A BOA MÃE E A VIRGEM DO VOTO

Reflexões sobre uma tradição iconográfica André Lanfrey - 02/2012 Cadernos Maristas 30

O relacionamento de Marcelino com Maria, a quem se referia como a “Boa Mãe”, foi marcado por profunda afeição e total confiança, pois estava plenamente convencido de que o projeto que empreendera, na verdade era dela. Escreveu certa vez:
Sem Maria não somos nada; com Maria temos tudo, porque Maria sempre tem seu adorável Filho nos braços e no coração. Essa convicção permaneceu com ele por toda a vida. Jesus e Maria eram o tesouro no qual Marcelino aprendera a depositar seu próprio coração. Esse relacionamento íntimo contribuiu para o dimensionamento da espiritualidade mariana. Em nossa tradição, a expressão “Recurso Habitual” traduz a plena confiança em Maria. O lema “Tudo a Jesus por Maria; tudo a Maria para Jesus”, atribuído ao fundador por seus biógrafos, revela o estreito relacionamento entre filho e mãe, atitude de confiança de Champagnat em Maria, atitude que somos convidados a viver (Água da Rocha, 25).

« Água do Rocha » é o documento que apresenta nossa espiritualidade marista. Por isso, é normal que venha com uma densa presença da Virgem Maria. Com efeito, vivemos de uma experiência primeira de Marcelino: maravilhado com o amor que Jesus e Maria lhe têm. Essa experiência atravessa toda sua vida, e continua, hoje, em nossa Família.Inicialmente, encontramos uma presença difusa de Maria, emergindo em muitos artigos do documento, acentuando nuances mariais que se enriquecem reciprocamente para compor o quadro da Mãe de Jesus.

A reunião anual da Comissão do Patrimônio Espiritual Marista foi realizada na Casa Generalícia de 11 a 15 de junho. Essa foi a última reunião da atual comissão, cujo mandato terminará no final de junho. Os objetivos e o conteúdo da reunião estiveram voltados para esta situação particular.

Num primeiro momento, dedicou-se um tempo bastante longo para partilhar os trabalhos realizados pelos membros da comissão durante o último ano, em relação ao patrimônio espiritual.

Do mesmo modo houve um tempo dedicado à reflexão sobre os Cadernos Maristas: aprofundamento do Caderno 36, recentemente publicado, e preparação do Caderno 37. A maior parte do tempo foi dedicada à redação do relatório solicitado pelo Conselho Geral: uma avaliação das atividades, os trabalhos realizados, o funcionamento da Comissão nos últimos seis anos e una reflexão para o futuro com desafios, perguntas, pontos de atenção sobre o tema do patrimônio espiritual, em geral, e em relação à Comissão. Tudo isso com o objetivo de ajudar o Conselho Geral no direcionamento e nas decisões que deverão tomar nos próximos anos.

Aproveitou-se a ocasião para várias reuniões e intercâmbios com os Irmãos João Carlos do Prado e Óscar Martín, novos conselheiros encarregados do Patrimônio Espiritual; e com o Ir. Anthony Leon, diretor do Secretariado Irmãos Hoje, encarregado de acompanhar a Comissão. Igualmente, com o Grupo de Formadores participantes de uma sessão de formação na Casa Generalícia, de oito semanas. A formação e o patrimônio espiritual do Instituto estão muito ligados.

A presença dos membros do novo Conselho Geral e do Conselho anterior, assim como do Grupo de Formadores, deram a esta reunião um caráter de universalidade excepcional. O Patrimônio Espiritual é também vida fraterna partilhada. Esta foi simbolizada, de certo modo, por um breve encontro com o Ir. Ernesto Sánchez, Superior Geral, que agradeceu os membros da Comissão por todo o trabalho realizado a serviço do Instituto.

A BOA MÃE E A VIRGEM DO VOTO

Reflexões sobre uma tradição iconográfica André Lanfrey - 02/2012 Cadernos Maristas 30

Em muitas publicações recentes1 , o Ir. Agustín Carazo, antigo Postulador-geral, tratou acerca das estátuas mariais do Instituto e de modo especial sobre aquela da “Boa Mãe”, estatueta de gesso da Virgem com o menino, com cerca de 75 cm de altura, cuidadosamente restaurada2 e hoje conservada em Roma. Nesses textos ele nos lembra que essa estátua figurava provavelmente em l’Hermitage, desde 1824 na “capela do bosque” e mesmo antes, em La Valla, no quarto do Pe. Champagnat.
Substituída depois por estátuas maiores e sem dúvida mais de acordo com o gosto da época, parece que ela foi um pouco esquecida, embora o Ir. Francisco mencione sua presença em St Genis-Laval no quarto que ocupava3 o Ir. João Batista4 .
Ela figura ainda em 1882 num retrato de Champagnat em sua escrivaninha, pintado pelo Ir. Wulmer, belga5 . A estátua depois fez parte das mudanças da casa-mãe: em 1903 para Grugliasco, em 1939 para Saint Genis-Laval e, enfim, para Roma em 1961. Foi lá, no local dos arquivos, que o Ir. Agustín Carazo, procurando documentos, a descobriu num saco, por acaso, em fevereiro de 1982. Ele narra depois a história da “ressurreição” dessa estátua que recebe o nome de “Boa Mãe” e que as reproduções fotográficas tornam popular entre os Irmãos Maristas. Um Irmão brasileiro, Francisco das Chagas Costa Ribeiro, autor de uma tese de Mariologia, em Roma em 1988, indica que o modelo dessa estátua de gesso se encontra na catedral de Rouen, sob o nome de Virgem do Voto6 .

Uma segunda estátua da “Boa Mãe”, grosseiramente pintada, esteve sempre em l’Hermitage. Um Irmão da Província de Castela (Esteban Martín) elabora um molde a partir dela e assim se multiplicam as estátuas de gesso, mas também de madeira, de terracota ou de outros materiais, de diversos tamanhos, especialmente na América Latina. Entretanto, essa representação não parece ter ultrapassado o mundo dos Irmãos Maristas.

DUAS ESTÁTUAS ORIGINAIS DA “BOA MÃE”

O Ir. Carazo soube, portanto, dar-nos um histórico muito sólido da história da estátua da “Boa Mãe” entre os Irmãos Maristas, permitindo, de algum modo, uma ressurreição dessa peça importante de nosso patrimônio espiritual primitivo. Penso, entretanto, que ele subestima a importância da estátua sempre presente em l’Hermitage que, a seu ver, é claramente menor que a de Roma e seria de época mais tardia. Ele levanta, portanto, a hipótese de que teria sido adquirida, depois de 1860, pelo Ir. Francisco de volta a l’Hermitage.

A meu ver, essa estátua seria mais ou menos contemporânea daquela de Roma. Sendo, porém, meu propósito completar o trabalho histórico do Ir. Agustín Carazo, apresentarei a discussão sobre esse ponto particular no fim de meu artigo.

A VIRGEM DE LECOMTE (1777)

A Virgem do Voto, de Rouen, é uma estátua de mármore de tamanho normal (cerca de 1,60m) colocada hoje na capela Santa Margarida, uma das numerosas capelas laterais da nave da catedral de Rouen, na Normandia.
Ela repousa sobre um cubo de pedra colocado sobre um altar em lugar do tabernáculo, sobre o qual está gravada a fórmula: “Nostra clemens, accipe vota” (Nossa clemência, recebe os votos)7 . Essa inscrição confirma o nome tradicional dado à estátua: “a Virgem do Voto”.

Esculpida por Félix Lecomte, foi oferecida à catedral de Rouen lá por 1775 pelo cardeal-arcebispo Dom de la Rochefoucauld. Ela se caracteriza por um traço original: o menino Jesus chupa o indicador.
Mas cumpre insistir sobre o fato de que essa estátua não está isolada: a dianteira do altar ostenta um baixo-relevo do mesmo escultor, mostrando Jesus morto, chorado por Maria e as santas mulheres.

Conforme o Dictionnaire des artistes de l’École française au XIXe siècle, Félix Lecomte nasceu em Paris, em 1737, e morreu em 1817. Em 1764 conquista o grande
prêmio de escultura e, em 1771, é recebido como membro da antiga Academia de pintura e escultura. Ademais ele foi professor da Academia de escultura e membro da Academia de Belas Artes. A estátua da Virgem e o baixo-relevo de Rouen estão entre suas maiores obras.

A BALAUSTRADA MEDIEVAL E A PRIMEIRA VIRGEM DO VOTO

Esse altar da Virgem do Voto não é o primeiro erigido sob esse vocábulo e não está em seu local primitivo. Com efeito, existia em Rouen, como na maioria das
catedrais medievais, uma balaustrada (galeria, divisória com imagens) isolando o coro da nave. Sobre esta, certamente de estilo gótico, Jean-François Pommeraye8 dá, no fim do século XVII, os pormenores seguintes:

“A balaustrada que cerca o coro foi enriquecida de dois magníficos altares de riquíssima escultura, do crucifixo e de outros ornamentos de marcenaria, todos revestidos de ouro. […] O altar do voto foi feito com recursos de fábrica. Fiquei sabendo (sic), de acordo com a memória de um particular que escreveu o que tinha visto, que esse altar da Virgem foi concluído no fim do mês de março de 1639 […] que a 26 de abril […] esse altar foi consagrado por M. François de Harlay, o antigo que nele pôs relíquias de S. Paulo apóstolo e de S. Nicásio. Foi denominado ‘voto’ devido a uma grande peste que afligiu por muito tempo a cidade de Rouen; isso obrigou a recorrer à misericórdia de Deus”.

O autor acrescenta: “O principal ornamento desse altar do voto é a imagem de Nossa Senhora feita de alabastro, doada pelo ano de 1357 por um cônego chamado François Le Tourneur”. […] “O altar de Santa Cecília que está ao lado daquele do voto é célebre por causa da confraria ou sociedade dessa santa, onde os músicos se reúnem todos os anos para solenizar a festa”. […] Fiquei sabendo, de algumas memórias que, em 23 de abril de 1642, esse altar foi concluído & as duas imagens instaladas”9 . Para comemorar o evento, uma procissão é feita a 20 de setembro, e uma lâmpada brilha diante do altar da Virgem. Portanto, uma Virgem medieval, provavelmente já presente na catedral, é colocada em 1643 como a “Virgem do voto”, sobre a balaustrada ou galeria medieval, em companhia de Santa Cecília, que aí certamente já se encontrava.