VI Capítulo – 1873, Saint-Genis-Laval

08/1973 | 08/1876 – 40 Irmãos participantes

Desde o término da segunda sessão do V Capítulo geral, em agosto de 1868, até o início dos trabalhos do VI Capítulo geral, em agosto de 1873, o contexto social e político que influencia  diretamente a obra e o pensamento dos Irmãos maristas era fundamentalmente aquele que acontecia na França, e estava marcado pela luta contra os projetos escolares, por parte do radicalismo maçônico e pela atitude dos Irmãos na defesa da escola livre.
Este Capítulo, como os cinco primeiros celebrados no Instituto, é celebrado durante o mais longo pontificado da história, de 31 anos e meio, do Papa Pio IX (1846-1878), último soberano temporal dos Estados da Igreja.
No começo do século XIX, a sociedade havia tomado diferentes rumos, fruto do pensamento nascido na Revolução francesa, da progressiva aceleração industrial e das novas orientações do pensamento filosófico, político, econômico e social. O mundo começava a tornar-se pequeno e a caminhar, lentamente, em direção à unidade. A uma sociedade eminentemente agrária, sedentária e tradicional, sucedia uma sociedade industrial, mutável, desarraigada de suas tradições de grupo, de família ou de clã.
A Igreja católica, na Europa, vai perdendo pouco a pouco seu lugar na sociedade; seu poder político frente ao desenvolvimento de todo um pensamento racionalista, que questiona a fé. A Igreja se encontra desconcertada. De uma situação privilegiada, de uma influência determinante no pensamento e na vida social, passou bruscamente à perseguição, à marginalização e ao abandono. Por outra parte, em 1869, quando se reuniu o Concílio Vaticano I, o Papa tinha perdido os Estados Pontifícios, menos Roma.
A proposta de Pio IX (1846-1978), desde 1864, foi uma condenação de todo pensamento moderno, através de dois documentos: a encíclica “Quanta  cura” que condena o racionalismo, o galicismo, o socialismo e o liberalismo; o “Syllabus” que apresenta uma coleção ou lista dos erros modernos. A tensão entre a igreja e as mudanças do mundo, especialmente na Europa, vai criando um processo de antagonismos, cujas consequências serão devastadoras.
No dia 29 de junho de 1868, Pio IX estabeleceu, na bula “Aeterni Patris”, a data do início do Concílio Vaticano I para 8 de dezembro de 1869, na Basílica São Pedro.
A morte do Ir. João Batista provocou a convocação do VI Capítulo geral1 para proceder à eleição dos Irmãos Assistentes.2 O Capitulo reuniu-se em Saint-Genis-Laval. Em sua Circular de 24 de maio de 1873,3 o Irmão Luís Maria convida a realizar as eleições para o Capítulo geral a ser celebrado, de acordo com as Constituições, e enviou os nomes de todos os Irmãos estáveis, únicos elegíveis.
Este Capítulo foi realizado em suas sessões: a primeira começou no dia 11 de agosto de 1873 e terminou no dia15 de agosto. Mas nesta oportunidade, o próprio Capítulo decidiu reunir-se numa segunda sessão, a iniciar em 15 de agosto de 1876; a conclusão ocorreu no dia 25 do mesmo mês.
Contou com a presença dos Superiores maiores, mais 33 capitulares eleitos, sendo 9 da Província de Saint-Genis, 7 daquela de l’Hermitage, 8 da de Saint-Paul-Trois-Châteaux, 4 da Província de Labégude e 5 da do Norte, Oeste e Missões.
O Capítulo renovou o mandato dos Irmãos Assistentes em função: Theophane (Norte), Philogone (Labégude), Euthyme (Hermitage) e Félicité (Saint-Genis) 4. Foi eleito o Ir. Nestor, então visitador da Província de Saint-Paul, em substituição do Irmão Eubert, como Assistente da mesma Província, e o Irmão Procope, que não era membro do Capítulo, como Assistente da Província das Ilhas Britânicas, Oceania e África do Sul.5 A nomeação dos Irmãos Nestor e Procope, na primeira sessão, incrementou de 4 para 6 o número dos Irmãos Assistentes.
Ainda na primeira Sessão, o Capítulo votou, por aclamação, pela entrega de um estandarte ao Santuário de Nossa Senhora de Lourdes com a seguinte declaração: “Em reconhecimento dos inumeráveis favores que a Boa Mãe continua a conceder a toda a Congregação, para unir-se ao extraordinário movimento que leva as pessoas ao santuário de Nossa Senhora de Lourdes, e para responder ao convite do arcebispo de Viviers, … por proposta do Rev. Irmão Superior, o Capítulo vota por aclamação em favor da entrega de um estandarte a Nossa Senhora de Lourdes e encarrega o Ir. Eubert de levá-lo e entregá-lo, em nome do Instituto.”
Em seguida, tomou várias decisões relacionadas com a disciplina dos Irmãos: a invocação “Sancte Joseph, ora pro nobis” – São José, rogai por nós – depois da ave-maria que precede a meditação; o desejo de, em breve, ver desaparecido o uso do fumo e eliminados os livros inconvenientes das bibliotecas.
O Capítulo reconhece também a necessidade de criar uma escola especial superior com o objetivo de formar professores para o ensino das matérias optativas, em nossos principais internatos e em alguns externatos.6
Em 15 de agosto de 1873, por ocasião do encerramento da primeira sessão, foi feita a consagração do Instituto ao Sagrado Coração de Jesus e ao Coração Imaculado de Maria.
A segunda sessão iniciou no dia 15 de agosto de 1876 e foi concluída em 25 do mesmo mês. A Circular de 23 de outubro de 18787 oferece ampla informação.
O motivo para atrasar por três anos a segunda sessão foi – segundo escreve o Ir. Luís Maria – “nossa viagem a Roma, no mês de julho de 1875, e os diversos pedidos que depositamos aos pés de Sua Santidade, nessa circunstância”.8 No dia 8 de dezembro de 1875, se encaminhou ao Santo Padre, a confirmação da eleição, em 1873, do Ir. Procope, para a Província das Ilhas; a criação de uma nova Província e a escolha de um sétimo Assistente para dirigi-la, e mais um oitavo Assistente para cuidar da parte legal frente aos tribunais. O Santo Padre autorizou benignamente essas criações e as eleições de 28 de janeiro de 1876.9 Sua Santidade concedeu também, em 12 de maio de 1876, uma prorrogação de cinco anos das Constituições, ad experimentum.10
Na segunda sessão foi efetuada a eleição dos novos Irmãos Assistentes: o Irmão Avit, autor dos Anais, eleito por 36 votos sobre 40, para a nova Província Bourbonnais, e o Ir. Norbert, por 31 votos, para a Província do Norte, em substituição ao Ir. Theophane que fora substituir o Ir. Euthyme, renunciante ao cargo na Província de l’Hermitage. Dessa maneira, o número dos Irmãos Assistentes se elevou de 6 para 8.
 O Ir. Euthyme foi encarregado da parte legal e administrativa de todo o Instituto.11  “Teria a seu encargo as relações com o governo, no atinente ao serviço militar, às escolas públicas e particulares; com os prefeitos para o material escolar e o pagamento dos professores; com os Reitores das Academias para os exames em vista dos diplomas; com os bispos e párocos, para o ensino da religião e a educação das crianças”.12 A mesa do Irmão Luís Maria, Superior geral, nos anos anteriores à convocação do Capítulo, se cobrira de expedientes, recursos e procedimentos dos Irmãos relacionados com o serviço militar ou com as administrações públicas para garantir o lugar dos Irmãos nas escolas. A Circular de 3 de março de 186813 constitui uma amostra. Nela aparecem “as observações e instruções que pude recolher sobre a guarda nacional, criada por lei, em 1º de fevereiro de 1868”,14 escreve; listas de Irmãos dispensados do serviço militar, modelos para encaminhar a tramitação, etc. Sempre à espera que “uma nova portaria ministerial venha com novas prescrições”.15
As Assistências foram divididas assim:
Da Província de Saint-Genis-Laval, o Irmão Félicité: 4º Assistente;
Da Província de Notre-Dame de l’Hermitage, o Irmão Theophane: 1º Assistente;
Da Província de Saint-Paul-Trois-Chateaux, o Irmão Néstor: 5º Assistente;
Da Província de Aubenas, o Irmão Philogone: 2º Assistente;
Da Província de Beaucamps, incluída a ocidental: o Irmão Norbert: 8º Assistente;
Da Província de Bourbonnais,  o Irmão Avit: 7º Assistente;
Da Província das Ilhas Britânicas e Colônias, o Irmão Procope: 6º Assistente;
A parte legal e administrativa de toda a Congregação, o Irmão Euthyme: 3º Assistente.
O Irmão Eubert, que deixava de ser Assistente, foi nomeado Secretário geral, em lugar do Ir. Juste, que anteriormente havia cumprido essas funções, sem ter o título.16
Também foi necessário dividir a Província de Saint-Genis que contava com 1500 Irmãos, noviços e postulantes e, para isso, solicitou-se ao Santo Padre a criação de uma nova Província e de um novo Assistente.
A prorrogação das Constituições, por mais cinco anos, a título provisório, e a necessidade de fazer uma nova edição foi a ocasião para completar as Constituições aprovadas com os artigos introduzidos pelo Capítulo de 1862 e seguintes.
Nessa sessão, além das eleições, tratou-se do ‘Regulamento dos Ecônomos’ no qual se definem as atribuições dos irmãos Ecônomos, da administração do temporal, da vestimenta e da mobília. Definem-se as faculdades e funções de alguns irmãos com cargos: Procurador geral, Secretário geral, chefes de Distrito, vice-provincial (os futuros Irmãos Provinciais), os Mestres de noviços, Visitadores, Diretor ou Vigário provincial. Estabelece-se a obra do Óbolo de São Pedro, em nossas  escolas. A criação de três juvenatos: no Centro, no Sul e no Norte.
O Irmão Luís Maria, ao concluir o informe afirma: “Não, repito-o com profunda satisfação; não, não se pode estar mais satisfeito com tudo o que ocorreu durante essas duas sessões, nem pedir e desejar mais do que a perfeita união – que reinou, constantemente, na Assembleia – se mantenha e cresça em todas as casas da Congregação”.17



1 Nos Supérieurs, Economato Geral dos Irmãos Maristas, Saint-Genis-Laval, 1954. p. 240

2 Circulaires, T. 4, p. 448

3 Circulaires, T. 4, p. 423-428.

4 Chronologie, Roma 1976, p. 151

5 Com a maioria dos votos : 37 sobre 40. Circulaires, T. 4, p. 449)

6 Circulaires, T. 4, p. 453

7 Circulaires, T. 5, p. 351 e ss.

8 Circulaires, T. 5, p. 351

9 Ver Circulaires, T. 4, p. 352-358.

10 Fr. AVIT, Annales, caderno 7, p. 703 ; Circulaires, T. 4, p. 359.

11 Ibid., pp. 703-704.

12 Ir. Luis di Giusto, ‘Historia del Instituto de los Hermanos Maristas’, Província Marista Cruz del Sur, Argentina 2004. p. 100.

13 Circulaires, T. 3, p. 431-440.

14 Circulaires, T. 3, p. 431

15 Circulaires T. 3, p. 440.

16 Fr. AVIT, Annales, caderno 7, p. 679-680.

17 Circulaires. Vol. 5, p. 389.