2 de maio de 2017 ITáLIA

Projeto Lavalla200>

O Ir. Brendan Geary, Provincial da Europa Centro-Oeste, visitou a comunidade Lavalla200>, em Siracusa, no início de março, junto com a senhora Moira Macfarlane. Ela trabalhou durante mais de 10 anos como cônsul do Reino Unido em Florença e continua em contatos com a cidade toscana. Tendo voltado à Escócia, Moira escreveu um artigo sobre sua visita à comunidade da Sicilia.

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Um profundo silêncio se fez no hall de um elegante hotel em Bolonha. Pratos e copos foram deixados de lado quanto os hóspedes e garçons pararam horrorizados diante da televisão. Um barco que levava mais de cem migrantes afundou no Mediterrâneo. Não havia sobreviventes e mais da metade dos passageiros eram crianças. Todo mundo no hotel sentiu imediatamente a necessidade de fazer alguma coisa – escrever aos políticos ou doar uma ajuda às organizações humanitárias. Talvez assim fizeram. Depois disso, nos anos seguintes, chocantes naufrágios, expressões de falta de humanidade entre as pessoas têm pedido nossas respostas. Dificilmente acontece passar um dia sem que vejamos imagens na mídia de crianças fora das casas aterrorizadas com bombardeamentos, famílias viajando no meio da neve, buscando refúgio na Europa, moças sendo raptadas, gente amontoadas como bois dentro de barcos que afundam. “Que miséria”, dizemos enquanto levamos adiante nossa rotina. “Alguém precisa fazer alguma coisa contra isso”.

Os Irmãos Maristas fizeram alguma coisa. O Projeto Lavala200>, marcando o Bicentenário do Instituto, foi proposto para dar apoio às crianças e jovens vivendo em circunstâncias precárias no mundo. Uma nova comunidade foi fundada em um antigo orfanato em Siracusa, oferecendo apoio a menores não acompanhados que abandonaram zonas de guerra. A comunidade é formada pelo Ir. Onorino Rota e dois leigos, Gabriel Bernardo da Silva e Mario Araya, que deixaram momentaneamente de lado carreiras profissionais para se dedicarem dois ou mais anos ao Projeto Lavalla200>.

Tive o privilégio de passar 4 dias com a comunidade, com o Provincial Brendan Geary. Esses dias tiveram um profundo impacto, reacendendo a primeira resposta escutada tanto tempo atrás, no hotel de Bolonha. Os membros da comunidade contribuem com forças diferentes e contemporâneas para o Projeto. Em poucos meses já demonstraram grande sensibilidade, estabelecendo contatos criativos com as autoridades civis, agências humanitárias, autoridades eclesiásticas, ordens religiosas envolvidas no apoio aos jovens refugiados, identificando qual a melhor maneira de ajudar dentro do quadro já existente.

Muitos dos menores não acompanhados são traumatizados, depois de terem vivido viagens compridas e perigosas que culminaram em meses sujeitos a toda tipo de abuso imaginável, nas mãos de traficantes na Líbia, antes de serem forçados a embarcar em barcos que os levaram à Sicília. Eles viram coisas que crianças nunca deveriam ver. Não têm família, nenhum bem e nenhuma identidade oficialmente reconhecida. Estão de luto pela perda de pessoas amadas, acossados por pesadelos do passado, assustados e incertos sobre o futuro. E, sobretudo, têm terror de terem rejeitado o pedido de asilo e serem mandados de volta para o inferno que viveram na Líbia.

Enquanto esperam por decisões oficiais por parte das autoridades italianas sobre o seu estado – um processo que pode levar 18 meses – precisam de apoio, cuidado e compreensão. Para prepará-los à vida na Europa Ocidental, eles têm muitas carências de aprendizado. Alguns não sabem ler e escrever, outros sabem, mas somente em árabe. Apenas alguns conhecem um pouco de francês e inglês, além da própria língua. Poucos conhecem alguma coisa sobre a cultura e tradição europeias. Todos têm carências de aprendizado, mas não podem entrar normalmente no processo acadêmico clássico, pois não daria resultado. A exigência é dar uma resposta baseada no momento, trabalhando ao lado deles e esse é o âmbito da missão da comunidade marista.

A comunidade se está dedicando ao trabalho na Casa Freedom, um centro para 90 adolescentes. A primeira coisa que uma visita percebe, na chegada, é a alegria e a confiança que os jovens têm com os membros da comunidade. Através da participação nas atividades e a ajuda no aprendizado os membros da comunidade criaram uma oportunidade para os jovens se abrirem a questões que não poderiam enfrentar em contextos formais.

A comunidade se dedica também ao trabalho pastoral com a população da paróquia. Dessa maneira podem ajudar os cristãos locais a entrar em contato com os jovens migrantes, ajudando-lhes a ter acesso a serviços básicos.

A base da comunidade na Casa Caritas é também o lar de um pequeno número de jovens, migrantes não acompanhados que encontraram trabalho, mas ainda precisam ser ajudados com hospedagem.
A grande força da Comunidade Marista em Siracusa é que não chegou com um programa fixo, pré-estabelecido, mas dedicou tempo para descobrir o contexto, cooperar com outras instituições e, principalmente, acompanhar invés de dirigir os jovens que encontra. Os maristas ganharam a confiança dos adolescentes, que têm boas razões para confiar neles.

O Projeto Lavalla200> em Siracusa é desafiador e exige grande sabedoria, sensibilidade e paciência. Nos quatro dias que passei com a comunidade, vi todas essas qualidades e desejo a eles todo o bem, enquanto desenvolvem essa missão vital. Foi um grande privilégio passar esse tempo com pessoas assim e ver um pouco do trabalho deles. Como todo privilégio, isso pede uma resposta construtiva.
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Moira Macfarlane, março de 2017

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