20 de junho de 2010 CASA GERAL

Maria modelo de fé

Tomando como base o desenvolvimento da experiência da Igreja primitiva, von Balthasar fala de cinco princípios que constituem a estrutura fundamental da Igreja: o princípio petrino, o princípio paulino, joanino, jacobeu (de S. Tiago) e o princípio mariano, que compreende os anteriores.

O princípio petrino é o mais conhecido: relembra a figura de Pedro. A partir da leitura do Evangelho, dos Atos dos apóstolos e das cartas de S. Pedro, von Balthasar assinala a figura de Pedro, relacionando-a com a proclamação do querigma e com sua realização concreta na vida cristã. A continuidade da missão de Pedro tem a ver com o ‘Credo’ pregado de maneira ordenada, em todo o mundo, através do ministério pastoral.

O princípio paulino está vinculado ao caráter missionário de Paulo, o apóstolo dos gentios, aquele que se tornou cristão por pura graça, sem méritos nem obras, rompendo irremediavelmente com o passado. Podemos ver como a missão de Paulo continua na irrupção do alto, imprevista e sempre nova, dos novos carismas, na história da Igreja. É um princípio profético e celeste no qual estão implicados os grandes carismas missionários, as grandes conversões, as grandes visões derramadas sobre a Igreja, através de palavras ditadas pelo Espírito. Põe o acento na extensão e na estrutura vertical da Igreja. Os grandes carismas provêm da Jerusalém celeste e deles se dá testemunho com as palavras e com a vida. Sobre essa base manifesta-se a liberdade no Espírito Santo, apesar de a submissão a Pedro ser sinal da autenticidade das missões. A tradição paulina infunde na Igreja a visão e a certeza da salvação, através de sua dimensão carismática.

O princípio joanino é aquele em que von Balthasar vê refletida grande parte de sua obra. João é o discípulo predileto, o evangelista do mandamento novo. Von Balthasar considera a missão de João como uma missão de unidade que continua. Sintetiza os elementos petrinos e paulinos, combinando-os com uma visão contemplativa. Todos aqueles que vivem os conselhos evangélicos encarnam essa dimensão da Igreja e têm como missão o amor contemplativo: comunicam a mensagem de que com o amor tudo é possível.

O princípio jacobeu se baseia em São Tiago, irmão do Senhor, que parece ter ocupado o lugar de Pedro, quando esse deixou Jerusalém (Atos 12, 17). No Concílio dos apóstolos foi o promotor da moção decisiva para a reconciliação entre os cristãos judeus e gentios (Atos 15,13-21). Entretanto, representa, sobretudo, a continuidade entre a Antiga e a Nova Aliança, representa a Tradição, a legitimação da letra da lei contra um puro espiritualismo. É a dimensão da Igreja que afirma o sentido histórico das coisas, a continuidade, a Tradição, o direito canônico. Esse princípio é personificado naqueles que têm  a missão de lembrar-nos que é preciso estar ancorado na experiência primeira e que é importante voltar às origens da nossa história cristã, para encontrar nova luz que nos permita seguir avançando.

 O princípio mariano afirma que Maria é o modelo de fé para todos os membros da Igreja. Os fundamentos desse princípio se apoiam na lógica trinitária manifestada no inefável mistério de Deus, revelado em Cristo. “Ele nos deu a conhecer seus desígnios mais secretos, aqueles que havia decidido realizar em Cristo” (Ef 1,9), o que “havia decidido realizar na plenitude dos tempos’, o que outra coisa não é se não “recapitular em Cristo todas as coisas, as  do céu e as da terra” (Ef 1,10). Em todos os escritos de von Balthasar, Maria é uma explicação desse mistério de amor e é o modelo de nosso encontro com o mistério de Deus, revelado em Jesus Cristo.

Jesus, em sua vida, se rodeou de uma “constelação” humana composta por Maria, por Pedro, pelos apóstolos, pelas irmãs de Betânia, etc. Todos representam as várias missões da Igreja que se perpetuam em seu caminho histórico.

 “Pedro, na comunidade pascal e pentecostal, reconheceria, como os demais apóstolos, Maria como a Mãe do Senhor por sua docilidade à graça e por sua resposta à vontade de Deus. Enquanto Maria, acompanhando a Igreja nascente, veria em Pedro o discípulo a quem seu Filho entregara as chaves do Reino dos céus. Para Maria, Pedro é o ponto de referência, no qual “se faz unidade” até o fim. Para Pedro, no entanto, a referência é Maria, porque ela, além de Mãe, é o “devenir”(futuro) de toda a Igreja. Nenhum dos dois se equivoca”.1

A característica que Maria traz é que Ela é “protótipo” da Igreja, “modelo” seu, desde o começo de sua missão, isto é, desde o acontecimento da Anunciação. “Maria precede a todos os outros e, naturalmente, ao próprio Pedro e aos apóstolos”2. “O perfil mariano é anterior ao petrino… e é mais elevado e proeminente, mais rico em implicações pessoais e comunitárias”3. O princípio mariano é, em vários aspectos, mais fundamental do que o princípio petrino. Isso significa que crer é mais importante do que desempenhar um ministério na Igreja.

Essa novidade mariológica está fundamentada na doutrina do Concílio Vaticano II e é uma das contribuições mais significativas para a renovação da Igreja. No documento conciliar ‘Lumen Gentium’, a Igreja, através da voz dos padres conciliares, “se propõe a declarar com maior precisão, a seus fiéis e a todo o mundo, sua natureza e sua missão”. No mencionado documento, a Igreja é descrita como “Povo de Deus” (9) ou “multidão congregada na unidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (4). No capítulo VIII do mesmo documento, dedicado integralmente a Maria, esta é proclamada “membro supereminente e absolutamente singular” (53), “protótipo e modelo acabado, na fé e na caridade” (53), dessa multidão de crentes que constitui a Igreja.

Quando o capítulo VIII da ‘Lumen Gentium’ afirma que Maria é “protótipo” e “modelo” da Igreja, significa que ela é o modelo de cada um dos membros que constituem a “multidão de crentes”. O “sim” de Maria a Deus é o ato de amor perfeito que a humanidade já deu a Deus. A vida da Igreja continua e atualiza o “sim” de Maria a Deus, e “se manifesta, sobretudo, na santidade do amor e na vida evangélica do crente”4. Para a cristandade o encontro com o Mistério do amor implica na conversão ao amor.

A explicação da estrutura organizativa da Igreja é descrita pelo princípio petrino que fundamenta a unidade institucional. A relação de Pedro com Jesus, no início da comunidade eclesial, na fundação da Igreja, manifesta o desejo de Jesus de que Pedro seja aquele que preside na caridade e seja o centro da união de todos.

“O perfil petrino é vivido hoje pelo Papa e pelo colégio apostólico, com a ajuda dos presbíteros e diáconos, dóceis à ação do Espírito, que dirige através deles, a nau da Igreja” 5.

A explicação da essência da Igreja destaca o princípio mariano o qual descreve os fundamentos que sustentam a santidade de Igreja.

O perfil mariano é vivido por todos os fieis, todos os carismas, todos os profetas, todo o amor que se derrama no mundo, quando se vive a Palavra, sem subtrações nem compromissos, e quando se deixa atuar o Espírito que move os corações dos fiéis. Não se trata de dois polos em tensão, de dois aspectos a serem equilibrados, ou de duas realidades dialéticas. Não; são dois rostos concretos que se querem, servem e se necessitam; que se olham no único olhar do Senhor, que deu a vida por eles, e pelo qual também eles estão dispostos a dar a vida. O mundo tenta arrancá-los da Igreja para que seja mais um estrutura de poder, sem Maria; ou para que seja uma corrente de entusiasmo à deriva, sem Pedro. Mas nenhum dos dois será infiel”.6

A relação de Maria com Jesus, nos inícios da comunidade, manifesta que Maria realiza o ato de comunhão mais perfeito com os planos de Jesus, ao aceitar cumprir sua vontade. O “sim” de Maria constitui uma Aliança. Este é o motivo por que podemos falar de “rosto mariano” referindo-nos aos carismas e à santidade da Igreja.

As ressonâncias que tem a função de Maria, assim compreendida, na vida da Igreja, são numerosas: ela é o modelo de vida para o cristão; ela é o protótipo que a mulher pode contemplar para encontrar o lugar que lhe corresponde na Igreja; é o “modelo” dos movimentos eclesiais. Maria é, além disso, o caminho que conduz ao ecumenismo e ao diálogo inter-religioso; é aquela que pode fazer com que o cristianismo supere o risco imperceptível de tornar-se inumano e que a Igreja supere o perigo de se tornar uma função, sem alma.

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