Biografia do Ir. Francisco, em episódios

Ir. Francisco, primeiro Superior-Geral do Instituto Marista

Ir. Francisco

A partir de 24 de março de 2021, aparece em Notícias Maristas, 60 episódios com a biografia do Ir. Francisco, primeiro Superior-Geral do Instituto, formado por São Marcelino Champagnat e que fez a primeira síntese da Espiritualidade Marista. Sua causa de beatificação foi introduzida em Roma e aguarda um sinal para seguir em frente.

No final de seu trabalho como superior, o Irmão Francisco disse: “Para ser superior tive 20 anos de preparação e durante 20 anos fui superior. Terei outros 20 anos como reparação?” Por isso foi escolhido o número 60, 60 pequenos textos, como “cápsulas”, uma biografia em parcelas para conhecer o Irmão Francisco…

1 . Nascimento e Família

Gabriel Rivat (Ir. Francisco) nasceu no sábado, 12 de março de 1808, na aldeia de Maisonnettes, perto de La Valla-en-Gier (França). Maisonnettes é um vilarejo de cerca de 50 habitantes. La Valla era então um centro agrícola, cercado por florestas, com alguns artesãos, principalmente fabricadores de tamancos (sapatos).
Seu pai, Jean-Baptiste, nasceu em 12 de junho de 1762 e morreu em 18 de setembro de 1827, aos 65 anos de idade. Sua mãe, Françoise Boiron, nasceu em 5 de setembro de 1765 e morreu em 15 de dezembro de 1844, aos 79 anos de idade. Eles se casaram em 1789. Tiveram sete filhos: Jeanne-Marie, nascida em 1790; Jean-Claude, em 1791; Jean-Antoine, em 1793; Antoinette, em 1796; Jeanne, em 1798; Jean-Marie, em 1805 e Gabriel, em 1808.
A pequena propriedade da família tinha um estábulo, talvez com meia dúzia de vacas, e algumas ovelhas, cabras e porcos.  Embora não tivessem abundância, nunca passaram fome.
Era uma família cristã, onde o rosário era rezado diariamente. O jejum e a penitência de preceito também eram observados. As pessoas que batiam na porta para pedir comida ou água eram atendidas. A missa e a catequese eram frequentadas semanalmente. Gabriel foi batizado no dia seguinte ao seu nascimento.

2 . Guerras Napoleônicas

Quando Gabriel Rivat nasceu, Napoleão detinha o Papa Pio VII em cativeiro e mantinha inúmeras guerras por toda a Europa.
Após os anos da Revolução, o recrutamento militar não mobilizou mais de um jovem entre 15 recrutas em campo, mas a partir de 1810 os alistamentos complementares se aceleraram.
Em 1811, seu irmão Jean-Claude foi mobilizado e quando, em dezembro de 1812, o desastre na Rússia foi anunciado, ele só teve que se resignar à partida de outro de seus irmãos: Jean-Antoine, porque o imperador queria resistir a todo custo.
Aos 3 anos, Gabriel viu Jean-Claude partir em meio às lágrimas de toda a família: “Por que meu irmão mais velho está indo embora?”. Agora, aos 5 anos, a cena se repete: “Para onde vai meu irmão Jean-Antoine?” E sem dúvida lhe respondem: “Reze muito pelos seus irmãos. A sua oração será a mais escutadas pela Santíssima Virgem”.

3 . Consagração a Maria e a devoção de sua Mãe
Consacración Francisco Maria

O Irmão Francisco aprendeu a devoção a Maria na família. Em sua casa o rosário era rezado diariamente.
Quando completou cinco anos, acompanhou a mãe em peregrinação a Valfleury, então importante centro mariano. Sua antiga imagem foi salva dos iconoclastas revolucionários. Com certeza eles fizeram os 20 km de caminho a pé.
A mãe pediu que seus filhos voltassem da guerra logo e saudáveis. Para o conseguir, prometeu um quadro para a igreja paroquial e consagrou o seu filho pequeno ao serviço da Virgem. Era sábado, 14 de agosto de 1813.
Um ano depois, Napoleão é forçado a abdicar e vai para o exílio na Ilha de Elba. Jean-Claude e Jean-Antoine, irmãos de Gabriel, podem voltar para sua família. Nesse tempo, Jean-Antoine decidiu: será sacerdote e irá para o seminário.
No final do ano de 1815, a Sra. Rivat conseguiu colocar o quadro prometido na igreja paroquial. É uma imagem de Nossa Senhora do Rosário, com São Domingos e Santa Catarina de Sena. Ela também fará todo o possível para tornar seu filho Gabriel um fervoroso apóstolo do rosário.

4. Novo Vigário em La Valla

Seguindo o costume, o menino Gabriel Rivat começou a ajudar no trabalho na fazenda aos sete anos de idade. Ele foi encarregado de cuidar das ovelhas e dos cordeiros. A vida pelo campo logo desenvolveu nele o gosto pela botânica, a reflexão e a contemplação. No verão de 1816, chega uma novidade a sua paróquia: chegará um jovem vigário, ordenado em 22 de julho. Era um padre dinâmico e chegou alguns dias antes de 15 de agosto. Seu nome era Champagnat. Ele vem de Marlhes. Ele surpreendeu a todos por sua altura: 1’79 m, o que o colocava, naquela época, entre as pessoas excepcionalmente altas. Também cantava bem e pregava com facilidade. Mais tarde, alguns notariam que seu francês não era muito bom, mas entre os colonos, quem notaria isso? Vindo de Marlhes, é provável que teve que passar por Maisonnettes e então, já nesse momento poderia ter encontrado por acaso a família Rivat. Na festa de 15 de agosto, certamente foi ele quem fez o sermão, já que o pároco, o Pe. Rebod, é um pouco gago e certamente ficou feliz em lhe dar seu lugar. Champagnat conhece os costumes do lugar. Durante os meses de verão não havia atividades paroquiais, mas no início do outono havia algumas coisas práticas para fazer, especialmente catequese e preparação para a Primeira Comunhão. O novo padre também tem outro projeto. Com outros seminaristas de sua classe, eles decidiram fundar uma nova família religiosa dedicada a Maria. Ele é responsável por um de seus ramos, o dos Irmãos, sob o nome de Maristas, para catequizar e instruir as crianças do campo.

5. O Catecismo de Champagnat

O jovem Vigário Champagnat se preocupou especialmente com o catecismo. Ele via nos jovens a esperança da Igreja. Na festa de todos os santos, em 1816, ele anuncia o início das atividades. Jean-Marie, o terceiro dos filhos de Rivat, tinha então 11 anos de idade. Ele não podia perder esta oportunidade de formação, que já devia ter sido iniciada pelo coadjutor anterior. Após algumas semanas, o Pe. Champagnat quis aumentar a participação das crianças que frequentavam o catecismo: “Se você me trouxer um vizinho ou um primo seu, eu lhe darei um santinho”. Jean-Marie, diante do apelo diz: “posso trazer meu irmãozinho, mas ele tem apenas 8 anos”. “Pode trazê-lo”, respondeu Champagnat “Veremos se ele pode fazer a Primeira Comunhão antes dos outros”. E durante dois anos, Gabriel acompanhou com dedicação o catecismo.
Seguindo aos princípios sulpicianos, aprendidos no seminário, Champagnat ensinou o catecismo diante de dois grupos de ouvintes: meninos de um lado e meninas do outro. Gabriel certamente prestou muita atenção no ensinamento do Pe. Champagnat e se esforçou para memorizar as orações. Como ele já sabia ler, logo conheceria de cor o catecismo, como era exigido na época. Certamente, este foi o primeiro encontro de Gabriel Rivat com Marcelino Champagnat.

6. Primeira Comunhão

O jovem Gabriel progrediu rapidamente no estudo do catecismo. O Vigário Champagnat não hesitou em admiti-lo na primeira comunhão, celebrada em 19 de abril de 1818, quarto domingo depois da Páscoa. Gabriel tinha acabado de fazer dez anos. Ficará com a lembrança dessa festa, graças a uma estampa que chamou de seu “grande tesouro”. É uma imagem clássica, representa um cálice e uma hóstia adorada por anjos. Debaixo da mesa que contém o cálice, o cordeiro é visto deitado sobre a cruz. Esse ato, no contexto cultural da França rural do século XIX, não tem somente um significado religioso, mas marcava publicamente o fim da infância.
O Irmão Francisco continuará crescendo no amor pela Eucaristia e, no final da sua vida, se dizia que, quando ele regressava da Comunhão, tinha no rosto um sorriso extraordinário.
Tempos mais tarde, ele vai expressar: “Aquele que conheceu Jesus Cristo… não pode mais prestar atenção no que ele gosta ou não gosta… já não pensa mais em outra coisa senão em permanecer unido a Ele”.

7. Entrada na Comunidade de La Valla, aulas de latim

O jovem vigário Champagnat alugou uma casa onde reuniu vários jovens para se tornarem “irmãos”. A sociedade de La Valla se perguntava o que seriam “irmãos”, já que naquela época podiam ser sacristãos, cantores, ajudantes da igreja ou catequistas. Embora o vigário também falasse de catequistas-educadores. A partir de 2 de janeiro de 1817, Jean-Marie Granjon e Jean-Baptiste Audras viviam na casa alugada.
Por volta de março de 1818, Gabriel começou a frequentar a casa dos “irmãos” para receber algumas aulas de latim do Padre Champagnat.
Em maio de 1818, mudou-se para morar com os irmãos como pensionista. Mais tarde, ele escreveu no início de seu diário: “Dado por minha mãe a Maria, aos pés do altar da Capela do Rosário, na igreja de La Valla, deixei o mundo na quarta-feira, 6 de maio de 1818”. A partir de então, Gabriel era menos filho de Françoise, e mais da Virgem Maria.
Três meses depois, em 3 de agosto de 1818, Gabriel Rivat recebeu o sacramento da confirmação em Saint-Chamond, na igreja de São Pedro, das mãos de Monsenhor Étienne-Martin Morel de Mons, bispo de Mende (Lozère) e administrador de Viviers (Ardèche). Além de seus estudos, Francisco ajudará como monitor nas aulas da escola La Valla.

8. Na casa do vigário

Francisco já vivia na casa do Padre Champagnat, junto com cinco jovens que queriam se tornar irmãos: Jean-Marie, Jean-Baptiste (futuro Irmão Louis), Jean-Claude (futuro Irmão Laurent), Antoine e Barthélémy.

Gabriel Rivat teve que trabalhar muito. Sendo pensionista e estudante de latim, provavelmente dedicou mais tempo ao trabalho intelectual do que ao trabalho manual.  Provou ter inteligência e uma excelente memória. O Padre Champagnat dedicava diariamente algum tempo à formação de seus irmãos: lições de leitura, escrita, aritmética e latim.

Gabriel dedicou-se às inevitáveis tarefas domésticas: varrer, limpar, cuidar do jardim, descascar, lavar pratos, e muito possivelmente forjar grandes pregos para os carpinteiros. Segundo o testemunho de um ex-aluno, Gabriel, enquanto trabalhava, cantava alguns versos de hinos, de acordo com o costume das casas de trabalho da época.

O jovem Francisco também participava diariamente da Eucaristia, da oração comunitária e da formação espiritual dada pelo Padre Champagnat.

Não sabemos o que aconteceu no coração de Gabriel durante aquele ano, mas em algum momento o projeto de estudar latim para se tornar padre mudou e ele começou a sonhar em ser um irmão dedicado à educação de crianças.

9. Formação para professor en La Valla

O Vigário, Pe. Champagnat, sempre esteve muito preocupado com a formação de seus Irmãos. No início ele mesmo os ensinou e também ao jovem Gabriel Rivat. Para o ano escolar de 1818-1819 conseguiu um professor, um antigo Irmão das Escolas Cristãs, para se encarregar da escola paroquial e da formação intelectual dos “Irmãos”. Seu nome era Claude Maisonneuve.

Maisonneuve ficou encarregado da instrução dos alunos e os irmãos e postulantes o ajudavam.

Enquanto isso, os irmãos aprendiam o método simultâneo ou o método dos Irmãos, um método educacional que consistia em reunir, na mesma sala, alunos de todos os níveis, divididos de acordo com o assunto (leitura, escrita e aritmética) e seu nível. Caso houvesse um grande número de alunos, outra sala semelhante era criada. O professor, de uma posição elevada, ensinava sucessivamente as diferentes seções de sua sala de aula, com a ajuda de monitores, e usando um conjunto de sinais, muitos deles feitos com um dispositivo de som.

Dessa forma, durante todo o inverno de 1818-1819, a casinha de La Valla funcionou como uma verdadeira escola para professores, com sua escola de prática anexa.

10. A Promessa

Gabriel Rivat aprendeu rapidamente o método educacional dos Irmãos. Aos poucos, afastou-se da ideia de se formar para ser padre e se sintonizou com o ideal que o Padre Champagnat transmitia a seus irmãos, de ser educador cristão de crianças e jovens pobres.

Na quarta-feira, 8 de setembro de 1819, Gabriel Rivat vestiu o traje distintivo dos “Irmãozinhos de Maria”: calça preta, casaco, gola e cartola, e ajoelhou-se diante da comunidade dos Irmãos de Maria.

Ajoelhado diante da comunidade reunida, ele assinou uma promessa de consagrar-se a Deus por cinco anos, de trabalhar incessantemente pela prática de todas as virtudes para sua santificação pessoal e para a educação cristã das crianças da roça. Ele se comprometeu a buscar somente a glória de Deus, a honra de Maria e o bem da Igreja Católica, a ensinar gratuitamente as crianças necessitadas apresentadas pelos párocos, a obedecer sem questionar seus superiores, a manter a castidade e a colocar tudo em comum. A partir dessa data, Gabriel Rival tornou-se Irmão Francisco, tomando o nome de sua mãe. Tinha apenas 11 anos de idade. Ele será o sexto Irmão e o mais jovem dos discípulos de Champagnat.

Logo a comunidade dos Irmãos passou das funções catequísticas e caritativas para o trabalho nas escolas paroquiais ou comunitárias, adaptando o método pedagógico dos Irmãos das Escolas Cristãs ao meio rural. Trata-se de uma comunidade carismática, com um propósito universal e não apenas uma obra paroquial. Foi durante esses anos que o Irmão Francisco estabeleceu se firmou como discípulo e servidor de um projeto missionário coletivo ao qual dedicaria toda a sua vida.

11. Professor

O Irmão Francisco (Gabriel Rivat) começou a dar aulas em La Valla quando tinha 12 anos de idade. Como era muito pequeno para ver todos os seus alunos, costumava subir sobre uma pedra, de onde ensinava. Ao mesmo tempo, ele cozinhava para a comunidade e para os alunos em regime de pensionato. De tarde, ensinava leitura, catecismo e orações para aqueles que precisavam de recuperação.

Em 1821, o Irmão Francisco deixou La Valla para ir, como cozinheiro, à escola de Marlhes (Loire) e, ao mesmo tempo, para continuar lecionando para uma classe da tarde. As salas de aula em Marlhes eram pequenas, úmidas e mal ventiladas, razão pela qual a escola foi fechada dois anos mais tarde.

Foi aqui que, um dia, Francisco conheceu o Padre Préher, pároco de Tarentaise (Loire), ex-formador de Jean-Antoine Rivat (irmão de Gabriel Rivat), que estava procurando candidatos para o seminário.  Dirigindo-se ao Irmão Francisco, ele o convidou a retomar seus estudos de latim e a deixar sua cozinha para abraçar a vida clerical. No final da conversa, tendo Francisco rejeitado o convide, P. Préher quis saber a razão. Francisco, então, respondeu-lhe: “Não faço minha própria vontade, mas a de Deus, que me é revelada por meio do meu superior”.

Da cozinha, em Marlhes, o Irmão Francisco foi para Vanosc (Ardèche), para se encarregar de classes da primária. A escola tinha acabado de ser inaugurada, em 1823, com o apoio do Conde de Vogüé.

12. Diretor do colégio

Cedo, o Ir. Francisco se torna diretor de um colégio. Durante o verão de 1824, ele retornou a La Valla para ajudar na construção da grande casa, l’Hermitage: um servente improvisado. Gastava seu tempo movendo pedras e ajudando a mexer a argamassa. Enquanto trabalhava, ouvia alguma leitura piedosa ou recitavam o rosário. No final do verão, não mais voltou para Vanosc, mas foi, junto co o Ir. Pilarion, para o vilarejo de Boulieu-les-Annonay, responsável pela classe sénior e, portanto, responsável pela escola.

Em 1825, chegaram muitas notícias em Boulieu, onde trabalhava o Ir. Francisco: dois dos padres que com o Pe. Champagnat se comprometeram a fundar a “Sociedade de Maria”, Pe. Courvelle e Pe. Terraillon, mudaram-se para a nova casa de l’Hermitage; a aprovação do projeto dos Irmãos pelo Arcebispo, que lhes daria seu nome de “Pequenos Irmãos de Maria”; e também a fundação de outras congregações de ensino, como os Irmãos de Saint-Paul-Trois-Chateaux.

13. A crise de 1826

Este período foram tempos difíceis para seu amigo, Pe. Champagnat, e também para a pequena obra em que estava implicado o Ir. Francisco, pois tiveram que superar a oposição às novas congregações de Irmãos tanto do governo quanto do arcebispado. Além disso, Champagnat teve dificuldades com o Pe. J. C. Courveille, que se considerava o fundador e superior de todos os “Maristas”, Padres, Irmãs e Irmãos.

Em janeiro de 1826, Francisco recebeu uma carta do Padre Courveille pedindo orações porque Champagnat estava doente: a construção do Hermitage, as dificuldades, as dívidas e o cansaço de uma viagem haviam minado sua saúde. Assim escrevia: “Queridos filhos em Jesus e Maria, com tristeza de coração e grande amargura, escrevemos para pedir que rezem insistentemente ao Pai de misericórdia e à nossa grande Mãe, a divina Maria, por nosso querido e amado filho Padre Champagnat, seu querido e venerável padre diretor, que está gravemente doente. Peço a vocês, meus filhos muito queridos, que se unam a nós em oração insistente para pedir ao divino Jesus e à divina Maria, nossa Mãe, que guardem para nós um filho que nos é tão querido, e para vocês um pai que não deve ser menos querido por vocês. Peçam aos padres que sejam suficientemente bons para rezar por ele e recomendar a intenção aos fiéis. Estejam certos da ternura paternal com que tenho a honra de ser vosso dedicado Pai e que sou todo vosso em Cristo Jesus e em Maria”.

14. Profissão perpétua

Durante o retiro no verão de 1826, Francisco teve notícia de tudo o que acontecera em l’Hermitage e que de lá não ousaram enviar por escrito: a recuperação do Pe. Champagnat, as intrigas entre o Pe. Terraillon e o Pe. Courveille, as medidas tomadas pelo Irmão Stanislau para pagar as dívidas do Pe. Champagnat. Ele também tomou conhecimento do infeliz escândalo causado pelo Pe. Courveille entre os formandos, sua expulsão da casa e sua entrada em “La Trappe” e a nomeação do Padre Terraillon como Missionário.

Durante o retiro, tomou a decisão de reafirmar sua consagração a Deus. Depois de ter rezado e meditado, Francisco decidiu ser um Irmão Marista para toda a vida. Assim escreveu em seu diário: “Ser morno seria para mim a mais amarga das reprovações”. Francisco, assim, fez parte do primeiro grupo de irmãos professos do Instituto.

Na quarta-feira, 11 de outubro de 1826, com 18 anos, o Irmão Francisco professou, após a comunhão, em segredo, seus votos perpétuos de pobreza, obediência e castidade.

Após a cerimônia, o Pe. Champagnat não pôde deixar de lhe dizer, ao abraçá-lo: “meu filho, tenho inveja da tua felicidade!”.

O seu percurso como professor terminou naquele momento. Marcelino lhe pedirá que fique em l’Hermitage para ajudá-lo. Tornou-se, assim o secretário de Champagnat, enfermeiro da casa e formador, entre outras ocupações.

Quase todo o resto de sua vida passa em l’Hermitage a serviço direto do Fundador, servindo como mestre de noviços, secretário, enfermeiro: um papel para o qual ele se preparou estudando medicina. É certamente durante este período que adquire uma grande cultura autodidata, religiosa e secular, da qual seus numerosos cadernos de anotações são uma manifestação.

15. Mestre de noviços e secretário

Em l’Hermitage, a partir de 1826, embora tivesse apenas dezenove anos de idade, tornou-se responsável das aulas do noviciado. Ele dava aulas duas vezes por dia: uma hora e meia de manhã e uma hora e meia à tarde.

Ao mesmo tempo, o Ir. Francisco se tornou o confidente do Padre Champagnat. Ele o substituiu na direção do Instituto nascente durante suas visitas às comunidades e, em 1836, quando Champagnat vai a Paris para obter o reconhecimento legal do Instituto, um reconhecimento que não obteve.

Outro exemplo da confiança que o Padre Champagnat tinha em Francisco se dá quando se tornou necessário colocar por escrito as regras e costumes da comunidade; Champagnat pediu ao Ir. Francisco que o fizesse. Além disso, quando foi concluída, Francisco a apresentou ao Fundador para sua aprovação. O Fundador, após examiná-la cuidadosamente, julgou que seria melhor dividi-la em duas partes distintas: uma contendo todos os artigos da Regra e a outra indicando a maneira de observá-los sobrenaturalmente ou o espírito da Regra. Humildemente, o Irmão Francisco começou a trabalhar nessa tarefa.

16. Estudos e cuidados com os Enfermos

O Irmão Francisco aproveitou o tempo para a sua autoformação. Ele aperfeiçoou a caligrafia, gramática, aritmética e até mesmo a farmacologia. Ele nos deixará muitos cadernos com suas anotações sobre cada um desses temas e sobre religião e espiritualidade.

Em 1831, ele seguiu com os melhores resultados o curso de matemática e geometria que o Irmão Louis-Marie, seu futuro sucessor à frente do Instituto, acabara de abrir.

O Irmão Francisco tinha verdadeira aptidão para o cuidado dos enfermos e para a fabricação de medicamentos à base de plantas que ele mesmo cultivava e colhia. Ele dedicava tempo para conversar com cada doente, aconselhava-o, rezava com cada um e preparava um bom remédio para eles, muitas vezes obtendo curas inesperadas. Alguns dos remédios darão origem a um famoso licor chamado Arquibuse.

Entre as anotações e resumos encontram-se fragmentos de vidas de santos que levam seu nome: São Francisco de Assis, São Francisco de Sales, São Francisco Xavier e São Francisco Régis, a quem ele admirava, o primeiro por sua humildade, o segundo por sua alegria, o terceiro pelo zelo pela salvação das almas e o quarto pelo amor a Deus.

17. Sociedade de Maria e as missões

Em 1835, foram tomadas medidas para a autorização da “Sociedade de Maria” pelas autoridades eclesiais de Roma. O Ir. Francisco pensava que os padres e irmãos maristas fizessem parte da mesma sociedade. Roma aprovou apenas o ramo dos Padres e confiou-lhes as missões da Oceania, território desconhecido até poucos anos antes.

Seu amigo e guia, Padre Champagnat, fará os votos no dia 24 de setembro de 1836, no primeiro grupo de profissão dos Padres Maristas. Os Padres elegeram o Pe. Jean-Claude Colin Superior Geral.

Em outubro de 1836, Monsenhor Pompallier, bispo recém-consagrado, abençoou a nova capela de L’Hermitage. Em dezembro deste mesmo ano, partiram para a Polinésia o bispo Pompallier, os padres Chanel, Batallion, Bret e Servant, junto com os Irmãos Marie-Nizier (Delorme), Michel (Colombon) e Joseph-Xavier (Luzy), que deram à luz a Polinésia.

18. Eleição como “Diretor Geral”

Depois de sua estada em Paris, as forças de Marcelino Champagnat diminuíram. Os médicos de hoje, ao verem os sintomas, pensariam em câncer de estômago, mas isso não se falava em 1839. A saúde de Marcelino Champagnat se debilitou a ponto de começar a pensar em sua sucessão.

Padre Colin, como superior da Sociedade de Maria, propôs a eleição que aconteceu no sábado, 12 de outubro, durante o retiro de 1839. Foram eleitores os 92 irmãos professos perpétuos que haviam naquele momento. O Irmão Francisco obteve 87 votos, o Irmão Louis-Marie 70 e o Irmão Jean-Baptiste 57.

Naquela noite, o novo Superior e seus Assistentes ficaram encarregados de servir as mesas.

Francisco naquela noite escreverá no seu diário: “Que farei eu, que reconheço claramente que não tenho a força do corpo e a saúde, e muito menos a do espírito e da virtude? A vontade de Deus foi manifestada; eu resigno-me a isso com a doce confiança de que Aquele que com uma mão me impõe este fardo, com a outra saberá suportar o seu peso … Terei que temperar, em todos os momentos, firmeza com doçura, severidade com misericórdia. Terei que encorajar, fortalecer, alertar, corrigir … Oh, quão grandes são essas obrigações! Como são difíceis!”

Alguns dias depois, completará:

“Meu Deus, concede-me, pela tua graça, tornar-me Irmão Superior segundo o teu coração, dedicado a todas as minhas funções, ocupado apenas na minha posição, gemendo sob o peso da minha tarefa, levando-a com coragem, tendo que prestar contas dela, olhando só a ti, buscando só a ti, esperando só em ti, temendo só a ti. Dá-me colaboradores zelosos, manda bons trabalhadores para a tua vinha, para a tua colheita. Concede-me o discernimento para escolhê-los, a piedade para formá-los, a prudência para ocupá-los, vigilância e bondade para governá-los. Abençoa-os, encha-os do teu espírito e que sejam sempre aplicados em seu ministério.

19. Testamento Espiritual

Muito rápido teve que deixar de contar com o Fundador, porque no início de 1840 ele teve que se afastar e logo ele só poderia oferecer seus terríveis sofrimentos.

O Fundador, por sua vez, colocará em ordem os assuntos materiais da Congregação, criando uma Sociedade civil, e então deixará que os Irmãos Francisco e Luis Maria façam o seu trabalho.

Em 11 de maio de 1840, o Padre Champagnat recebeu os últimos sacramentos, fez suas recomendações aos Irmãos e, na semana seguinte, colocou-se de acordo com o Irmão Francisco e o Irmão Luis Maria para que concluíssem seu testamento espiritual. Este testamento foi apresentado em 18 de maio para toda a comunidade, e nele se lê:

… “Desejo que reine sempre entre os Irmãos de Maria uma obediência total e perfeita; que os súditos, vendo nos Superiores a pessoa de Jesus Cristo, os obedeçam de coração e espírito, e renunciem sempre, se necessário, à própria vontade e juízo ”…

… “que a caridade reine sempre entre vós. Amai uns aos outros como Cristo vos tem amado”…

… “Do mesmo modo que vossa vontade deve coincidir com a dos Padres da Sociedade de Maria na obediência a um Superior Geral único, é meu desejo que vossos corações e sentimentos se unam sempre em Jesus e Maria”…

“Peço também ao Senhor e desejo com toda a minha alma que persevereis fielmente no santo exercício da presença de Deus, alma de oração, meditação e todas as virtudes. Que a humildade e a simplicidade constituam sempre o caráter distintivo dos Pequenos Irmãos de Maria. Ela é a primeira Superiora de toda a Sociedade.”

…. “Deixo-vos com confiança nos Sagrados Corações de Jesus e de Maria, até que tenhamos a alegria de nos vermos juntos na bem-aventurança eterna”.

20. Morte de Champagnat

Marcelino Champagnat faleceu no dia 6 de junho de 1840, de madrugada. O Irmão Francisco foi o responsável pela organização do funeral e pela comunicação da notícia a todas as comunidades de Irmãos. Na circular, o Irmão Francisco recorda que “a morte pôs fim a uma vida penitente, laboriosa e cheia de obras de zelo e devoção, pelos sofrimentos de uma longa e cruel enfermidade”. Mas acrescenta: “será mais eficaz e poderoso como nosso protetor no céu, com a divina Maria, a quem nos deu tudo na sua morte… Agora cabe-nos recolher e seguir cuidadosamente as suas últimas e comoventes instruções”.

Em seguida, indicou os sufrágios para o descanso da alma do falecido e anunciou que um pintor veio para reproduzir seu retrato, prometendo uma cópia a cada comunidade.

Ele também deu duas normas: ler o Testamento Espiritual todos os meses e celebrar uma missa solene no dia 6 de junho de cada ano, para lembrar a vida e os ensinamentos do Fundador.

Pouco depois, ele escreveu em seus cadernos: “É necessário que cada Congregação conserve o espírito de seu Fundador para o bem que Deus se propôs ao inspirá-la”.

Sete meses depois, em 20 de fevereiro de 1841, quando l’Hermitage recebeu o retrato do Padre Champagnat, ele escreveu em seu diário: “Recepção do retrato do Padre Champagnat. Ser sua imagem viva”.

21. Situação do Instituto no início da direção do Irmão Francisco

Quando o Irmão Francisco assumiu a direção do Instituto, começou uma época de grande crescimento e expansão.

Assim, em 1840, o Instituto que o Irmão Francisco recebeu tinha: uma Casa Mãe, L’Hermitage; um noviciado: L’Hermitage; um primeiro conjunto das Regras, elaboradas em 1837.

O Instituto era formado por 280 Irmãos e 48 escolas, que atendiam a 7.000 alunos.

A congregação estava presente na região de Lyon e no norte da França; além disso, alguns Irmãos trabalhavam nas missões da Oceania.

Naquele tempo, Marcelino havia mantido comunicação com os Irmãos de Saint-Paul-Trois-Châteaux, dirigido pelo Padre Mazelier, para apoiarem-se mutualmente, pois sua congregação tinha reconhecimento legal, apesar de ter poucos Irmãos, e os maristas não tinha reconhecimento legal, mesmo tendo muitos Irmãos.

Quando o Irmão Francisco entregou o Instituto ao seu sucessor, o Instituto passou de 2080 a mais de 2.000 Irmãos.

22. Devoção ao P. Champagnat

O Irmão Francisco foi, ao mesmo tempo, fiel e criativo. Sabia que era superior geral de uma congregação em expansão, porém ao mesmo tempo, discípulo de Marcelino Champagnat. Francisco enfrentou muitos desafios, entre eles: a autorização legal do Instituto e o reconhecimento eclesial, a separação do ramo dos Irmãos de Sociedade de Maria, a união com várias congregações.

Foi um homem de estruturas sólidas, sob seu comendo foram redigidas as Regras Comuns e as Regras de Governo. Na busca de atender ao Espírito e aos sinais dos tempos, será um homem da Regra. Ao receber a pintura póstuma do Fundador, Francisco decidiu ser “o retrato vivo de Marcelino”. Como Champagnat, sabia conservar o essencial e renovar, depois de muitas consultas e oração, o que era necessário. Desse modo, ganhou a estima dos Irmãos.

Francisco foi um grande promotor da devoção que os Irmãos tinham ao Fundador: “Dirija-se ao Padre Champagnat. Você verá como tudo se resolverá com o seu Recurso Ordinário, a Santíssima Virgem”, ele dizia aos Irmãos.

O retiro de 8 de setembro de 1840 foi um grande memorial a Marcelino; L’Hermitage foi convertida em um santuário marista, relicário do Fundador. Um ano maios tarde, por meio desta circular datada de 10 de agosto de 1841, o Ir. Francisco pediu aos Irmãos lhe enviassem testemunhos, cartas e apontamentos sobre o fundador, para que sirvam de material para sua primeira biografia.

23. O problema da autorização legal

Um problema que existiu desde o tempo de Marcelino Champagnat foi a autorização legal e eclesial do Instituto. Quando Marcelino faleceu, o Instituto estava reconhecido pelos bispos das dioceses onde ele estava presente e pelos municípios. Porém não estava pelo governo francês nem pela cúria Romana.      

A falta de reconhecimento legal trazia vários problemas:  a dificuldade para crescer, ao estar limitado a uma região; a impossibilidade de dispensar seus membros do serviço militar; a necessidade de apresentar um exame público para exercer o magistério e um maior custo dos impostos e direitos a pagar quando um Irmão falecia e havia feito o testamento em favor do Instituto.

A falta de reconhecimento eclesial representava uma falta de identidade, a nascente congregação era uma terceira ordem ligada à Sociedade de Maria (Padres Maristas) ou é uma congregação religiosa independente e autônoma.

De todos esses problemas, o principal e mais urgente era resolver o problema do serviço militar dos jovens irmãos. É preciso lembrar que em um país em constantes guerras, o serviço militar durava pelo menos 6 anos e representava uma ausência prolongada do Instituto para qualquer vocação medianamente confirmada.

Em uma congregação reconhecida, seus membros eram dispensados ​​do serviço militar com uma certificação de seu superior. Ele indicava que o interessado estava nomeado para uma escola e isso era suficiente. Como os irmãos maristas não estavam reconhecidos, se algum dos irmãos era chamado, tinha que se apresentar ou apresentar um substituto, o que na época da morte de Marcelino representava pagar a alguém uns 6.000 francos, ou seja, 15 vezes o salário anual de um Irmão.      

Desde o tempo do fundador, notou-se que a solução de pagar um substituto era aniquilante, e ele contatou o Pe. Mazelier, superior de uma congregação de irmãos professores reconhecidos, mas sem membros, para aceitar temporariamente alguns dos irmãos chamados a se apresentar para o serviço militar. Também se sabia que o governo não queria reconhecer nenhuma das novas congregações.

24. União dos Irmãos de Saint-Paulo e de Viviers    

O contato entre os Irmãos Maristas e os Irmãos da Instrução Cristã de Valence, conhecidos como os Irmãos de Saint-Paul-Trois-Châteaux, dirigidos pelo Padre Mazelier, foi se estreitando. Lembremo-nos de que essa pequena Congregação havia recebido, em tempos mais favoráveis, o reconhecimento legal do governo francês. Essa situação a colocava ao abrigo do serviço militar, que então durava seis, sete ou oito anos. Os Irmãos Maristas puderam se beneficiar desse privilégio, indo dar aulas nas escolas do Padre Mazelier, quando chegava o momento de seu serviço militar. Agora, apresentava-se a ocasião de realizar uma união total entre os dois grupos.

Os Irmãos de Saint-Paul eram uns quarenta. Haviam fundado os seguintes estabelecimentos:    Châteuneuf-d’lsère, Le Puy-Saint-Martin, Saint-André-de-Roquepertuis, Saint-Paul-les-Romans, Montelier, Rochegude, Barjac, Rivière, Séhon-Saint-Henri, Saint-Paul-Trois-Châteaux, Eyragues, Courthézon, Tulette y Chaumont.

O acordo de união foi assinado em 1842, e incluía a união com um mesmo superior geral, o Padre Colin, e com o diretor geral, o Irmãos Francisco; a criação de províncias autogovernadas; conservar o noviciado em Saint-Paul-Trois-Châteaux, e que a nova sociedade levaria o nome de Irmão de Maria da Instrução Cristã.

Em 1844, os Irmãos Maristas realizaram a união com os Irmãos da Instrução Cristã de Viviers em termos semelhantes aos celebrados com os Irmãos de Saint-Paul. A partir desse momento, pode-se dizer que os membros da nova congregação teriam uma área de apostolado ampliada pelos departamentos de Drôme, Isère, Hautes-Alpes, Ardèche, Haute-Loire e la Loire e poderiam evitar, mais ou pelo menos legalmente, os 6-8 anos de serviço militar.

25. Primeira síntese da Espiritualidade Marista (Circular sobre a Fé)

Na comunicação do Irmão Francisco com todo o Instituto, destacam-se as Circulares. Nelas são abordados os mais diversos temas, desde notícias familiares, falecidos, instruções, aspectos de disciplina e felicitações. Uma das mais importantes é a circular Sobre o Espírito de Fé, escrita entre 1848 e 1853, e publicada em quatro seções. Nela é apresentada a primeira síntese da espiritualidade da jovem congregação.

“É ser cristão e viver como cristão, isto é, pensar, falar e agir de acordo com o Evangelho e de acordo com o Evangelho”.

Como Jesus, “amemos o que ele amou, valorizemos o que ele valorizou, desprezemos o que ele desprezou e ajamos como ele agiu”.

“Como professores religiosos em primeiro lugar, somos responsáveis ​​por nosso estado de ensinar as verdades da fé aos nossos alunos, para fazê-los conhecer e amar a Jesus Cristo, visto que queremos torná-los bons cristãos”.

“O conhecimento e o ensino da religião sempre serão a meta e o fim de todos os nossos estudos e de todas as nossas aulas, pois devemos aprender e ensinar as ciências profanas apenas para podermos divulgar, com mais autoridade e frutos, a ciência da religião”.

“Acrescentemos, o espírito dos Pequenos Irmãos de Maria: o seu carácter distintivo deve ser um espírito de humildade e simplicidade, que os leve, a exemplo da Virgem Santíssima, sua mãe e modelo, a ter uma predileção particular pela vida oculta, pelos trabalhos humildes, pelos lugares e classes mais pobres, que os conduza a fazer o bem em todos os lugares, sem barulho e sem brilho, que os acaricia com uma educação modesta e menor, porém sólida e religiosa”.

“Os meios são quatro: a leitura assídua e a meditação da palavra de Deus, o espírito de oração, a comunhão frequente e o exercício sagrado da presença de Deus”.

26. Autorização Legal do Instituto

As dificuldades decorrentes da falta de reconhecimento legal do Instituto já foram apresentadas. (Veja números 23 e 24). O Irmão Francisco assumiu este processo que o Padre Champagnat não havia conseguido realizar. Ao longo de seu generalato, o Irmão Francisco se preocupará em obter tal aprovação. Carlos Luis Bonaparte assumiu o poder em 1848. Então, o Superior Geral encarregou-se do processo para obter o reconhecimento jurídico do Instituto.

O Irmão Francisco foi a Paris fazer os trâmites. As negociações foram longas e dolorosas. Ele teve que passar vários meses em Paris para fazer contato com as pessoas cujo apoio era necessário. Tinham que ser resolvidas questões legais como se tratava da aprovação de uma ordem religiosa ou uma associação de utilidade pública e se para aprová-la era necessária uma lei ou um decreto real. Finalmente, o decreto foi assinado pelo Príncipe-Presidente Carlos Luis Bonaparte em 20 de junho de 1851. Foi uma vitória brilhante para o Instituto e para o Irmão Francisco.

Este decreto é o grande êxito do generalato do Irmão Francisco, que triunfa onde o P. Champagnat havia fracassado, “apesar de múltiplas tentativas”. A chegada deste decreto “pôs fim a dezessete anos de esforços, negativas e decepções”. E chega nas melhores condições possíveis. O decreto reconhecia: o caráter religioso da associação; a sua existência civil como entidade de utilidade pública e a sua autorização para se expandir pela França, com todos os direitos civis.

27. Estátua de Nossa Senhora das Vitórias

Para agradecer a autorização legal do Instituto, o Irmão Francisco encomendou a compra de duas estátuas e colocou-as no pátio de L’Hermitage. A primeira é uma estátua de Nossa Senhora das Vitórias. Convidou assim o Instituto recordar esta graça e a renovar a sua gratidão à Boa Mãe. Ele faz o mesmo com uma estátua de São José, a quem o Instituto havia rezado pedindo autorização. Hoje, a estátua de Maria está no pátio externo de L’Hermitage; e a de São José, no pátio central da Casa.

28. Capítulo de 1852

Entre 1852 e 1854 aconteceu um Capítulo Geral, uma reunião de delegados de todos os cantos do Instituto para tomar decisões importantes, como refletir sobre os apelos de Deus para o Instituto e renovar os quadros do governo. Para ser eleito para este capítulo, era necessário que o Irmão tivesse um quarto voto, denominado de “voto de estabilidade”.

O capítulo teve três sessões: na primeira foi reelaborada a Regra, na segunda foi preparado e aprovado o “Guia das Escolas”, e na terceira, elaboração das Constituições e Regras de governo. Neste Capítulo acontecerá a visita de três importantes personalidades: do Padre Colin, superior da Sociedade de Maria; do Padre Mazelier, ex-superior dos irmãos de Saint-Paul; e da Condessa de Grandville.

O P. Mazelier pediu que fossem cumpridos os compromissos do contrato de união com os Irmãos de Saint-Paul, especialmente o relativo ao nome e à divisão em províncias.

A Condessa de Grandville foi uma grande benfeitora que ajudou na fundação e no desenvolvimento de várias obras.

Mais importante foi a visita do Pe. Colin, mas a ela dedicaremos o próximo número.

Nota: O voto de estabilidade ainda pode ser emitido pelos irmãos, mas agora não é mais exigido como um requisito para algumas funções ou designações.

29. A separação dos Padres Maristas

O problema da identidade do Instituto e do reconhecimento eclesial estava pendente quando Marcelino morreu, pensando e acreditando que os Irmãos Maristas eram um dos quatro ramos da Sociedade de Maria. Em 1936 os Padres Maristas foram aprovados e eles foram recomendadas as missões na Oceania (Polinésia). Porém, essa aprovação não dizia nada sobre as Irmãs e os Irmãos Maristas.

Surgiu, então, uma discussão sobre se os Padres e Irmãos formam uma mesma Sociedade. Ao mesmo tempo, perguntava-se se os Irmãos Maristas eram uma parte da terceira ordem marista ou constituíam uma congregação religiosa independente.

Entre 1852 e 1854 aconteceu o Capítulo geral, durante o qual estiveram presentes 33 irmãos representantes de todas as Províncias. Na última sessão, o Padre Colin, Superior geral dos Padres Maristas, informou que Roma havia recusado a união das duas Congregações sob a direção de um mesmo Superior geral. Assim, o Ir. Francisco assumiu o título de Superior geral. Neste Capítulo, e sob sua direção e de seus assistentes, o Capítulo elaborou os principais textos legislativos: Regras Comuns (1852), Guia da Escolas (1853) e Regras de governo (1854).

30. Manual de Piedade e Vida de Marcelino

A reflexão sobre uma espiritualidade própria do Instituto continuava. Já foi falado (ver #25) da circular sobre a fé, escrita pelo Irmão Francisco. Com a aprovação legal para a França e a separação dos Padres Maristas, passou-se, então, a refletir sobre os aspectos próprios que caracterizam a identidade. Dois textos foram editados para responder a questão sobre a identidade e a espiritualidade própria dos Irmãos Maristas.

Em 1855 foi publicado o Manual de Piedade, que é, ao mesmo tempo, um catecismo para a formação dos noviços e uma antologia de orações comuns. Neste livro, o Irmão Francisco teve uma grande participação.

Em 1856 foi publicada a vida de José Bento Marcelino Champagnat, texto escrito pelo Ir. Luís Maria, assistente geral no tempo do Ir. Francisco. Este texto, motivado e revisado pelo Ir. Francisco, tornou-se a principal obra de estudo da vida do fundador pela maioria dos Irmãos. Ele é composto de duas partes: a primeira enfatiza a biografia do Fundador; a segunda, as suas virtudes.

31. L’Hermitage fica pequeno

Devido à chegada de muitos formandos e de irmãos encarregados de funções administrativas, a antiga casa mãe de L’Hermitage estava se tornando pequena; além disso, encontrava-se distante das principais vias de comunicação.

Pouco a pouco foi surgindo a ideia de mudar o local da Casa geral. A oportunidade chegou quando o prefeito e o pároco de Saint-Genis-Laval propuseram fundar uma escola em seu município, aos arredores de Lyon. Nas negociações foi mencionado um terreno perto da paróquia que era usado como vinhedo.

A propriedade foi comprada em 1853, e o Ir. Luís Maria ficou encarregado de realizar a construção. O Ir. Francisco sentirá falta de L’Hermitage, porém não era uma questão de opor-se a uma decisão tomada democraticamente.

Para pagar as despesas da construção vendeu-se a casa de Grange-Payre, uma propriedade doada ao Padre Champagnat, e que foi usada como internato e como casa de formação.

Enquanto era concluída e feitas as adaptações da nova casa, o Ir. Francisco encarregou-se de obter o reconhecimento eclesial da congregação.

32. Proclamação do dogma da Imaculada

O dogma da Imaculada Conceição de Maria foi proclamado no dia 08 de dezembro de 1854, pelo Papa Pio IX, ao sustentar que a Santíssima Virgem Maria foi preservado de toda mancha de pecado original desde o primeiro instante de sua concepção, por singular privilégio de Deus Onipotente, em atenção aos méritos de Cristo Jesus, Salvador do gênero humano.

O Ir. Francisco, que naquela data encontrava-se em L’Hermitage, ao saber da notícia, com apoio do Ir. Luís Maria, escreveu uma Circular a todo o Instituto.

No dia 02 de fevereiro de 1855, ele falava aos irmãos:

“No dia 08 de dezembro de 1854, a Igreja definiu como dogma de Fé a verdade da Imaculada Conceição da Santíssima Virgem Maria, Mãe de Deus, pela boca de seu chefe supremo, o Papa Pio IX, durante a maior assembleia de Bispos que a cidade de Roma possivelmente conheceu, e uma grande multidão de vinte e cinco mil cristãos reunidos na Basílica de São Pedro, no Vaticano.” (Circulaires, T. 2, p. 203. Circular de 02 de fevereiro de 1855).

“Acima de tudo (estava maravilhado), no momento de formular o dogma da Imaculada Conceição mediante as palavras sacramentais: definimos, decretamos, confirmamos, sua voz se enternece, seus olhos enchem-se de lágrimas, o pranto entrecorta suas palavras e a emoção do chefe contagia toda a assembleia”. (Circulaires, T. 2, p. 204. Circular de 02 de fevereiro de 1855).

“Por toda parte era possível ver imagens de Maria e inscrições em sua honra; por todos os lugares o lema: MARIA CONCEBIDA SEM PECADO ORIGINAL.”

33. Novas casas de formação

O Irmão Francisco se preocupava com a formação de seus irmãos. Além do Noviciado de l’Hermitage e o de Vauban, criados no tempo do Pe. Champagnat, e os de St-Paul Trois-Château e Viviers, fruto da união com outras congregações, ele abriu um noviciado em St-Pol-sur-Ternoise, passou o noviciado de Viviers para Bégube, o de Vauban para Hautefort e o noviciado de l’Hermitage para Saint-Genis. Já desde os tempos do Padre Champagnat havia sido criado uma estrutura de estudos para que os irmãos pudessem obter o Diploma que os habilitava para  ensinar. Durante as férias, em l’Hermitage, dava-se aulas e cursos para que os jovens irmãos pudessem se preparar para o exame, e um curso de atualização para todos os irmãos professores. Pouco a pouco esses cursos foram crescendo e se tornou o que depois seria chamado de escolasticado.

Em 1847, esses cursos aconteceram em Grange-Payre, mas com a venda desta casa, voltaram a acontecer em L’Hermitage.

34. Oceania

Em 1855, já eram cinco as Províncias: Notre-Dame de l’Hermitage, Saint-Pual-Trois-Châteaux, La Bégube, Beaucamps, e o que chamava de Província de Périgueux, com Hautefort. Porém, não se pode esquecer um 6º setor, a Oceania.

Nessas ilhas distantes, os irmãos formavam comunidade com uns 70 padres Maristas. Porém, ainda que a maior parte dos irmãos tenha sido formada em l’Hermitage, a separação dos padres deixou a incerteza se eles faziam parte da congregação dos Padres ou dos Irmãos. O Ir. Francisco foi da opinião que eles continuavam sendo irmãos maristas. Continuou enviando irmãos à Oceania e aos escrever-lhes, dizia:

“Ide, meus queridos irmãos, ali onde a obediência vos chama; sede bons missionários, muito constantes, amando o Senhor e a Santíssima Virgem. Estarei convosco durante essa longa viagem pelos oceanos. Os abençoo com todo o coração.” Seguramente se perguntou se seria factível, a partir desse terceiro apostolado (ajudar os Padres nas missões), também aceitar os outros dois (escolas rurais e os órfãos), para que os irmãos fossem reconhecidos como o foram os padres maristas.

35. Fundações e extensão para outros países

O Irmão Francisco não somente se preocupou em dar continuidade à obra missionária dos irmãos na Oceania, como também teve todo cuidado para tornar realidade a frase do Fundador: “Todas as Dioceses do mundo entram em nossos planos.”

Formou os irmãos em outras línguas e culturas e, em 1852, abriu a primeira escola marista na Inglaterra. Em seguida, em 1858, abriu a primeira escola na Escócia, e nesse mesmo ano na Bélgica.

Os três primeiros irmãos em Londres foram Gaston, Procope (ambos franceses) e o irmão Patrick (um irlandês londrino). Eles assumiram a escola paroquial de Spitalfields a pedido do padre Quiblier, sacerdote sulpiciano. A população de Londres contava com 2.363.000 habitantes, dos quais 108.548 eram irlandeses. Dois anos depois foi aberta a primeira escola em Glasgow, onde, anos mais tarde, o Ir. Walfrid fundaria uma equipe de futebol, o Celtic, com o objetivo de arrecadar fundos para sustentar uma escola gratuita e um refeitório para os pobres.

36. Viagem a Roma para o reconhecimento eclesial

O Irmão Francisco retomará os trâmites para obter o reconhecimento eclesial. Para isso foi a Roma em 1858, num momento em que o Papa está em disputa com a corrente do Risorgimento francês. Durante sua estada em Roma, o Irmão Francisco sofreu direta e violentamente as adversidades do contato com a realidade romana.

Acompanhado do Irmão Luís Maria, deixou Saint-Genis-Laval no dia 6 de fevereiro. Padre Nicolet, procurador dos Padres Maristas, advertiu-o antes de sua partida: “Em Roma eles estão cansados ​​de tantas instituições novas” e querem examinar cuidadosamente suas Regras e Constituições antes de aprová-las.

O Ir. Francisco crê que montou um bom arquivo e esperava obter uma aprovação provisória muito rapidamente.

Mas, em Roma, se desconfia dos franceses. Eles ainda não perdoavam a prisão do Papa por Napoleão. Além disso, o Irmão Francisco era um leigo, que fala um latim medíocre, pouco de acordo com os costumes eclesiásticos e se apresenta como o superior de uma congregação que não tem padres entre seus membros.

As congregações romanas pensam que os Irmãos Maristas são mais semelhantes aos Irmãos das Escolas Cristãs do que aos Padres Maristas. Ao mesmo tempo, e ainda mais grave: Roma recebeu reclamações de ex-irmãos sobre a forma como a congregação se organiza e o tratamento recebido.

Os trâmites e o prazo se dilatam e o Irmão Francisco regressou a Saint-Genis em agosto sem ter obtido a autorização que buscava.

37. A Casa de Saint-Genis

Durante o tempo em que o Irmão Francisco esteve em Roma, a Casa Geral do Instituto mudou-se de L’Hermitage para Saint-Genis-Laval. Era o ano de 1858. Todo o Governo do Instituto foi realocado, conhecido como “o Regime” juntamente com o Noviciado e todos os serviços da casa, incluindo grande parte dos ornamentos da Capela, o material escolar da livraria, a enfermaria, as oficinas e a sapataria foram transportadas para Saint-Genis. Infelizmente, durante a transferência, vários documentos do arquivo se extraviaram.

Apenas uma dúzia de irmãos permaneceu em L’Hermitage.

A casa Saint-Genis foi construída em grande parte com as poupanças e sacrifícios feitos pelos irmãos das comunidades. Cinco anos depois, a capela foi concluída. A casa recebeu mais de 100 noviços naquele ano.

38. Capítulo de 1860: Nomeação de um Vigário Geral

Roma, ao estudar as Constituições, pediu algumas mudanças. Para isso, o Irmão Francisco convocou um Capítulo Geral em 1860. Segundo as normas, os capitulares eram escolhidos entre os irmãos com voto de estabilidade. Eram 33 naquela época e deviam ser eleitos 30. Não houve eleição porque três deles apresentaram sua renúncia de ser capitular. O Capítulo se realizou na nova casa de Saint-Genis-Laval.

Durante as discussões, o Irmão Francisco surpreendeu a todos ao apresentar sua renúncia ao cargo de Superior geral. Ele argumentou motivos de saúde, dores de cabeça contínuas que o impediam de trabalhar. Possivelmente quatro razões influenciaram sua decisão: sua saúde precária; as responsabilidades crescentes; as exigências de sua vida interior e o exemplo do Padre Colin que, em 1854, renunciou ao cargo de Superior Geral dos Padres Maristas.

Sobre sua saúde, o Irmão Francisco de Borja, assistente geral na época do Irmão Diógenes (1920-1942), comenta:

“Não é de se estranhar que a saúde desse modesto operário do Senhor fosse ruim e até mesmo muito delicada aos 52 anos. O Irmão Francisco sofria de dores de cabeça há muito tempo. As dificuldades, ocupações e preocupações, a solicitude por todos não lhe deixavam um momento de descanso. Suas enxaquecas tornaram-se crônicas e atingiram tal gravidade que ele pediu para ser aliviado do peso do governo do Instituto…”

Depois de muita discussão, o Capítulo não aceitou a renúncia do Irmão Francisco, que permaneceu superior geral, mas, por motivos de saúde, transferiu totalmente seu cargo para o seu Vigário, o Irmão Luís Maria. Legalmente, o Irmão Francisco permanece à frente da congregação. Na prática, ele renunciou. Não vai mais intervir no governo.

Além disso, o Capítulo elege três novos assistentes. Essas nomeações são um meio de reduzir uma centralização que Roma considera excessiva.

39. Reconhecimento pela Igreja

O Irmão Luis Maria, Vigário geral, continuou os trabalhos para obter o reconhecimento do Instituto por parte da Igreja. Durante uma viagem a Roma em 1862, pediram-lhe para convocar novamente um Capítulo geral para revisar e aprovar novas Constituições.

Foi o Capítulo geral de 1862, que aprovou um projeto de novas Constituições e respondeu às observações realizadas pela Congregação para os bispos e regulares.

Em janeiro de 1863, o Instituto foi aprovado pela Sua Santidade o Papa Pio IX, no Decreto onde diz:

“aprova e confirma a Congregação dos Irmãos Maristas das Escolas”. Este era, com efeito, o nome dado pela Santa Sé a esta Congregação, que o governo francês chama de Irmãozinhos de Maria, congregação do ensino, dos Irmãos coadjutores dos Padres Maristas.

Eis aqui o texto:

“Nosso Santíssimo Senhor, o Papa Pio IX, em audiência concedida ao Senhor Secretário, abaixo designado, da Sagrada Congregação dos Bispos e Regulares, em 09 de janeiro de 1863, aprovou e confirmou, de acordo com o presente decreto, como congregação de votos simples, sob o governo de um Superior Geral, e salvo a jurisdição dos padres, segundo as prescrições dos sagrados Cânones e das Constituições apostólicas, o referido Instituto dos Irmãos Maristas da Escolas (Fratres Maristae a Scholis), cuja casa mãe se encontra na diocese de Lyon. Além disso, foi confirmado, a modo experimentum, por cinco anos, as Constituições abaixo escritas, tal e como se contém neste exemplar, sem que nada conste em contrário.”

40. Renúncia como Superior Geral

Os termos da aprovação das Constituições por Roma causaram alguns problemas, uma vez que alguns artigos estavam em contradição com os termos aprovados nos Estatutos do Governo de 1851. Seria necessário convocar uma segunda sessão do Capítulo geral para discutir e proceder a eleição-ratificação do governo do Instituto.

A segunda sessão do Capítulo geral aconteceu em julho de 1863. Como já se tinha obtido o decreto de aprovação, mesmo que provisório, não havia inconveniente para aceitar a renúncia do Irmão Francisco como Superior Geral e proceder a eleição de seu sucessor. O escolhido foi o Irmão Luis Maria.

O Irmão Francisco, ao término de seu mandato como Superior Geral, deixou uma grande legado:

  1. Uma Congregação legalmente reconhecida (1851).
  2. Cinco noviciados.
  3. O primeiro escolasticado, em la Grange-Payre.
  4. Novas Regras Comuns (1852).
  5. O Guia das Escolas (1853).
  6. As Constituições e as Regras de Governo (1854).
  7. Um voto novo – o de estabilidade (1855).
  8. A primeira biografia do Fundador (Ir. João Batista Furet, 1856).
  9. Uma nova Casa geral – Saint-Genis-Laval (1853-1858).
  10. 1536 Irmãos, mais de 500 noviços e postulantes, 394 escolas, e cerca de 50.000 alunos.
  11. A Congregação está presente em toda a França, além de obras na Bélgica, Inglaterra, Escócia e 19 Irmãos trabalhando na Oceania.
  12. Obtenção do reconhecimento Pontifício.

Em síntese, o Ir. Francisco estabeleceu sólidas estruturas à Congregação.

41. Nomeado Superior de l’Hermitage

A partir de 1860, depois de sua renúncia como superior Geral, o Irmão Francisco residiu em l’Hermitage, como superior da comunidade. Fez grande esforço para fazer de l’Hermitage um santuário Marista, a casa que Marcelino construiu com suas próprias mãos.

O Irmão Francisco foi sempre, e para todos, modelo de oração e vida interior. Por exemplo, quando voltava da comunhão, seu sorriso se iluminava pela alegria de haver recebido o Senhor.

Poucas cartas e notas de retiro ele nos deixou durante esses anos; porém, em uma delas ele escreveu: “Havia três coisas que São João da Cruz normalmente pedia a Deus: a primeira, não passar o dia sem sofrer; a segunda, não morrer superior; a terceira, terminar sua vida na humilhação” (24 de novembro).

42. O Formador

A casa do L’Hermitage, liberada da função administrativa, com a transferência da Casa geral e do noviciado para Saint-Geni Laval, foi convertida em uma casa de retiro, por algum tempo. Mais tarde, ela recebeu os irmãos que se preparavam para apresentar o diploma de educador, ou seja, tornou-se o que mais tarde seria chamado de escolasticado.

Francisco escreve em uma carta:

“Tenho aqui mais de 80 Irmãos para dirigir e formar e uma grande casa para cuidar, como o precioso relicário do Padre Champagnat, onde cada uma de suas pedras nos oferece sua memória religiosa. Então, eu não saio, vivo como eremita e não faço viagens ou visitas por motivos de saúde e para melhor cumprir as funções do meu encargo.” (24 de janeiro de 1862)

Em 1868, decidiu-se criar um juvenato na casa de L´Hermitage. Nesta casa de formação eram recebidos meninos de 11 ou 12 anos que desejavam ser irmãos, mas não tinham idade suficiente para entrar na postulantado. Funcionava como um internato primário. Foram esses meninos que começaram a chamar o irmão Francisco de “avô”.

Todos os domingos à tarde, o Reverendo Irmão Francisco, “o avô”, como era chamado na casa, presidia a leitura das notas. Ele aproveitava para dar uma pequena palestra sobre formação religiosa.

Um desses meninos assim se expressou mais tarde:

“Lembro-me que, durante os primeiros meses do meu noviciado, ficamos felizes em ver o pôr do sol de domingo chegar. Por volta das seis e meia, toda a comunidade estava reunida e Irmão Francisco deu sua instrução. Era uma fonte de grande alegria para todos ouvirem sua palavra simples, mas cheia de unção. Ele citava muitas vezes os exemplos e doutrina do Venerável Padre Champagnat. Portanto, suas instruções eram muito apreciadas pelos Irmãos e pelos noviços e produziram excelentes frutos espirituais nas almas.”  

43. O Santo diretor de l’Hermitage

Ir. Francisco considerava que o Superior deveria ajudar os Irmãos em sua vocação para a santidade. Ele convidava seus irmãos para cuidar da oração e da piedade: “O ofício será recitado, tanto quanto depende de mim, com a maior devoção“. Com paciência e amabilidade, mas ao mesmo tempo, com constância e firmeza, ele transformou l’Hermitage em uma casa de regularidade.

Pessoalmente, ele levava uma vida muito pobre. No estilo de seu padroeiro São Francisco de Assis, proclamava a bem-aventurança da pobreza: “Que alegria não possuir nada que nos retenha e possuir tudo contentando-nos apenas com Deus!”

A sua biblioteca continha apenas alguns livros. Quando ele falava com os formandos, ele disse-lhes, como São Bernardo tinha feito:

“Quem começa a ler não procura aprender coisas sobre Deus, mas prová-las”.

Ele sabia ser um superior exigente, que se apoia nas normas e, ao mesmo tempo, era gentil. Um de seus irmãos se recordava: “Quando Ir. Francisco impunha uma penitência, ele então a abrandava com palavras gentis ou atitudes apropriadas para fazê-la esquecer“.

44. Ecologista prematuro

Outra característica que desenvolveu, na imitação de seu santo padroeiro, São Francisco de Assis, foi seu amor por plantas e animais.

Irmão Francisco cuidava de um pequeno jardim onde cultivava plantas medicinais, com as quais preparava remédios para várias doenças.

Da mesma forma ele se importava com os pequenos animais que viviam nos arredores. Ele cuidava e os protegia. Uma formando daquela época recordou:

“Quando eu estava fazendo meu noviciado em L’Hermitage, grande foi o meu espanto quando a primavera de 1858 chegou, ver que os passarinhos faziam seus ninhos nos arbustos de rosas ou outros arbustos pequenos do jardim e em todos os buracos nas paredes de nossos parques de recreio. Eles os faziam ao alcance das mãos de qualquer um. Mas não demorou muito para eu ter uma explicação do que me parecia tão extraordinário, pois, na minha aldeia, tinha a paixão de correr para procurar ninhos e não para protegê-los. Fui avisado que o Ir. Francisco era muito duro nesse ponto. Ele não permitia que essas pequenas criaturas de Deus fossem impedidas na confecção de seus ninhos ou suas idas e vindas para trazer comida para seus pequenos.”

45. Silêncio e vida interior

Ir. François, como se pensava em seu tempo, tinha a profunda convicção de que a regra perfeitamente observada era o melhor meio de viver o Evangelho, ou seja, de ser santo. Para ele, o silêncio era um ponto essencial da Regra, e traduzia-a em atos concretos, como fechar uma porta, não falar ou pelo menos baixar a voz quando é necessário fazê-lo, manifestando prudência e discrição. Viver assim requer um profundo autocontrole. Sua intenção era clara: criar uma atmosfera de silêncio, o que torna mais fácil para todos viverem na presença de Deus.

46. Santo enfermeiro

O Ir. Francisco se fez acompanhante dos enfermos, inclusive, em um momento dado, ele pediu para acompanhar os Irmãos agonizantes, e este ministério o praticou durante muito tempo, desde 1826 até sua morte, com as pausas impostas por outras funções.

“O Padre Champagnat o havia mandado fazer um pequeno curso de enfermagem e o havia nomeado enfermeiro dos Irmãos. Ele preparava os remédios com grande habilidade; os doentes o preferiam a qualquer outro.”

Um Irmão narrou a seguinte anedota: Em 1860, encontrando-me em L’Hermitage como enfermeiro provincial, aconteceu-me o seguinte: O Ir. Ceferino, da classe especial, foi operado das amídalas. A da esquerda foi cortada muito profundamente, provocando uma hemorragia considerável, das 4 às 8 da noite. Deixando o enfermo aos cuidados de outro Irmão, fui correndo chamar o Reverendo Irmão, o qual veio imediatamente. Pediu-me o frasco de ácido sulfúrico e, pegando um pouco de algodão o embebeu no ácido e o aplicou durante alguns instantes na parte externa do pescoço, no lado esquerdo, e imediatamente a hemorragia estancou. Foi a aplicação do ácido que fez parar a hemorragia ou a oração do Superior? Pois ele se pôs a rezar enquanto aplicava o algodão com o ácido. Não sei! O certo é que a hemorragia se deteve instantaneamente e o enfermo que tinha tido uma síncope recobrou imediatamente o conhecimento.

A outro Irmão escreveu:

Meu querido Irmão,

A enfermidade do querido Ir. Acaire me permite recomendá-lo vivamente a você dar abundantemente aos seus colaboradores o que eles necessitam para superar as fadigas do ensino; conservar a saúde é a maior economia que você pode fazer para a Sociedade, sempre dentro dos limites da Regra, a menos (creio que não tenho necessidade de recordá-lo) que haja necessidade de uma tenção paternal que saiba descobrir a necessidade do religioso antes que ele a manifeste…

Uma de sua resoluções era muito clara neste aspecto: “Ver Jesus na pessoa dos enfermos: os visitarei e os consolarei tanto quanto seja possível”.

47. Homem de oração

Das suas reflexões e de seus ensinamentos resumimos o que concerne à oração na vida religiosa: “O religioso deve ser essencialmente um homem de oração. A oração deve ser uma ocupação familiar, o “ponto capital”, tal como Champagnat o chamava.

Modelo de religioso apostólico vivendo em comunidade, exige de si mesmo e dos demais uma oração comum o mais perfeita possível. As orações deveriam ser feitas lentamente, escutando o vizinho, para que a recitado fosse uniforme.

Todos os Irmãos, e até os vizinhos, observavam o intenso recolhimento que ele tinha na capela e, apesar de sua saúde sempre vacilante, mantinha-se de joelhos, de maneira heroica, sem apoiar-se no genuflexório.

Depois da morte do Irmão Francisco, alguns Irmãos recordaram:

Cada dia rezava a Via-Sacra, no meio da manhã, de joelhos, até 1876, e, de pé, durante os últimos cinco anos de sua vida, porque, ao ficar de joelhos, já não conseguia levantar-se sem ajuda… Fazia sua meditação entre nós e como um de nós, de joelhos sobre o solo. Estive muitas vezes ao seu lado: me parecia impregnado do amor de Deus… Sua compostura era tão edificante que me dizia a mim mesmo: “Falava com o Bom Deus, não se ocupava de outra coisa senão d’Ele, evitando distrair-se. Parecia que a oração era seu alimento e que era muito natural para ele. Por isso suas circulares falam frequentemente sobre a oração, prova de que ele fazia dela seu prazer. Sempre o via em um profundo recolhimento.”

48. A Eucaristia

O Ir. Francisco demonstrava um verdadeiro amor e respeito pela Eucaristia. Pode-se dizer que ele tinha uma profunda intimidade com Jesus. Um exemplo disso era a maneira como animava e participava das celebrações do dia de Corpus Christi.

Seria possível citar dezenas de testemunhos que falam de sua atitude ao voltar da comunhão. Segundo o costume da época, era o único a comungar todos os dias. Alguns comentaram depois:

“Nós gostávamos de observar o Ir. Francisco quando ele voltava da comunhão com um sorriso nos lábios. Ao ver o seu rosto iluminado, era como estivesse possuído por um serafim. Chegando ao seu lugar, parecia um anjo prostrado em oração diante da divina majestade e abrasado pelos impulsos enviados para seu bem-amado Jesus, o qual ele tinha tido a imensa graça de receber.” “Tão recolhido, acrescenta outro, que parecia estranho vê-lo encontrar seu genuflexório”.

A capela é também o lugar onde devemos manifestar mais respeito, dizia ele aos formandos. Não se corre em um lugar santo, e o imprudente que se deixava surpreender em falta, não se livrava de ter que beijar o solo em reparação por sua falta de respeito. O Ir. Francisco não tolerava nenhum ruído, nem a mais leve perturbação.

49. Práticas Marianas

Para o Irmão Francisco, Maria foi, acima de tudo, um Modelo de Vida. Especialmente no que diz respeito à humildade e ao discernimento: “No mistério da Encarnação, ouvindo as palavras do anjo, ela evita a credulidade rápida e imprudente de Eva que se deixa enganar pelo diabo, e a repentina e seca incredulidade de Zacarias que não quis acreditar nas palavras do anjo. Ela reflete, examina, pede esclarecimentos e se submete ao reconhecer que o que lhe é dito vem de Deus e conduz a Deus, sem qualquer violação da lei e de seu voto. Modelo admirável de prudência e discernimento”.

Como para o Padre Champagnat, Maria é para ele: Mãe, Recurso Ordinário e Primeira Superiora. Este último título é proposto, sobretudo aos Superiores e diretores: “A Santíssima Virgem saberá compensar-vos pelas pequenas privações que deveis suportar. Que esta boa Mãe presida sempre à vossa escola, regule e dirija todos os vossos esforços”. “Atuem como representantes de Maria”. “Considerem-se representantes da SSma. Virgem que vos confia uma pequena parte de sua herança”. “Entronize-a como superiora de vossa casa e diga a ela que você quer que tudo seja feito de acordo com suas ordens e desejos”.

Ele não tem escrúpulos em expressar seu amor a Maria por meio de múltiplas práticas. Em uma ocasião listou quinze delas, as mesmas que ele viveu:

  1. Pronunciar com frequência o seu nome, com os de Jesus e José.
  2. Pedir sua bênção ao se levantar e ao deitar-se, ao sair, ao retornar, ao iniciar os exercícios de piedade, os atos principais etc.
  3. Saudar com carinho suas estátuas. Maria é educada: ela retribui a saudação do céu. Que felicidade para nós!
  4. Levar consigo a medalha, o terço, o escapulário. 
  5. Trabalhar em frente de sua imagem ou estátua que deve estar nos cômodos principais da casa. 
  6. Oferecer-lhe o que recebemos, antes de guardar, de levar.
  7. Meditar suas alegrias, suas dores, suas glórias, seus benefícios.
  8. Celebrar suas festas com muita devoção e renovar a consagração a essa divina Mãe.
  9. Jejuar no sábado ou fazer alguma obra de caridade em sua homenagem.
  10. Falar com frequência sobre ela com as pessoas com as quais convivemos: Irmãos, alunos.
  11. Pedir-lhe que fale por nós, para cumprir nossos deveres para com Jesus Cristo.
  12. Confiar-lhe nossas tristezas e alegrias, projetos e medos. 
  13. Recitar com devoção o seu ofício, o rosário, a Salve, o Lembrai-vos, o Magnificat, o Ave Maris Stella, etc. …
  14. Fazer novenas em sua homenagem ou para preparar suas festas, confiar-lhe certos assuntos.
  15. Visitar suas estátuas, capelas e igrejas que lhe são dedicadas.

50. São José

O Irmão Francisco meditava frequentemente em São José. Via São José como modelo de autoridade e obediência em Nazaré: Quem pode compreender a perfeição de Maria e José ao mandar em Jesus? Em suas notas de retiro encontramos várias orações a São José. Durante sua doença em 1844, ele escreveu: “São José, nosso querido padroeiro e poderoso protetor, me socorreu de forma maravilhosa”. Ele cita Madre Rivière, fundadora das Irmãs de Bourg-Saint-Andéol, que propunha São José como modelo para suas comunidades: “Comportem-se com seus alunos como São José com o Menino Jesus”. “Coloquem-se, continua o Irmão, sob a proteção do glorioso São José. Este grande santo, testemunha e guardião da virgindade de Maria, e que praticou essa santa virtude em grau heroico, protege admiravelmente aqueles que a ele se dirigem para se proteger da morte da alma e não manchar o santo lírio da inocência”.

Ele o propõe como modelo: modelo de vida de oração e recolhimento, e patrono das almas de vida interior. Também um modelo, como a Sagrada Família, de trabalho manual, tão importante na vida do Irmão Francisco. “Para honrar a vida obscura e laboriosa da Sagrada Família, os Irmãos e noviços são empregados na cozinha, no jardim e em outros trabalhos manuais para a limpeza da casa e o serviço da comunidade. Eles devem se considerar felizes ao se parecerem mais como Jesus, Maria e José”.

Como Santa Teresa de Ávila convida os Irmãos que se sentem espiritualmente abandonados a recorrerem a ele: “Quem se encontrar sem um diretor que o guie pelos caminhos da oração, tome São José como guia; muito em breve conhecerá os meios verdadeiros e seguros de chegar ao fim que pretende”.

Durante sua estada em Roma, sente-se feliz por participar da novena a São José: “É bonito ouvir proclamar, cantando suas ladainhas, as glórias e belezas do glorioso esposo de Maria, padroeiro dos pobres e trabalhadores, protetor dos doentes e dos moribundos”. Ele coloca entre as datas importantes de sua vida a festa do Patrocínio de São José, instituída por Pio IX em 1847, para o 3º domingo depois da Páscoa. Em um 17 de abril, festa do referido patrocínio, recordando vários favores, chama-o “Ecônomo da Sociedade, Médico das enfermidades espirituais e corporais, Patrono e Modelo de governo do Instituto”.

Em suas cartas, muitas vezes se encontra essa maneira de despedida: “Deixo-vos com o divino Jesus, à sombra de nossa bondosa mãe e sob a proteção de São José: aí se está tão bem…”.

51. O avô – Notre Dame de l’Hermitage transformada em Juvenato

Como diretor da casa de l’Hermitage, o Irmão Francisco levava uma vida normal e tranquila, pode-se dizer contemplativa. Ele cuidava de uma parte do jardim, ocupava-se dos irmãos na enfermaria e dedicava muito tempo à oração. Ele não se esquivava do trabalho e aceitou em continuar sendo o superior da casa e dos estudantes, ele se exigia em presidir todos os eventos da comunidade, mesmos as orações e as refeições, e continuou a ministrar aulas de religião.

Embora exigente, era próximo dos formandos, conhecia cada um pelo nome e sabia orientá-los com conselhos oportunos. Foram eles que começaram a chamá-lo carinhosamente de “Avô”. Todos os domingos ele presidia a proclamação das notas dos noviços e aproveitava essa ocasião para encorajá-los a fazer tudo para agradar a Deus e à Santíssima Virgem.

Apenas para citar um exemplo, um irmão recordará mais tarde o momento em que chegou a l’Hermitage como postulante: “Ele quis ver todos os postulantes recém-chegados durante sua ausência. Era para conhecê-los. No meu caso, quando chegou a minha vez, com excitação e algum medo, entrei no quarto do superior. “Quem é você? Quantos anos tem? De onde você é? Você está se acostumando? Não há nada na casa que lhe cause tristeza? Você dorme bem etc.” Essas foram as perguntas que ele me fez com uma bondade quase maternal. Fiquei comovido. Eu estava prestes a sair para deixar o lugar para outra pessoa, quando ele me parou para me fazer a seguinte pergunta: “Meu filho, você toma as quatro?” Eu duvidava da resposta, porque não entendia muito bem o que quis dizer com a expressão: “Você toma as quatro?” Então ele mudou a forma da pergunta para ficar mais fácil para mim: “Você toma um lanche às quatro?”, ele disse com um sorriso. À minha resposta afirmativa, acrescentou paternalmente: “Alimente-se bem, meu filho, você precisa crescer porque você é muito pequeno, isso é um defeito que você vai corrigir, tenho certeza”.

Aquela pequena conversa com o primeiro Superior do Instituto deixou na minha alma um não sei o quê que me encantou. Senti uma alegria profunda quando saí para encontrar meus companheiros”.

52. Guerra de 1870 recebe os habitantes em Saint-Genis

Em 19 de julho de 1870, a França entrou em uma guerra malfadada com a Prússia, e o desastre foi imediato. O Ir. Louis-Marie foi a Tours para falar com o governo provisório sobre uma possível dispensa para os trabalhadores da educação pública, como era o caso de muitos Irmãos, quanto à mobilização das guardas nacionais. Os recrutas estavam organizados por legiões e, no início de outubro, ficou claro que a casa de Saint-Genis-Laval seria confiscada. Inicialmente era para abrigar 2.000 homens da 1ª Legião do Ródano. Isso não causou danos, mas, aos poucos, os quartos tiveram que ser abandonados. O irmão Louis-Marie passou o inverno em l’Hermitage.

Depois foi a vez dos mobilizados do Gironde que foram sucedidos pelos da Alsácia, depois a 3ª Legião do Ródano e, finalmente, os de Marselha. No total, a casa esteve ocupada durante quatro meses a partir de meados de outubro de 1870 e, no geral, bastante maltratada.

Em 10 de setembro de 1870, os Superiores souberam que teriam que sair de casa. Nos dias 10, 11 e 12 de outubro era necessário desocupar a casa. Eles trabalharam nisso dia e noite. Os mais velhos entre os jovens foram enviados às escolas; alguns, às suas famílias em caráter provisório, e os 52 noviços deviam partir para Notre-Dame de l’Hermitage.

Depois de uma noite muito curta, em 13 de outubro eles tiveram que caminhar de Saint-Genis a Rive-de-Gier, pois os trens estavam reservados para o exército. De Rive-de-Gier a Saint-Chamond de trem, depois de uma longa espera; uma vez na estação de Saint-Chamond, um novo teste de quatro quilômetros a pé para pessoas que já estavam cansadas. Eles chegaram a l’Hermitage às 11h30 da noite sem que ninguém tivesse avisado de sua chegada. O irmão Francisco os recebeu com estas palavras:

“Vocês tiveram que deixar a casa paterna de Saint-Genis-Laval, mas não se preocupem, meus queridos filhos, sejam bem-vindos na casa do vovô. Mas, como estamos no momento do grande silêncio em toda a casa, queria lembrar a todos essa obrigação de mantê-lo. No entanto, e como se trata de algo excepcional, continuem a falar mais alguns momentos, mas falem baixinho para não incomodar ninguém”.

Um dos noviços recordará este acontecimento como inesquecível, descobrindo naquela noite um religioso, fiel observador dos regulamentos, mas também um pai, um avô, como ele mesmo se chamava, cheio de bondade e cuidado paternal para com os netos.

53. Transbordamento do Gier

No dia 6 de maio de 1872, um novo transbordamento do rio Gier fez o Ir. Francisco lembrar aquela de 1840. Naquela ocasião, havia feito o mesmo que o Padre Champagnat: levou um grupo de jovens irmãos à capela de Nossa Senhora da Piedade, recitando o “miserere” durante a ida e as litanias da Santíssima Virgem, no regresso.

Façamos o mesmo, dizia. E durante a litanias da Virgem as chuvas cessaram. Quando saíram da capela, as águas do refeitório, que estava inundado, haviam baixado.

Nesta ocasião, colocou dois escapulários na janela do quarto. No mesmo instante, segundo testemunhas, a chuva cessou e o nível do rio baixou; o céu ficou claro e se dissipou todo temor. O muro da casa do noviciado caiu numa extensão de 12 metros, porém o edifício principal estava salvo.

54. Última enfermidade: apoplexia

Em 1876, o Ir. Francisco foi vítima, possivelmente, de um derrame cerebral. Era 24 de maio, quando o Ir. Carloman o chamou em sua porta com o Laudetur Jesus Christus, e não ouviu nenhuma resposta. O Ir. Francisco havia perdido a consciência e estava ao chão. O Doutor Fredet, chamado de urgência, diagnosticou apoplexia fulminante com paralisia dos membros do lado direito. Seu estado era grave, quase desesperador. Mediante um telegrama, os dois Assistentes presentes em Saint-Genis foram avisados, assim como o seu sobrinho, o padre David. Mas houve uma ligeira melhora, e toda a casa é lançada em orações ininterruptas e os grupos se revezam a cada hora diante do Santíssimo Sacramento.

O Ir. Luís-Maria, Superior geral, chegou de Paris no dia 30 de maio. Exortou a Comunidade a fazer violência aos céus para obter uma cura milagrosa. E, desde logo, se a cura não foi nem repentina nem completa, foi, no entanto, sólida. “Não é de se estranhar que continue vivo, dizia o enfermo; rezaram tanto por mim que não poderia morrer”.  

55. Morte dos companheiros de caminho

Pouco a pouco os primeiros Irmãos Maristas foram morrendo. O Irmão Francisco terá que enterrar todos os Irmãos que foram seus companheiros na casa de La Valla, quando Marcelino Champagnat os convidou a “Ser Irmãos”.

O primeiro Irmão do Instituto, Irmão Luís (Audrás), faleceu em Notre Dame de l’Hermitage, em 3 de agosto de 1847.

O Irmão Lorenzo (João Cláudio Audras) faleceu em 8 de fevereiro de 1851, aos 58 anos, também em l’Hermitage. O Irmão João Batista escreve: “Antes de morrer, o Irmão Lorenzo disse ao Irmão Francisco, que se preparava para partir para Paris para ativar os procedimentos de autorização: Não se preocupe; quando eu estiver lá em cima com o padre Champagnat, verá como resolvemos o assunto entre nós dois”.

O Irmão Antonio (Couturier) faleceu em 7 de março de 1851, em Ampuis, onde foi sepultado. Em sua circular de 3 de julho de 1851, o Irmão Francisco escreveu: “Vejam, queridos Irmãos, partem nossos anciãos, aqueles que o Padre Champagnat havia formado e que tinham plenamente seu espírito, o espírito original da Sociedade: em menos de um mês perdemos os dois membros mais velhos da comunidade (Irmão Lorenzo e Irmão Antonio). Peçamos a Deus que viva e se perpetue entre nós o espírito desses bons irmãos, sua piedade simples e sincera, seu zelo pelo ensino do catecismo, seu amor à pobreza e à simplicidade, às regras e costumes do Instituto, sua dedicação a todos os seus interesses, seu respeito, sua submissão e apego aos que têm que os guiar. É verdade que essas virtudes brilharam, de modo particular, nos bons Irmãos Lorenzo e Antonio cuja morte lhes anunciamos… São verdadeiros irmãos de Maria e devemos fazê-los viver de novo na Sociedade, imitando suas virtudes e conservando seu espírito”.

O Irmão Estanislau (Claudio Fayol) faleceu em Notre Dame de l’Hermitage, em 2 de novembro de 1853. E algum tempo depois, o Irmão Bartolomé (Badard) faleceu em 5 de julho de 1877, aos 78 anos.

Também morreram antes dele seus companheiros no governo do Instituto: o Ir. João Batista (Furet), seu assistente, morreu em Saint-Genis, em 5 de fevereiro de 1872; e o Ir. Luis-Maria (Pierre-Alexis Labrosse), seu assistente, vigário e sucessor no governo, faleceu em 9 de dezembro de 1879. O Irmão Francisco expressará nesse dia: “Agora meus dois assistentes estão no céu. Tudo o que tenho a fazer agora é ir e me juntar a eles”.

56. VII Capítulo Geral

Com a morte do Irmão Luis Maria, Superior Geral, foi convocado um Capítulo Geral para eleger um novo superior. O Capítulo começou em 7 de março de 1880. O Capítulo foi constituído por 47 membros, entre eles o Irmão Francisco, que era membro de direito, os 8 Assistentes, o Irmão Procurador e o Irmão Secretário. A reunião capitular aconteceu em Saint-Genis-Laval.

A carta que os capitulares enviaram a todos os Irmãos contém um parágrafo sobre o Irmão Francisco: “Não podemos concluir esta carta, queridos Irmãos, sem expressar a alegria e o consolo experimentados por termos providencialmente, com bastante boa saúde, no meio de nós, nossos Reverendíssimo Irmão Francisco, primeiro Superior Geral eleito durante a vida do Pe. Champagnat, nosso piedoso Fundador. Sua presença nessa solene circunstância foi um forte incentivo para todos nós e, com alegria, cada um de nós pôde contemplar sua venerada pessoa, as virtudes da humildade, simplicidade e modéstia que caracterizam todo verdadeiro irmãozinho de Maria. Que possamos imitar o seu exemplo e corresponder assim, segundo o seu desejo, à santidade da nossa bela vocação”.

57. Morre um santo

No sábado, 22 de janeiro de 1881, ao meio-dia, o Irmão Francisco não compareceu à visita comunitária ao Santíssimo Sacramento. Como não costumava faltar às orações, preocupados com sua ausência, os irmãos foram ao seu quarto e o encontraram inconsciente, ajoelhado na beira da cama. Um derrame o deixou naquele estado. O capelão da casa administrou a unção dos enfermos, mas não deu sinal de ter conhecimento. Ele permaneceu neste estado até as seis da tarde, quando entregou sua alma a Deus.

O dia do enterro estava muito frio e havia 25 centímetros de neve… O Irmão Stratonique, superior geral, estava presente com outros Irmãos, todos “alegres e reconfortados com a ideia de estarem participando do funeral de um santo“.

O povo da região dizia: “Morreu um santo!” Porém, ele era pouco conhecido, exceto pelas pessoas que vinham consultá-lo, porque era um grande conhecedor de ervas e remédios feitos de plantas. Embora fosse pouco conhecido pelas pessoas, isso não impediu que uma misteriosa influência e admiração se espalhassem por ele. Aqueles que visitavam l’Hermitage afirmavam que sua figura se iluminava ao receber a comunhão e, ao retornar ao seu posto, seu rosto parecia transfigurado.

Seus restos mortais foram depositados ao lado do túmulo do Pe. Champagnat, no cemitério de l’Hermitage. Um pequeno monumento encimado por uma cruz foi erguido sobre seu túmulo. Em 1924, seus restos mortais foram trasladados para o interior da capela de l’Hermitage, onde ainda hoje podem ser venerados.

58. O Instituto com a morte do Irmão Francisco

Com a morte do Irmão Francisco, desapareceu a primeira geração que governou o Instituto, ou seja, os Irmãos que haviam sido formados pelo próprio Padre Champagnat. Com o falecimento do Irmão Francisco, o Instituto está devidamente fundado e consolidado, e é formado por aproximadamente 2.500 Irmãos, que lecionam para mais de 80.000 alunos, em 565 escolas.

O Instituto estava dividido em 8 províncias: Saint-Genis, Hermitage, St. Paul, Aubenas, North, Bourbonnais, Ilhas Britânicas e a do Oeste, além das missões da Oceania. Além disso, havia um grande número de formandos: uns 600 noviços, cerca de 130 postulantes e perto de 190 juniores.

59. Situação da Causa do Irmão Francisco

O processo de canonização do Irmão Francisco foi introduzido em Roma.

O processo diocesano ocorreu na diocese de Lyon, entre 1910 e 1922. Em 1924, os restos mortais do Irmão Francisco foram trasladados para o interior da Capela de l’Hermitage, onde ainda hoje podem ser venerados. O processo foi levado para Roma; a partir de 1929 seus escritos foram estudados. Em 1934 sua causa foi oficialmente introduzida.

Em 4 de julho de 1968, o Papa Paulo VI assinou o decreto da Heroicidade das Virtudes e, portanto, pode ser chamado de venerável. Com esse título, a Igreja reconhece que praticou as virtudes cristãs de maneira heroica, especialmente a fé, a esperança e a caridade.

60. Oração para pedir uma Graça

Bom Pai,

tu deste ao Irmão Francisco uma aptidão particular

para cuidar e curar os enfermos ou prepará-los para aceitar em paz

a evolução do seu estado de saúde.

Permite que recorramos a ele, para que possa,

como o fazia na sua vida terrena,

pedir a teu Filho e a Maria, sua santa Mãe,

a graça necessária para o problema de saúde que lhe confiamos….

Irmão Francisco, tu que nos escutas, intercede por nós.


Quem receber agradecimento ou quiser mais informações, entre em contato:

Postulación General

Piazzale Champagnat 2,

00144, Roma – Italia

Email: gjvillarreal@fms.it