29 de abril de 2013 SíRIA

Os «Maristas Azuis»

Depois de 30 de março, os fatos se sucederam rapidamente na nossa cidade de Alepo. Com efeito, às 3h30 da manhã de Sexta-feira Santa de 2013, eu recebi a primeira chamada telefônica anunciando que o bairro de Djabal al Saydé começa a ser invadido pelos  rebeldes que gritam e vociferam, intimando as pessoas a permanecer no interior de seus  apartamentos. A ameaça foi real ou foi bem uma incursão esporádica sem nenhum efeito sobre o bairro?  Pouco a pouco, as notícias anunciavam uma verdadeira invasão do bairro, as lojas são sacadas, os carros roubados ou quebrados. As rajadas paralisaram as pessoas e as obrigaram a se refugiar debaixo da escadaria. Grandes e pequenos choravam. O pavor foi instalado! As perguntas saíam espontâneas: Pode-se sair? Que fazer? Uma verdadeira angústia! Um verdadeiro drama se deslumbra.

Com o passar das horas, os combates geram raiva, as casas são «visitadas» por elementos armados, a eletricidade é cortada, a água também… As famílias se imaginam que é uma questão de horas, elas esperam, aguardam, mas nada muda! Bem au contrário, a evidência é completamente outra. Os homens armados até os dentes se instalam… A noite cai. As pessoas espiam o menor ruído, o menor grito, o menor berro…As pessoas  não dormem, velam, rezam, esperam o socorro do céu… Ele é seu último recurso…

Sábado Santo, na madrugada, os imóveis começam a se esvaziar, os habitantes os deixam. Eles levam consigo o estrito necessário: alguns documentos importantes, um pouco de roupa, algumas economias que restam, e nada mais… O êxodo começa, um povo errante em busca de uma possível saída do inferno… Eles partem, ainda estava escuro… Uma  família perde o contato com dois de seus filhos pequenos que deviam estar com os vizinhos mas eles não estão…Uma outra família procura com todos os meios ajudar os idosos que não conseguiam caminhar. Os vizinhos se conversam, põem-se de acordo para caminhar juntos, protegidos pelo seu destino. As ruas estão vazias, as luzes apagadas. As pessoas lançam um último olhar para seu apartamento, seu interior, sobre toda uma história, todo um sonho, toda uma vida. Elas queriam que esse instante se eternizasse. E antes de fechar a porta, as pessoas fazem o sinal da cruz como para dizer ao Senhor «Entre tuas mãos, nós nos entregamos». A porta foi fechada à chave, dando duas voltas na fechadura; a porta foi celada com um olhar de esperança. Mas é preciso agir rapidamente! Senão, a morte pode surgir a qualquer instante… Um povo caminha, um povo erra, um povo se desloca…Ele é forçado a esvaziar o bairro, o lugar de sua vida  torna-se um cemitério de lembranças, pode se tornar um amontoado de pedras… As pessoas não tiveram tempo para olhar uma última vez a sacada da casa onde está estendido um lençol que ainda não secou! Uma só ideia na cabeça: é preciso fugir do inferno, o mais cedo possível, e não importa a que preço… Nenhum carro pode circular. É preciso caminhar, caminhar, caminhar… Os minutos tornam-se uma eternidade… A página foi virada ! Tudo está consumado!

Sábado, pelas 9h00, os mais rápidos entre os habitantes do bairro Djabal el Saydeh chegam à zona segura: alguns batem à porta de algum parente e outros tomam o caminho de nossa comunidade Marista, único lugar de acolhida…Os Maristas Azuis estão lá… Eles acolhem, escutam, não cessam de repetir: «Hamdellah  ‘al salameh» «rendamos  graças à Deus por vossa segurança».

As 300 famílias cristãs e tantas outras famílias do bairro, foram abandonadas nas mãos  do homens armados… Nós também, os maristas, nós não podemos mais voltar ao nosso local, no bairro. Uma inquietação surge em nós: o que é feito das famílias muçulmanas desalojadas que se encontravam nas escolas? Nada de resposta…

A comunidade marista torna-se um centro de informação, recuperação de dados: As pessoas perguntam por informações de alguma família ou de uma pessoa idosa…Na verdade algumas famílias permaneceram no bairro…

A última família que deixou o bairro dia  3 de abril descreveu assim seu êxodo: todos os seus membros e inclusive a avó de idade avançada passaram por buracos que os homens armados fizeram nas paredes das casas… Ela nos contou o horror de permanecer no inferno da guerra, do pavor e do terror…

Diversas famílias vêm pedir roupas, colchões, cobertores, travesseiros, lençóis, sabão… Nós os acolhemos, os acompanhamos e atendemos às suas necessidades…

Os espaços vazios da comunidade são todos preenchidos… Nós decidimos liberar os dois espaços dos escoteiros e de construir 4 duchas e 4 toaletes…

Com a Caritas e os responsáveis de Sallet el Djabal, nós organizamos uma celebração  eucarística, seguida de uma distribuição de dinheiro e de boas compras de roupas íntimas e roupas novas. A maioria das famílias participam da Eucaristia, comungam, rezam e  acompanham  o coral da paróquia… O que acontecerá com as duas Igrejas do bairro? 

Sallet el Djabal, a cesta de donativos alimentares que nós distribuimos mensalmente depois de agosto de 2012, estará pronta dentro de uma semana… As pessoas têm necessidades dela…

Terça-feira de Páscoa, uma surpresa, Ghalia, a mãe de 7 filhos dos quais o mais velho tem 9 anos e que estava numa das escolas, veio até nós… Ela procurou se reunir a nós… Nós a acolhemos…  Alguns dias mais tarde, uma outra família chega com 11 filhos… Todos serão alojados e acolhidos…

Nós compramos uma máquina de lavar roupa, acrescentamos 4 reservatórios  aos que existiam até o momento, compramos roupas, roupas íntimas, pantufas, travesseiros, colchões…

O projeto «Aprender a crescer» também é transferido… Ele volta ao local da comunidade… As crianças chegam numerosas… Elas têm necessidade de espaço, elas têm necessidade de desenhar, de jogar, de se encontrar…

Nós instalamos um consultório médico… Tem consulta diária… Os medicamentos são gratuitos…

 

E o que dizer do amanhã?

Todas as famílias de «Djabal al Saydé» fizeram essa pergunta… Nós a devolvemos a elas… Nós não nos cansamos de repetir que elas estão nas mãos de Deus. Pode-se esperar uma possível volta ao bairro? Pode-se sonhar?  Muitas vozes anunciam o fim próximo da  guerra, mas algumas vozes dizem que estas esperanças são em vão…É verdade que o provisório dura? E se este provisório se tornar uma situação definitiva?

Para nós Maristas Azuis, nós teremos sempre a mão estendida para viver uma solidariedade evangélica, uma solidariedade que anuncia e testemunha o amor de Deus  para com todo homem e toda mulher… Juntos nós procuraremos construir uma paz, a paz de uma manhã de Páscoa.

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Ir. Georges Sabe – 21 de Abril de 2013
Pelos Maristas Azuis

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