24 de março de 2012 ESPANHA

O eneagrama das paixões

O Irmão Lluís Serra Llansana, da Província de l’Hermitage, colabora, faz anos, nos programas de formação do Escorial, dando seminários de conhecimento pessoal, através do eneagrama, tema sobre o qual apresentou, há seis anos, uma tese doutoral na Universidade Ramon Llull, de Barcelona, onde desenvolveu atividades diretivas e docentes. Acaba de publicar o livro “El eneagrama de las pasiones. Anatomía psicológica de las pasiones dominantes”, ao qual deverá seguir outro: “El eneagrama de las relaciones”.
Abaixo você encontra uma entrevista com o autor do livro, realizada pelo Ir. Alberto Ricica.

 

O que oferece o eneagrama para a formação pessoal dos Irmãos e Leigos?

Lluis Integração e fundamento. Sem uma base psicológica, pode haver muito autoengano. Santa Teresa de Jesus intuiu-o com clareza: “Considero que um dia de humilde conhecimento de si, ainda que nos tenha custado numerosas aflições e trabalhos, é uma graça do Senhor maior do que numerosos dias de oração.” Mas não basta. É preciso abrir-se a Deus e à espiritualidade. Sem a integração desses elementos, há confusão.

No livro, falas de paixões…

Valho-me da tradição dos monges, iniciada por Evagrio Póntico e João Cassiano, à luz dos novos progressos na psicologia. As paixões são as respostas emocionais do ‘ego’, que se transformam em ira, orgulho, vaidade, inveja, avareza, medo, gula, luxúria, preguiça. Atitudes muito (auto) destrutivas.

Fazes referência aos pecados capitais?

Em linguagem moral, sim.Meu objetivo é abordar o substrato psicológico dos pecados capitais, que no livro chamo de paixões dominantes. Faço uma ponte entre psicologia e moral. Sem consciência psicológica não pode haver autêntica consciência moral. Pode-se proibir, mas não se forma. Acompanhar e propor: tarefa muito importante para os educadores.

Falar de “paixões” aos jovens de hoje se torna talvez “delicado” ou antiquado.

Minha experiência me revela o contrário. Apaixona-os o autoconhecimento. Ensinamos-lhes a observar o mundo exterior e não basta. A tecnologia os fascina, mas o mundo interior é incrível. Dante, na Divina Comédia, não vai sozinho, é acompanhado amorosamente numa viagem de iniciação, que não admite retorno. Aqui entramos no núcleo da educação. Como em Matrix, trata-se de tomar a pastilha vermelha para entrar na verdade sobre si mesmo.

Como se pode lutar contra as paixões?

É preciso despertar e ser consciente para abrir-se à via interior. Agimos mecanicamente, temos comportamentos compulsivos, não descobrimos a verdade sobre nós mesmos, mostramo-nos incapazes de amar (nos) e perdemos a nossa liberdade. Para desativar um explosivo, é preciso ver primeiro como foi montado. É preciso aprofundar nossas formas de pensar, de sentir, e sobre nossos instintos… É todo um trabalho.

O eneagrama, serve para isso?

Vem a ser como um GPS: pode orientar-te, mas tu manejas o volante e decides. As paixões dominantes explicam com clareza o que se passa no mundo atual. Sem a avareza não se teria produzido a crise econômica e financeira que provoca tanto sofrimento, especialmente para as classes pobres. O culto à imagem e ao êxito, próprio da vaidade, impede-nos de viver em profundidade e converte-nos em escravos da aparência.

As paixões não têm conotações negativas?

Sim, sem dúvida. São expressões do ‘ego’ que tanto nos prejudica. Dar-nos conta disso e desativá-las dispõe-nos à virtude, à essência, ao amor, o que todos buscamos.

Deu algum curso a um corpo de professores? Qual foi o resultado?

Coloco sempre uma condição. Os participantes podem ser convidados, mas nunca obrigados. Em poucos dias de convivência, conheceram-se melhor entre si, do que em anos de trabalho conjunto. Abandonam-se as relações superficiais e começa uma dinâmica construtiva e sincera.

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