22 de setembro de 2015 LíBANO

De como o Ir. Miquel Cubeles se transferiu da Espanha para o Líbano

Um dos Irmãos que dirige o Projeto Fratelli – uma iniciativa intercongregacional que pretende ajudar a educar aos jovens refugiados como um investimento para seu futuro – publicou uma carta sobre a sua transferência para o Líbano.

A sua Província de origem, L’Hermitage, pediu-lhe que contara a sua história, que foi já publicada nos seus meios de comunicação.

Nessa carta, o Ir. Miquel Cubeles revela como, ao pedirem a ele que fosse para o Líbano, “do fundo do meu coração, brotou em seguida o sim”.


UM NOVO COMEÇO…

Há cinco dias cheguei no Líbano. Foi no dia 3 de setembro. Hoje, dia da Natividade de Maria, dedico um pouco do meu tempo para escrever algumas das coisas que aconteceram comigo e que vivi como autêntico chamado e, ao mesmo tempo, como dádiva de Deus.

O Ir. Emili nos convidou a viver a celebração do Bicentenário como “um novo começo” para nossa família marista e propôs três anos prévios como oportunidade para destacar algumas  atitudes que ele considera fundamentais: o Ano Montagne, para renovar nosso compromisso com as crianças e jovens mais necessitados; o Ano Fourvière, para crescer na fraternidade e na comunhão; e o Ano La Valla, para aprofundar e viver de maneira mais encarnada nossa espiritualidade.

Pessoalmente me senti muito interpelado por esse itinerário e vivi o Ano Montagne de maneira particularmente intensa. Ecoaram em mim as palavras do Papa Francisco que nos convida  a sair de nossa própria comodidade e de nos atrever a ir a todas as periferias. Também o lema da Páscoa de Les Avellanes 2015, “Com Cristo rumo às periferias “, atingiu meu coração de modo muito especial… Rezava e sentia esse chamado para mim e para a comunidade. Queria que a resposta do Ano Montagne fosse mais concreta, e isso aconteceu justamente quando alguém da administração me disse: “Há um jovem de dezoito anos com muitas dificuldades. Não sabemos quem pode acolhê-lo e acompanhá-lo, e pensamos em você… Entenderemos se disser que não, evidentemente, porque é um caso especial…”

A comunidade de irmãos o acolheu durante dois meses e meio. Hoje o jovem já sorri e leva uma vida normal. Dizia-me ele: ”Por que você me acolheu, com as informações que tinha sobre mim?” E lhe respondi: “Porque não as lemos”. Ele então me explicou: “Era isso de que precisava; alguém que me acolhesse e acreditasse em mim”. Foi um dos Montagne de nosso tempo pascal. 

Nessa mesma manhã de Páscoa entrei na página da web do Instituto, pois queria ler uma mensagem que me comovera e que era coerente com o lema “Com Cristo rumo às periferias”. Pensei que talvez  tivessem usado a mensagem de Les Avellanes. Mas foi a carta do Projeto Fratelli que apareceu na tela do meu computador. Li e fiquei impressionado. Que iniciativa ousada a dos nossos superiores de La Salle e dos Irmãos Maristas!  

“Criar em lugares de fronteira outros espaços onde possamos desenvolver a lógica evangélica do dom da fraternidade, da acolhida da diversidade e do amor mútuo… dar uma resposta rápida às crianças e jovens desabrigados, refugiados em outros países por causa da guerra e em situação de risco… começar a criar um espaço no Líbano para acolher…”.  Em nenhum momento pensei que eu pudesse me envolver nesse projeto, mas suscitava em mim uma grande alegria e um orgulho familiar por sua audácia.  E imediatamente decidi difundir a notícia. 

E alguns dias depois chegou uma carta do Ir. Emili: Montagne, a dança da missão. Que maneira, essa do Ir. Emili, de tocar o coração dos maristas convidando-nos a ser cúmplices do Espírito, maristas a caminho, uma presença evangelizadora entre as crianças e jovens em situação de vulnerabilidade, caminhar rumo a “um novo começo”, sendo místicos e profetas…! E a pergunta final: “Que você faria se não tivesse medo?”.

Não tive tempo de me fazer essa pergunta, pois o Ir. Emili dois dias depois me convidou para integrar o projeto Fratelli e,  do fundo do meu coração, brotou em seguida o “sim”. As formalidades e o diálogo com minha família me ocuparam apenas uns poucos dias, mas o “sim” da minha primeira profissão religiosa, e mais ainda, o “sim” do dia a dia, expandiram meu coração. Foi um “sim” de paz, sem muitas perguntas, sem questionar minhas qualidades ou dificuldades pessoais, nem minha idade… Dou graças à minha família e às pessoas que me apoiaram desde o primeiro momento.  

As dificuldades vão surgindo agora com tanta coisa para sonhar e fazer. Estou em Beirute desde o começo de setembro, com um jovem irmão mexicano de La Salle chamado Andrés. Tratamos de ser simplesmente irmãos em busca e a caminho para nos aproximar e viver com as crianças e jovens da Síria, Iraque, Armênia, Palestina… Estamos sintonizados, e onde não chegam ainda os projetos e as pedras, chega a confiança, a oração e o apoio fraterno. As comunidades do Líbano nos acolhem e acompanham nossos primeiros passos, mas o caminho nós mesmos precisamos ir construindo, junto com outras pessoas que nos hão de apoiar. As crianças, os jovens e suas famílias – ou, quem sabe, sem família – já estão aqui: mais de um milhão e meio de refugiados em um país pequeno que não chega a cinco milhões de habitantes. Nesses dias, tudo isso está coincidindo com o êxodo de outros tantos refugiados a caminho da Europa, batendo às suas portas. Certamente vocês serão generosos e criativos.

Deus saberá o que quer de cada um de nós, mas jamais chegaremos a entender porque essas coisas acontecem. Tenho claro que Deus me quer junto aos irmãos mais vulneráveis. Hoje Ele me trouxe ao Líbano e vivo isso como “um novo começo” em muitos sentidos: país, idioma, cultura, intercongregacionalidade… Todo um desafio e uma riqueza. Entretanto, entendo o autêntico novo começo como um estar mais aberto a Deus para ser mais instrumentos de seu amor, autênticos irmãos comprometidos com a justiça. 

Com toda humildade digo a vocês, sem citações demasiado formais, a partir de minha experiência vital. Maristas, leigos e irmãos, abrindo-nos à ação de Deus, abrindo caminho lá onde Deus quer que haja “um novo começo”. Obrigado, Jesus, por caminhar contigo nesse momento da minha vida.

Ir. Miquel Cubeles – 8 de setembro de 2015

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Projeto Fratelli é uma colaboração intercongregacional que envolve os Irmãos Maristas e os Irmãos de La Salle ao qual estão convidadas outras congregações. O projeto não se limita a operações no Oriente Médio e se espera que seja implementado em outros lugares onde crianças e jovens sofrem por causa de conflitos e são deslocados de suas próprias casas, são refugiados ou migrantes.

Os coordenadores no Líbano, Irmãos Andrés Porras, FSC, e Miquel Cubeles, FMS, trabalharão em sintonia com um comitê local e treinarão jovens refugiados para que invistam em si mesmos para o futuro dos seus países. 

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