidade Humana e Cristã Mais Profunda. Alguns anos atrás, usei este livro como parte de meu retiro anual no sopé das montanhas de Tucson e no belo deserto de Sonora, no Estado americano do Arizona. O deserto é um lugar seco, empoeirado e desolado, mas pode oferecer um lugar de reflexão e contemplação interior para encontrar nossa relação com Deus. O deserto pode ser um cenário ideal para uma vida interior renovada e aprofundada, mas também pode ser fatal. O deserto exige decisões, escolhas, e temos que tomar as decisões certas ou nossas vidas correm perigo. No deserto, somos reduzidos ao essencial. É um lugar onde não podemos nos esconder de nós mesmos. Segundo os Padres e Madres de nossa Igreja, o deserto é também o lugar de maior proximidade com Deus. O deserto, neste sentido bíblico e espiritual, nunca é um lugar para ficar. É uma situação pela qual você deve passar… entrar e sair. A Quaresma, de certa forma, é como um deserto – cheio de “poeira e cinzas”. É apropriado, então, que nossa jornada quaresmal anual com Deus comece na quarta-feira de cinzas.

A Quaresma pode ser para cada um de nós um momento em que fazemos um maior esforço para sermos guiados por Deus. A Quaresma nos convida ao deserto para examinar nossas próprias vidas e nos chama a voltar para Deus:

“Pois agora – oráculo de Javé – voltem para mim de todo o coração, fazendo jejum, chorando, lamentando. Rasguem seus corações, e não suas roupas! Voltem para Yahweh, o Deus de vocês, pois ele é piedade e compaixão, lento para a cólera e cheio de amor, e se arrepende das ameaças.” (Joel 2: 12-13)

Ao refletir sobre aqueles tempos de retiro, percebo que o deserto sempre teve muito a me ensinar. Ele me chama para simplificar minha vida, tanto nos aspectos materiais, quanto da minha espiritualidade. Percebi mais profundamente o que Rolheiser chama de “as três frases” que deveriam estar em nosso vocabulário espiritual pessoal: Obrigado! Obrigado! Obrigado! Às vezes, porém, muitos de nós podemos achar difícil ser gratos.

No entanto, é a partir dessa postura de gratidão por tudo o que nosso Deus nos concedeu que Rolheiser oferece dez maneiras de simplificar nossa vida espiritual. Aqui estão elas em suas próprias palavras. Eu continuo a considerá-las úteis – e desafiadoras – para meu próprio caminho espiritual:

  • Viva com gratidão e agradeça ao seu Criador, desfrutando sua vida. “A verdadeira tarefa da vida é reconhecer isso, reconhecer que tudo é uma dádiva e que precisamos agradecer continuamente por todas as coisas que na vida consideramos garantidas, reconhecendo sempre que ninguém tem a obrigação de cuidar de nós. Nosso nível de maturidade e capacidade de gerar é sinônimo de nosso nível de gratidão – e as pessoas maduras aproveitam suas vidas.” E vê tudo o que receberam como presente, não direito.
  • Esteja disposto a carregar mais e mais complexidades da vida com empatia. “Somos maduros quando nossa própria inquietação não é mais o centro de nossas vidas.” O mundo não gira em torno de nós, mas em torno de todos nós.
  • Transforme o ciúme, a raiva, a amargura e o ódio em vez de devolvê-los na mesma medida. “Olhe para Maria nos Evangelhos. Ela é um paradigma nisso: ela para e reflete; ou seja, ela pode suportar a tensão ao invés de criar mais tensão.” De acordo com Rolheiser, em essência, foi o que Maria fez ao pé da cruz: “Ela não podia parar a crucificação (há momentos em que chega a hora da escuridão), porém podia impedir parte do ódio, amargura, ciúme, crueldade, e a raiva que a crucificação causava. E ela ajudou a deter essa amargura recusando-se a devolvê-la da mesma maneira, transformando-a, em vez de transmiti-la, engolindo em seco e (literalmente) engolindo a amargura em vez de devolvê-la, como todos estavam fazendo”. Como faço para transformar ciúme, raiva, amargura? Posso fazê-lo por meio da oração, do diálogo honesto e do acompanhamento com o outro.
  • Deixe que o sofrimento amoleça seu coração ao invés de endurecer sua alma. Na cruz, “Jesus teve de escolher: morro na amargura ou no amor? Eu morro na dureza de coração ou com uma alma amorosa? Eu morro no ressentimento ou perdoando? (…) Sabemos qual o caminho que Ele escolheu. Sua humilhação o levou até as profundezas, mas eram profundezas de empatia, amor e perdão. Diante de nossa aniquilação e morte terrenas, escolheremos deixar-nos levar e morrer com um coração frio ou preferimos fazê-lo com uma alma calorosa?”
  • Perdoe aqueles que lhe machucaram, seus próprios pecados, a injustiça de sua vida e a Deus por não haver lhe resgatado. “Talvez o verdadeiro perdão só possa ser de origem divina, a intervenção de uma graça especial dentro de nós. Há apenas um imperativo moral antes de morrermos: não morrer uma pessoa infeliz e amargurada.”
  • Abençoe mais e amaldiçoe menos! “Somos pessoas maduras quando nos definimos por aquilo que defendemos e não pelo que enfrentamos… a suprema glória da maturidade e do discipulado é a capacidade e a disposição de abençoar os demais, especialmente os jovens.”
  • Viva numa sobriedade mais radical. “A maturidade não significa que sejamos perfeitos ou irrepreensíveis, mas que sejamos honestos. A sobriedade, em última análise, não tem a ver com álcool ou alguma droga. É uma questão de honestidade e transparência.”
  • Reze de maneira afetiva e liturgicamente. “O combustível de que precisamos para obter recursos para nossa jornada na vida não está na força de nossa própria força de vontade, mas na graça e na comunidade. A maturidade e a capacidade de gerar não podem ser sustentadas apenas pela força de vontade. Precisamos de ajuda do além, e essa ajuda é encontrada na oração.” Esta “ajuda do além” também pode ser encontrada nos momentos de retiro, no acompanhamento espiritual e em quem pode nos oferecer apoio psicológico e orientação profissional.
  • Que seu abraço seja amplo! “Um verdadeiro coração católico tem lugar para todos.”
  • Fique onde você deveria estar e deixe Deus providenciar o resto. “Só podemos fazer o nosso melhor, qualquer que seja o nosso lugar na vida, onde quer que estejamos, quaisquer que sejam os nossos limites, quaisquer que sejam as nossas deficiências e confiar que isso é o suficiente, que se morrermos em nosso posto, honestos, cumprindo nosso dever, Deus fará o resto.”
Em muitos aspectos, esta foi a jornada espiritual que Marcelino viveu.

A gratidão encheu sua vida. Em algumas de suas correspondências e nas reminiscências de quem o conheceu bem, vemos Marcelino calmo, sereno, aberto, constante, orante e corajoso. Consciente de suas próprias limitações, ele era dotado de uma profunda inteligência no sentido prático e estava extremamente confiante em suas convicções. Marcelino sempre desejou que a qualidade que definiria seus “Pequenos Irmãos de Maria” fosse a simplicidade e, em muitos aspectos, essa qualidade caracterizou Marcelino. Para Marcelino, a simplicidade era a franqueza no relacionamento com os outros, o entusiasmo pelo trabalho que realizava e uma confiança descomplicada em Maria e em seu Deus. Ele compartilhou esta qualidade com seus Irmãos, que ele esperava que se tornassem como uma família, e para uma família prosperar, o perdão foi uma marca que ele deixou para seus Irmãos: “Que seja dito dos Pequenos Irmãos de Maria como foi dito dos primeiros cristãos: ‘Vejam como eles se amam!”

Por causa de sua simplicidade, Marcelino tinha um verdadeiro talento para as relações humanas; ele estava sempre disposto a carregar mais e mais complexidades da vida com empatia, especialmente enquanto ajudava a formar seus Irmãos. Seu bom senso e sua compaixão fizeram dele um confessor popular ao longo de sua vida. Ele foi capaz de se comunicar com eficácia e facilmente estabelecia empatia com os outros. No entanto, sabemos por nossa história marista que Marcelino não era um homem para escrever tratados espirituais, mas um homem de determinação e ação, um homem de coração e afeto. Sua ênfase estava no coração e nos relacionamentos – tanto com Deus, quanto com as pessoas. Foi e é a chave de nossa herança espiritual e de nossa pedagogia marista. Foi com esse coração e afeto pelos jovens da França rural e por aqueles que depois se dedicariam a ensinar que Marcelino conseguiu fazer o que muitos julgavam impossível. Essas qualidades de Marcelino – “seu caráter aberto, amigável e atencioso, sua afabilidade despretensiosa, uma franqueza e impressão de bondade” – permitiram-lhe fazer grandes coisas e viver uma vida simples, cheia de alegria e centrada no Evangelho de Jesus.

Os cristãos têm usado o período de penitência, que chamamos de Quaresma, para se preparar para o sofrimento, morte e ressurreição de Jesus na Páscoa. Durante a Quaresma, é tradicional jejuar, orar e praticar a abnegação. Mas guardar a Quaresma também envolve assumir coisas que nos ajudam a focar em Deus, em outras palavras, assumir aquelas coisas com as quais podemos nos “deleitar”. O autor, professor e pastor americano William Arthur Ward oferece o seguinte:

Jejuar – Festejar

• Jejue de julgar os outros; Banqueteie-se no Cristo habitando neles.

• Jejue da ênfase nas diferenças; Festeje na unidade da vida.

• Jejue da escuridão aparente; Festeje na realidade da luz.

• Jejue dos pensamentos de doença; Banqueteie-se com o poder de cura de Deus.

• Jejue das palavras que poluem; Delicie-se com frases que purificam.

• Jejue do descontentamento; Banqueteie-se com a gratidão.

• Jejue da raiva; Deleite-se com a paciência.

• Jejue  do pessimismo; Deleite-se com o otimismo.

• Jejue da preocupação; Festeje com a ordem divina.

• Jejue de reclamar; Deleite-se com a apreciação.

• Jejue da negatividade; Festeje com afirmativas.

• Jejue das pressões implacáveis; Festeje na oração incessante.

• Jejue da hostilidade; Banqueteie-se com a não resistência.

• Jejue do amargor; Festeje no perdão.

• Jejue da preocupação consigo mesmo; Banqueteie-se na compaixão pelos outros.

• Jejue da ansiedade pessoal; Festeje com a verdade eterna.

• Jejue do desânimo; Festeje na esperança.

• Jejue de fatos que deprimem; Banqueteie-se com verdades que elevam.

• Jejue da letargia; Festeje no entusiasmo.

• Jejue dos pensamentos que enfraquecem; Festeje com promessas que inspiram.

• Jejue das sombras de tristeza; Banqueteie-se à luz do sol da serenidade.

• Jejue da fofoca ociosa; Banqueteie-se com um silêncio proposital.

• Jejue de problemas que oprimem; Festeje na oração que fortalece.

Que esta Quaresma seja para nós um momento de recomeçar o caminho de simplificação da nossa vida para que possamos ser preenchidos com o amor que Deus tem por cada um de nós.


Ir. Ben Consigli – Conselheiro Geral

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